Cartel político do futebol se opõe a reformas, diz ex-chefe de comitê da Fifa

2017-12-01t104036z_1020516311_rc18e002e270_rtrmadp_3_soccer-worldcup-draw

Em maio de 2016, o português Miguel Maduro foi contratado pela Fifa para uma missão ambiciosa: limpar a entidade, devastada por escândalos de corrupção. Seu trabalho foi interrompido um ano depois pelo mesmo homem que o havia contratado, Gianni Infantino, presidente da Fifa. Maduro foi demitido em maio de 2017.

– O futebol é uma cultura fechada e resistente à transparência e à prestação de contas – disse Maduro ao GloboEsporte.com numa entrevista realizada por e-mail e por telefone nos últimos dias de dezembro.

Maduro era o presidente do Comitê de Governança, órgão criado pela Fifa que tinha, entre outras atribuições, fazer os “integrity checks” dos integrantes da entidade. Ou seja: cuidar para que os ocupantes de cargos importantes na Fifa tivessem “ficha limpa”.

Em março de 2017, Maduro e sua equipe impediram que o russo Vitaly Mutko fosse reeleito para o Conselho da Fifa. Mutko é vice-Primeiro Ministro da Rússia e, na época, também era o presidente do Comitê Organizador Local da Copa do Mundo de 2018, cargo ao qual ele renunciaria meses depois.

– O Presidente (Infantino), e outras pessoas em seu nome, como a secretária-geral (Fatma Samoura), insistiram de formas diferentes e em diferentes ocasiões para que eu não excluísse Mutko. Como é público, resisti a esses pedidos ou pressões, e poucos meses depois não fui renovado (como chefe do Comitê). Acho que não é difícil tirar uma conclusão.

A demissão de Maduro gerou a saída imediata, em solidariedade, de outros integrantes do Comitê. Um deles foi o sul-africano Joseph Weiller, professor da Universidade de Nova York, que também fez críticas duras à Fifa numa entrevista ao GloboEsporte.com em novembro de 2017.

Além de ter demitido Miguel Maduro, a Fifa trocou os dois chefes do Comitê de Ética, o suíço Cornel Borbely e o alemão Hans-Joachim Eckert. Essa decisão foi tomada pela Fifa em maio de 2017, durante o congresso anual da entidade, no Bahrein.

O estatuto da Fifa diz que o Comitê de Governança deve ter “pelo menos metade de seus integrantes independentes” do futebol. Dos 10 atuais membros do Comitê, só quatro são independentes e seis são ligados ao mundo do futebol.

Na avaliação de Miguel Maduro, a Fifa nunca vai se reformar de verdade, “porque a liderança que deveria promover essa reforma depende daqueles que precisam ser reformados”. Ou, nas palavras mais duras escolhidas pelo professor português:

– A liderança da FIFA não responde perante a opinião pública ou aos fãs do futebol, mas sim ao cartel político que controla o futebol e se opõe a reformas genuínas. Entre sobreviver politicamente ou reformar, a liderança escolhe sobreviver.

Maduro defende a criação de uma agência independente, “não para gerir o futebol e os outros esportes”, mas para garantir que “as entidades que os comandam atuem de acordo com certos princípios éticos e de boa governança”.

– O esporte é uma área de enorme importância social e que corresponde aproximadamente a 2% do PIB mundial. Não é concebível que uma área com esta importância não esteja sujeita a nenhum escrutínio e controle público.

O português avalia como “importante” a investigação das autoridades americanas – que resultou no indiciamento de mais de 40 pessoas na condenação de cartolas como o brasileiro José Maria Marin – mas ainda longe de resolver o problema da corrupção no futebol.

– O combate à corrupção precisa ser acompanhado de um mínimo de regulação, de escrutínio público.

Na última semana de junho de 2018, durante a Copa do Mundo da Rússia, Maduro vai organizar em Portugal, na Universidade Católica do Porto, um curso de verão sobre Governança no Esporte. Entre os professores, estarão outros ex-integrantes da Fifa, como Joseph Weiler e Cornel Borbely.

Um comentário em “Cartel político do futebol se opõe a reformas, diz ex-chefe de comitê da Fifa

  1. Falar em transparência, para quem chefia entidades não-governamentais como a FIFA, é o mesmo que defender intervenção estatal. Evidentemente, não é. Organizações não-governamentais são, por definição, entidades independentes do governo, sem fins lucrativos e que desempenham função ou atividade de interesse público. E, por esse interesse público, desfrutam, em troca, de certas vantagens legais como contra-partida pela utilidade pública do serviço que prestam, como renúncia fiscal e abatimentos generosos de impostos, em alguns casos. Então, é claro que o poder público deve estar atento à atuação dessas entidades porque trata-se efetivamente de recurso público em mãos de terceiros, já que a tributação às ONGs é, no mínimo, camarada. Existem mecanismos legais que prescindem da vontade das ONGs, como o Código Civil, para permitir a atuação do poder público, via Ministério Público, sobre a contabilidade dessas organizações. Mas vê-se que o MP está particularmente interessado em outros assuntos, como em política, daí…

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s