O DJ, radialista e produtor musical foi uma das usinas do pop brasileiro e da dance music nacional

Por Augusto Olivani (Trepanado), no blog Selvagem

Na última terça-feira, 14 de abril, morreu aos 80 anos o DJ, comunicador e produtor musical Santiago “Mister Sam” Malnati. À primeira vista, ele parecia uma figura folclórica do pop brasileiro: ele será para sempre reconhecido como o produtor que fez da cantora Gretchen um grande sucesso, produzindo e produzindo os sucessos “Freak Le Boom Boom” (1979), “Conga Conga Conga” (1980) e “Melô do Piripiri” (1981). Também foi responsável por lançar a carreira fonográfica do inesquecível Gugu Liberato (1959-2019) em 1983, com a pedrada “Docinho Docinho”.

Mister Sam, contudo, foi mais que um operário da música – ele foi uma verdadeira usina. Esteve se envolveu em mais de uma centena de discos, compilando, financiando, compondo, arranjando, cantando e o que mais fosse necessário. Suas mudanças foram espalhadas por toda a cadeia da produção fonográfica, já que atuava como DJ, radialista, produtor e executivo de gravadora (na Copacabana Discos e, depois, na Building Records, que ele mesmo fundou no fim dos anos 70, e no selo Test Pressing). Também foi um dos primeiros VJs do Brasil, apresentando o programa Realce Baby na paulistana TV Gazeta nos anos 80, abrindo espaço para bandas como Titãs e mesmo para o humorista e futuro apresentador João Kléber.

Como dá para perceber, seu faro para o que tinha apelo popular era apurado, mesmo que seu estilo fosse considerado brega e cafona. E, de fato, ele tinha uma personalidade espalhafatosa, quase caricata: nascido em Buenos Aires, radicado em São Paulo desde 1973, falava português com aquele sotaque portenho, era despudorado e estava sempre pronto para dominar as conversas com suas histórias, como se estivesse permanentemente diante de um microfone. Ele mesmo disse que seu estilo era “safado” e se orgulhava de Jô Soares ter chamado seu trabalho de “bunda music”.

Para quem gosta do som da discoteca e busca LPs do gênero, encontrar uma das coletâneas do Mister Sam era algo corriqueiro há 15, 20 anos. São 10 volumes ao todo, com diferentes graus de raridade, sempre com capas divertidas. Era difícil passar indiferente por elas. O curioso era que sempre tinha algo “fora da curva” nelas, fossem algumas faixas obscuras, como vinhetas malucas do DJ ou as produções próprias, que só se descobriram sendo dele algum tempo depois (já que ele era pródigo em criar nomes de projetos malucos, como Flamenco Group, The Freedom Machine, The Vamps e Cosa Nostra Disco Band). Muitas dessas descobertas fizeram parte do repertório da Selvagem em sua gênese, quando essa coisa de “discoteca brasileira” ainda era algo maldito e um pouco revisitado.

Além de ser um dos arquitetos da discoteca brasileira, junto da tríade Durval Ferreira, Osmar Zan e Daniel Salinas, também ajudou a popularizar o rap e o breakdance no Brasil, graças ao projeto Black Juniors, que se tornou atração cativa nos programas de auditório na TV com o hit “Mas Que Linda Estás”, de 1984 (ele ainda assinou outros hits cult do gênero, “Quero Dançar o Break”, do trio Buffalo Girls, e “Don’t Push, Dance Dance Dance”, do Baby Face, que era um pseudônimo do cantor brega Nahim).

Com o passar dos anos, ficou mais difícil emplacar sucessos e encontrar o mesmo espaço que tinha nas paradas de sucesso. Mister Sam e Gretchen mantiveram parceria por mais alguns anos e depois Sam tentou emplacar sucessos com sua companheira Lady Lu (é num dos discos dela que tem “Chic a Boom”, música que flerta com o EBM e que está no Boiler Room da Selvagem no Dekmantel 2017 ). Ele ainda atingiu um último sucesso com uma formação tardia do grupo Dominó, com a música “Baila Baila Comigo”. De qualquer forma, o nome dele já estava marcado na história do pop brasileiro.

Há muitos anos, antes mesmo da Selvagem existir, eu conheci um fotógrafo chamado Márcio Távora que era fã de música como eu e havia entrado em contato com Mister Sam, que depois da conversa havia emprestado a Márcio um fichário no qual guardava recortes de jornal, fotografias e souvenirs de toda essa trajetória, arquivando material para que alguém, um dia, pudesse contar a sua história. Era uma ótima ideia, pois os motivos eram incríveis (tem uma história um tanto impublicável, de quando ele foi um dos cicerones do cantor Freddie Mercury no Brasil à época do show do Queen no Rock in Rio de 1985, e cedeu seu apartamento para que o cantor usasse de alcova). Ainda bem que este material caiu nas mãos do jornalista André Barcinski (autor de livros como “Pavões Misteriosos”, sobre a música pop no Brasil), que passou os últimos anos entrevistando a pessoa e o personagem, se é que era possível dissociá-los. O lançamento do livro “O Universo de Mister Sam” acontece ainda este ano. Infelizmente, Sam não sobreviveu tempo suficiente para ver sua incrível história se tornar pública.

Para celebrar esta grande figura, preparei uma playlist que passa pelos pontos altos da carreira dele, começando pelo funk-rock psicodélico “Hey Hey”, da dupla As Exorcistas, e terminando com a faixa do Dominó já mencionada, passando pelo “terror disco” teatral do The Vamps, pelo flamenco dançante derivado de “Don’t Let Me Be Misunderstood” do grupo Santa Esmeralda (músicas do Freedom Machine e do Flamenco Group – aliás, ouvidos mais atentos vão identificar um sample usado no edit “Chitty Disco” ) e pela fase breakdance. Está no YouTube, já que quase nada está nas plataformas de streaming.

👂PLAYLIST Especial Selvagem: Mister Sam

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