O atalho pra cinco séculos

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POR ALBERTO HELENA JR.

Tava aqui vendo e ouvindo na tv o garoto Caio, grande promessa do Flu, autor de um dos dois gols (o outro foi de Ramon, um pontinha esperto, hábil e igualmente de futuro), mandando um beijo pra sua mãe: “Uma guerreira!”, arrematou o menino.

Aliás, é recorrente nas Copinhas a molecada, ao marcar um gol, correr em direção à câmera da tv à beira do gramado e mandar um beijo às suas mães: “Mãe, eu te amo!”.

Pra muita gente pode parecer brega, sentimentaloide ou algo do gênero.

Mas, pare pra pensar, meu. Esses meninos, quase todos, vêm das periferias de onde moram a riqueza e o bem-estar, o acesso fácil à educação e à segurança pessoal. São fruto de quinhentos anos de pobreza, ignorância e submissão às incertezas da vida.

Suas mães, em geral, são solteiras, viúvas ou abandonadas por maridos irresponsáveis ou simplesmente infelizes. Carregam no colo uma ninhada que sustentam como podem, tentando mantê-la fora do alcance da violência que ronda seus lares todo o santo dia: faxineiras, quituteiras, verdureiras, empregadas domésticas, enfim, o emprego que estiver ao seu alcance, aquele que não exige diplomas ou conhecimentos específicos. Afinal, elas, como seus filhos, netos e bisnetos formam aquela legião imensa dessa gente bronzeada, como dizia o poeta baiano Assis Valente, cujos ancestrais chegaram ao Brasil nos porões dos navios negreiros e aqui se juntaram aos brancos degredados e aos nativos igualmente cativos.

A escravidão física foi abolida há mais de duzentos anos. Mas, o acesso à igualdade, ah, essa, nem pensar.

O atalho que lhes restou pra dar um salto de quinhentos anos numa só geração praticamente se restringe a esse caprichoso e encantador jogo da bola, em torno do qual giram milhões e milhões de dinheiros de todas as cores, denominações e valores por esse mundão afora.

Imagine só: são milhões de brasileirinhos sonhando em escapar do gueto da pobreza, quando não da miséria, correndo atrás de uma bola que, na sua ânsia, representa nada menos do que o mundo.

E, quando conseguem romper a barreira do espaço e do tempo, a renhida competição com tantos iguais a eles, e viram craques bem remunerados, alguns deles verdadeiros milionários, fruto tão-somente do seu esforço e talento, vêm os afortunados da sorte, aqueles que tiveram todas as oportunidades que esta sociedade injusta lhes oferece, e disparam: “Como é que esse negrinho analfabeto ganha muito mais do que eu apenas chutando uma bola?” Outro se junta a este: “Mercenários!” E assim por diante.

Eles são os artistas, são eles que fazem a roda da fortuna girar arriscando suas cabeças e pernas duas ou três vezes por semana durante dez, quinze anos do melhor de  suas vidas, viajando daqui pra lá, enfurnados em concentrações, longe dos seus e expostos tanto à glorificação das pessoas nas ruas quanto ao escárnio delas, onde estejam.

Bem, de qualquer forma, as esperanças se renovam a cada ano que chega sob o aceno da Copinha, a primeira porta de entrada para o futuro desses meninos. E, para os bolsos já recheados dos empresários, claro.

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