Tribuna do torcedor

20 de novembro de 2017 at 16:18 1 comentário

POR JOSÉ DO SOCORRO CAMPOS DA ROCHA

Mais uma vez a gloriosa Tuna Luso Brasileira ficará sem calendário para 2018, e repito ‘mais uma vez’ tudo pela incompetência de seus dirigentes  amadores, que, na minha visão de torcedor tunante e desportista, aceitaram e concordaram com um regulamento que não qualifica as duas melhores agremiações que passarão para a 1ª divisão do Campeonato Paraense.

Tudo que começa errado, termina errado. Partindo da premissa de que não são apenas os dirigentes tunantes que são “irresponsáveis”, a direção da Federação Paraense de Futebol também tem a sua parcela de culpa, pois elaborou um campeonato de acesso, permitindo que alguns filiados (comprometidos com ela) se inscrevessem sem estádio (Belém, Vila Rica, Tiradentes, Desportiva, Carajás, Gavião Kyikateje, Paraense e Santa Rosa) e, o que é mais grave, sem registro de documentos legais (o Pedreira do Mosqueiro que antes do início da 1ª rodada, teve que ser eliminado). Pode?

Aqui nessa terra tudo pode. Até a fase preliminar tudo ocorreu dentro da sua normalidade. Talvez o grande erro tenha sido na fase seguinte, em que os clubes participantes aceitaram jogar um mata-mata em partida única, quando o correto seria fazer jogos de ida e volta. Agora é tarde, não adianta chorar o leite derramado, mas fica o alerta para que num futuro próximo não cometam o mesmo erro.

Um gestor de futebol tem que ter a competência de sugerir mudanças que venham beneficiar a todos. O futebol paraense está  falido há décadas e ninguém percebe ou finge que está tudo bem. O que houve de evolução em nossos clubes? Houve a conquista pioneira da nossa Tuna ao conquistar o primeiro título nacional, depois seguido pelo Paysandu, Remo e por último o São Raimundo de Santarém (que só foi para o cenário nacional porque a FPF acertadamente promoveu a  interiorização no futebol paraense).

Vale ressaltar que a maioria dos clubes do interior possui estádios. Com a inclusão deles, o campeonato ficou muito mais atraente, pois só dava a dupla Re-Pa e em algumas oportunidades a nossa Tuna. Com essa evolução, já tivemos dois campeões interioranos, Cametá e Independente de Tucuruí, que, com méritos, tiraram a hegemonia dos clubes grandes da capital. Clubes sem estádio não deveriam participar de nenhuma competição da FPF.

Mas, a mina de ouro ainda está aqui e os incompetentes (sempre eles) não perceberam isso. O nosso maior patrimônio felizmente ainda é o torcedor paraense. Temos torcida de 1ª Divisão e dirigentes de Série D. O torcedor paraense está de parabéns, pois troca de mulher mas não troca de clube, é um apaixonado.

Com acesso ou sem acesso, nunca irei abandonar a minha Tuna; prezo pelo voto que fiz quando o padre me orientou para que repetisse  no altar há 30 anos: “Prometo te amar e te respeitar, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, prometo-lhe ser fiel, até que a morte nos separe”. São exatamente 56 anos de casamento com a “minha TUNA LUSO BRASILEIRA” e sem traição!

Quando me refiro aos incompetentes gestores do nosso futebol, não posso deixar de mencionar os do Remo, do Paysandu e os da própria Tuna. O Remo mais uma vez não conseguiu o acesso. Culpa de quem? O Paysandu por um triz escapou do rebaixamento. Culpa de quem? E a nossa Tuna “mais uma vez”… Culpa de quem? Concordo plenamente com as palavras sábias do Paulo Fernando (Bad Boy): “Lisos, abandonem o futebol!”. Cadê a renda que sumiu da sede do Remo? Cadê o dinheiro que o Paysandu ganhou na Libertadores? Já o célebre Bola pra Frente Claudio Guimarães sempre enfatiza aos dirigentes o bordão “São essas coisas que eu não entendo!”

Infelizmente, ainda temos velhos e ultrapassados dirigentes amadores. Nosso clubes necessitam de jovens com mentalidades empresariais, os nossos clubes  precisam urgentemente virar empresa. Ter gestores com qualificação profissional é sinônimo de crescimento comercial.

A Tuna formou um bom elenco, contratou jogadores certos, mas pecou na intransigência e teimosia de seu treinador, que deixou na maioria dos jogos o Thiago Mandii e o Jefferson Monte Alegre (artilheiro do Campeonato Paraense do ano passado) no banco de reservas, e não deu oportunidade pro irmão do Bergson jogar, não entrando em nenhuma partida. Sugiro aos dirigentes tunantes um olhar mais atento para as divisões de base. Nesse time que foi formado somente dois  jovens eram da base, o Bruno Limão e o Yuri. Cadê a melhor escolinha de futebol do Pará?

Graças a Deus, passei por lá em uma época de ouro (1969/1970). Era do sistema de progressão, que ia desde o desde os dentes-de-leite até os juvenis. Cadê o clube que mais revelava jogadores para o Brasil e para o mundo? Vencedor não é apenas o que avança ou o que sobrevive, mas acima de tudo o que suporta os golpes sem desistir.

Não é hora de acharmos culpados. Todos nós temos, sim, uma parcela de culpa. Somos torcedores comodistas, dirigentes amadores, técnicos ultrapassados, jogadores pernas de pau, árbitros sopradores de apito… Enfim, todos contribuíram e ainda contribuem negativamente para o caos do nosso futebol.

Os tempos são outros, porém não há justificativas para tantas falhas e faltas. Falta dedicação, comprometimento, disciplina, determinação, atitude, ética, profissionalismo, honra, transparência, renovação, planejamento, seriedade, suor, sangue, amor à camisa e, principalmente, craques.

Se não mudarmos nossa forma de pensar, vai chegar um dia em que não vai haver mais Re-Pa. Já imaginou um campeonato local sem Remo e Payssandú? Seria um verdadeiro desastre. Mas, sem a Tuna perde-se o brilho, o glamour dos tradicionais clássicos regionais e a história de um clube detentor de 10 títulos estaduais, 02 títulos nacionais e a escassez da fonte reveladora de craques da escolinha de futebol, que sempre serviu à dupla Re-Pa e até à Seleção Brasileira.

Pra finalizar, quero parabenizar Parauapebas, Belém, Bragantino e Izabelense, que se classificaram com méritos para a próxima fase – e eles não têm nada a ver com a incompetência da Tuna Luso Brasileira.

Cordialmente,

José do Socorro Campos da Rocha

Educador/Gestor administrativo e financeiro

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Enquanto isso… O passado é uma parada

1 Comentário Add your own

  • 1. Miguel Silva  |  20 de novembro de 2017 às 20:55

    Leio nos jornais sobre a dificuldade de manter Bergson no Paysandu. Possivelmente a causa é a valorização do jogador em patamar acima das possibilidades de seu atual clube. Eis aí um exemplo do desnível financeiro entre nossos clubes e alguns outros da Série A ou mesmo da Série B, provavelmente os que almejam ter o artilheiro em suas fileiras na próxima temporada. Acompanho nossas discussões domésticas, enviesadas por paixão, rivalidade e pela distância a que estamos do centro decisório e financeiro do futebol e confesso que me divirto. O futebol brasileiro à medida que foi decaindo tecnicamente foi se tornando um esporte caro, envolvendo milhares e milhões de reais. Formar um time de Série A custa caro, pois envolve a contratação de técnicos e jogadores valorizados no mercado. Mesmo assim, o sucesso e a permanência na elite do futebol não é garantida e pode apresentar riscos, vide o caso São Paulo nessa temporada. Mesmo sabedores disso, imprensa e torcedores locais recorrentemente perdem tempo discutindo sobre saldo bancário de dirigentes, receitas de lojinhas de adereços, renda das partidas e programas sócio-torcedor como se isso fosse a salvação da lavoura. Nada mais secundário. Esquecem que nossos clubes precisam de “dinheiro grosso” oriundo de patrocinadores fortes, com capacidade de bancar bons elencos, mas que estão além de nossas fronteiras e somente se interessariam pelo que ocorre em nossa aldeia se lhes fossem apresentados projetos interessantes e rentáveis. Mas, temos esses projetos? Nossos dirigentes passam confiança administrativa aos potenciais investidores? Nossos clubes possuem infraestrutura mínima de trabalho para receber e treinar jogadores de nível mais elevado? Não vale apenas dizer que temos uma torcida apaixonada, vibrante e assídua (porém, de parcos recursos e, ainda, maltratada por ter de assistir seus times em estádios obsoletos e se deslocar aos jogos em ônibus tenebrosos). O sucesso do passado não é garantia de sucesso no presente. O futebol paraense,especialmente seus grandes clubes Remo e Paysandu, precisa se modernizar, estar sintonizado com a nova forma de fazer futebol, pois parou no tempo Esse é o grande desafio.

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