Oscar: “Se aquela cabeçada entra, fariam uma estátua no Maracanã pra mim”

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DEPOIMENTO A MATEUS SILVA ALVES, no Chuteira F.C.

“Ao longo da minha carreira, eu conquistei muitos títulos, tive vitórias especiais, mas o jogo que mais me marcou foi uma derrota. Aquela partida contra a Itália, na Copa de 82, ficou na memória dos brasileiros, não tem jeito. Até hoje as pessoas falam comigo sobre aquela partida, principalmente por causa da cabeçada que o Zoff (goleiro da Itália) pegou no finzinho do jogo.

Aquele lance acabou virando uma marca na minha carreira, não passa um dia sem que alguém venha falar comigo sobre ele. Aqui no meu hotel (na cidade paulista de Águas de Lindoia), por exemplo, sempre tem algum hóspede que me procura para conversar sobre a jogada. O jogo estava acabando e o empate nos levaria às semifinais, então se aquela bola entrasse nós não sairíamos da Copa. E eu viraria herói, acho que fariam uma estátua no Maracanã para mim (risos)

Embora eu não fosse de fazer muitos gols, já havia marcado um de cabeça naquele Mundial, contra a Escócia. Quando a bola veio, eu procurei caprichar, cabeceei para o chão, do jeito que é mais difícil para o goleiro, mas o Zoff pegou a bola quase em cima da linha. Anos depois, eu trabalhei como treinador na Arábia Saudita e tinha na comissão técnica um italiano que conhecia o Zoff e me contou que ele sempre disse que aquela foi a defesa da vida dele.

Depois daquele jogo, nunca mais tive contato com o Zoff, com exceção de uma entrevista que ele deu para a “Rádio Jovem Pan” da qual eu participei por telefone. Gostaria de tê-lo encontrado, até porque o pessoal que o conhece diz que ele é um cara simpático, gente boa. Não tenho bronca dele, nada disso, são coisas do futebol.

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Passados tantos anos, acho que o erro que cometemos foi não termos jogado mais fechados, pensando no regulamento, já que o empate era nosso. Nós jogamos para ganhar, até porque aquele time era ofensivo o tempo todo, mas foi um erro capital. Ninguém faria isso hoje. Depois que me tornei treinador, passei a ver o futebol de outra maneira e cheguei à conclusão de que deveríamos ter jogado de outra maneira contra a Itália.

Uma coisa que não houve, isso eu garanto, foi salto alto. Levamos o jogo muito a sério, principalmente nós da defesa, que tínhamos de estar atentos o tempo inteiro. A gente tinha visto a Itália jogar contra a Argentina (vitória italiana por 2 a 1) e eles não jogaram bem. É aquele negócio da Itália, não mostrou um bom futebol, mas ganhou. E o Paolo Rossi não fez nada naquela partida.

Nós já o conhecíamos, sabíamos que ele tinha sido suspenso por um escândalo com a loteria do país dele, mas não era um jogador que merecesse uma atenção especial. E, mesmo no nosso jogo contra a Itália, ele não fez nada que justificasse uma marcação pesada em cima dele. Se você for ver, no segundo e no terceiro gols a bola sobrou para o Paolo Rossi de um jeito que nem ele esperava. É verdade que ele estava bem colocado, mas também deu muita sorte. Não era um cara que estivesse endiabrado, driblando todo mundo, arrancando desde o meio do campo, nada disso.

Antes do jogo, o clima entre nós era de otimismo, até porque iríamos à semifinal mesmo em caso de empate. O grupo sempre foi alegre, no vestiário e no ônibus sempre tinha muito samba, pandeiro, a gente cantava aquela música que o Júnior fez para a Copa (“Voa, canarinho”)… Naquele dia, não foi diferente. Mesmo no intervalo, quando estávamos perdendo por 2 a 1, mantivemos a confiança. A gente achava que o time podia fazer um gol a qualquer momento, e podia mesmo. Era um time que jogava bonito, com triangulações, apoio dos laterais, uma equipe boa de verdade. Antes do Mundial, passamos dois meses treinando direto e o entrosamento era grande, todo mundo sabia exatamente o que fazer. Se a gente jogasse de novo contra a Itália, não perdia de jeito nenhum.

Por tudo isso, aquela derrota foi um choque muito grande. Foi duro ver a cidade (Barcelona), que estava toda enfeitada de amarelo, com muitos brasileiros nas ruas, ficar vazia, num silêncio danado.

A volta para o Brasil foi terrível, até porque o grupo se separou, não retornamos todos juntos. Mas tivemos uma surpresa maravilhosa. Do jeito que saímos do país como favoritos, com aquela festa toda, nós tínhamos medo de sermos hostilizados por causa da derrota, pelo menos era o que eu achava, só que foi o contrário. Quando cheguei ao aeroporto, vi muitos torcedores batendo palmas, dizendo que estavam orgulhosos pelo bom futebol que mostramos. Foi muito bacana mesmo, e até hoje é assim. Ninguém esquece aquele time, e o carinho do torcedor nunca diminuiu, eu sou sempre cumprimentado por causa do que nós fizemos em 82. Isso me dá um orgulho muito grande.”

FICHA TÉCNICA

Itália 3 x 2 Brasil

Evento: Copa do Mundo da Espanha – Segunda fase

Data: 5/7/1982

Local: Estádio Sarriá, em Barcelona

Árbitro: Abraham Klein (Israel)

Gols: Paolo Rossi, aos 5, Sócrates, aos 12, e Paolo Rossi, aos 25 minutos do 1º Tempo; Falcão, aos 23, e Paolo Rossi, aos 30 minutos do 2º Tempo

Cartões amarelos: Gentile e Oriali

Itália: Zoff; Gentile, Scirea, Collovati (Bergomi) e Cabrini; Oriali, Conti, Tardelli (Marini) e Antognoni; Graziani e Paolo Rossi. Técnico: Enzo Bearzot

Brasil: Waldir Peres; Leandro, Oscar, Luizinho e Júnior; Toninho Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico; Serginho e Éder. Técnico: Telê Santana

4 comentários em “Oscar: “Se aquela cabeçada entra, fariam uma estátua no Maracanã pra mim”

  1. Naquela época eu era apaixonado por futebol. Hoje, nem tanto. Aquele dia foi um dos mais tristes pra mim. Não poderia deixar de ser um pacheco (acho que essa figura era a personagem do momento nos comerciais) vendo aquela seleção jogar. Coisas do futebol. Nem sempre ganha o melhor e, por isso, esse é um esporte que apaixona milhões de pessoas. Hoje, resta apelar para o “se”: e se fizéssemos assim ou assado? Impossível voltar no tempo. Resta nunca esquecer os grandes perdedores, mas que foram os melhores em seu tempo como a Hungria, em 1954, a Holanda em 1974 e o Brasil em 1982. Quem os viu foi um privilegiado.

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  2. No final das contas, todos sem lembram dos ganhadores e esquecem dos perdedores. Em 94, a seleção canarinho era bem inferior à italiana, mas mesmo assim foi campeã mundial e até hoje o tetra é lembrado, os jogadores daquela final também, mas quem se lembra da outra equipe?

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