Joaquim Barbosa e Moro, as faces diferentes do punitivismo

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POR LUIS NASSIF, no Jornal GGN

Se os excelsos Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) quiserem conhecer a natureza real das delações premiadas, devem convidar delatores para uma audiência privada, sigilosa, para que relatem o ambiente da prisão de Curitiba e o papel dos procuradores – não apenas os de lá, mas aqueles ligados à Procuradoria Geral da República.

O medo os mantêm calados, Mas, daqui a alguns anos, depois de cumpridas as penas, essas histórias virão à tona e mancharão definitivamente a imagem da Justiça nesse período.

Não se sabe se o fato de ter sido exposto na delação da JBS, mas o nome de Marcelo Miller sempre é citado como o batedor, o sujeito incumbido de espalhar o terror nos prisioneiros para induzi-los a delatar.

E não havia preferências. De criminosos óbvios a executivos sem nenhuma noção das ilegalidades cometidas, todos  recebiam o tratamento da tortura psicológica até abrir o bico para dizer o que os procuradores queriam que dissessem. Havia as conversas preliminares, nas quais os procuradores infundiam terror, os anos de condenação a que estariam sujeitos.

Se o prisioneiro tivesse noção de direito e alegasse que sua atuação nada tinha de criminosa, era contestado. O procurador alegava mudança na jurisprudência, dizia que a Justiça sempre ficaria do lado da Lava Jato e apontava o vingador Sérgio Moro segurando a corda da giulhotina.

As condições eram as mesmas. Especialmente no caso da delação maciça da Odebrecht, a condição para uma delação favorável seria admitir que cometeu crime e, de alguma forma, envolver Lula. Os peixes mais graúdos tinham outros caminhos, através dos advogados que integravam a milionária cadeia produtiva da indústria da delação.

Nenhum governante minimamente informado trata de dinheiro. Fernando Henrique Cardoso sabia dos financiamentos de campanha, assim como Lula, Fernando Collor e outros presidentes. Não há um caso sequer de presidente negociando propinas ou financiamentos. O caso mais explícito conhecido até agora é o do inacreditável Michel Temer indicando o seu caixa para Joesley Batista. Assim, os candidatos a delatores tinham que se virar ou fazendo afirmações inverossímeis, ou afirmações óbvias não acompanhadas de provas.

A pressão maior era sobre familiares. Se o prisioneiro tivesse uma empresa limitada e colocasse um filho como sócio – por exigência da legislação -, ainda que com participação irrisória, o procurador chantagearia, ameaçaria envolver o filho. Várias delações foram obtidas dessa maneira.

Os exemplos desses tempos de terror não se esgotam na Lava Jato. Ainda há muito a se escrever sobre o período em que o espírito de Torquemada assumiu a presidência do Supremo Tribunal Federal, na figura de Joaquim Barbosa, na AP 470, do “mensalão”.

O sadismo de Joaquim Barbosa beirava o desequilíbrio. Sérgio Moro e procuradores da Lava Jato exercem suas arbitrariedades friamente, têm método, sabem quando usar a mídia, sabem quando atender os advogados mais próximos, usam o terror para fins políticos explícitos, sempre de um olho na repercussão midiática.

Já Joaquim Barbosa não atuava por motivação política nem para atender à demanda de escândalos da mídia. Era pelo prazer, pelo orgasmo de infligir sofrimento, em uma revanche diuturna contra a vida. É o exemplo maior do espaço que a guerra midiática abriu para as figuras mais desequilibradas, da malandragem explícita do MBL, às personalidades mais sádicas do Judiciário.

O juiz que entendia de medicina

O episódio mais emblemático envolveu a figura unanimemente reconhecida como a mais inocente, de José Genoíno. Na condição de presidente do PT, Genoíno assinou contratos de empréstimo do partido com o Banco Rural. Até ministros que votaram por sua condenação reconheceram que a assinatura foi de boa fé.

Condenado, remetido à papuda, Genoíno ficou sob a guarda do juiz Ademar Silva de Vasconcelos, da Vara de Execuções Penais do Distrito Federal. Barbosa o considerou condescendente demais e pressionou o presidente do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios, Dácio Vieira, para transferir o processo para o juiz substituto Bruno André Silva Ribeiro.

A atuação conjunta de Barbosa e Ribeiro é a repetição de movimentos psicológicos similares em torcidas de futebol ou no efeito-manada que une linchadores, a estranha solidariedade que junta personalidades desequilibradas em um ritual sádico.

Certa manhã, na Papuda, o médico José Ricardo Teixeira examinou Genoíno e notou alteração no seu eletrocardiograma. Genoíno havia sido transportado do Hospital Sirio Libanês para a Papuda, logo após uma cirurgia de alto risco.

Telefonou para a gerente da administração penitenciária, Larissa Feitosa, responsável pela Papuda, que imediatamente informou o Secretário de Saúde do Distrito Federal da necessidade de transferir Genoíno para um hospital, já que o presídio não tinha condições de atender a emergências cardíacas.

Estava a caminho da Papuda, quando o juiz Bruno lhe telefonou:

– Que história é essa de encaminhar o Genoíno. Ele é o MEU preso!

– Doutor, estou indo para lá para ver a situação dele.

E Bruno:

– Pois eu também.

Chegando à Papuda, o juiz Bruno entrou na cela de Genoíno. No corredor, ficaram Larissa, o médico, o vice-diretor, os seguranças.

Bruno saiu da cela com o diagnóstico pronto:

– Basta uma dieta.

E apregoou seus conhecimentos de medicina: tinha sido técnico em enfermagem.

Saiu de lá, e o médico José Ricardo insistiu com Larissa

– Minha conduta é encaminhar.

Foi-lhe recomendado para ficar de olho em Genoíno e reavaliar.

No dia seguinte, quando Larissa chegou na Papuda, o médico tinha feito outro eletro eletrônico, e o quadro tinha piorado. Havia agora três alterações.

Larissa não vacilou. Ligou para o Secretário de Saúde informando que iria encaminhar Genoíno para uma clínica especializada. Imediatamente o secretário ligou para diretora do Incor. Larissa ligou em seguida, informando sobre o quadro de Genoíno. A médica não vacilou:

– Não pense duas vezes, traga o paciente.

Quando chegou o coordenador do sistema penitenciário, para coordenar a reunião que deveria decidir sobre a transferência, nada havia a decidir.

– A decisão não é de vocês, é decisão médica – informou Larissa.

Entrou na cela para comunicar a decisão a Genoíno.

– Pode ser que o senhor chegue lá e não tenha nada ou que esteja infartando. Estamos tratando o senhor do mesmo modo que trataríamos qualquer cidadão.

Genoíno concordou com a transferência.

Foi colocado em uma viatura descaracterizada. Larissa ia no banco da frente, ajudando a driblar os cones da penitenciária.

No caminho, ligou o técnico em enfermagem Bruno.

– Que história é essa?

– Doutor Bruno, deu três alterações.

O juiz Bruno  rumou, então, para a Papuda e informou que ele havia dado autorização para retirar Genoíno. Assim que terminou o atendimento, Joaquim Barbosa ordenou sua volta à prisão.

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Daqueles tempos cabeludos, restam demonstrações inesquecíveis de coragem e algumas exceções de bom jornalismo. Como a do advogado Luiz Fernando Pacheco, que ousou enfrentar Barbosa no próprio STF, em um episódio que descompensou de tal modo a personalidade complexa de Barbosa, que apressou sua aposentadoria; do jornalista Felipe Recondo, que ousou fazer jornalismo em plena tempestade midiática. E Larissa Feitosa, exemplo maior.

Cada qual, em determinado momento, cumpriu com suas obrigações em relação à profissão que abraçaram.

A repetição indefinida de casos similares no Judiciário mostra muito mais que coincidência. É resultado direto de uma epidemia social cujo vírus foi o ódio alimentado diuturnamente por uma campanha midiática irresponsável.

Que texto. Cabra bom, tidizê…

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