A origem de “coxinha”

16 de setembro de 2017 at 2:13 10 comentários

POR MÁRCIA TIGANI, via Facebook 

Quando estou entre meus amigos eu costumo relatar uma historieta acerca da gênese da expressão “coxinha”. Hoje, depois que um amigo me pediu para contá-la novamente, eu achei que seria uma boa hora para registrá-la por aqui para que todos vocês pudessem conhecê-la.

O nome/termo “coxinha” veio de uma gíria já existente há décadas na cidade de São Paulo e que antes designava apenas um xingamento direcionado aos policiais. “Encarregados de fazer a ronda, eles se alimentavam de coxinha em bares e lanchonetes – e, em troca, garantiam a segurança local.” Prestavam, em meio ao seu turno de serviço público, um bico de segurança momentânea a certos comerciantes que lhes ofereciam como pagamento apenas migalhas (coxinha e café coado).

Esses policiais costumavam e ainda costumam espantar das portas das padarias e similares os pivetes e os jovens moradores das comunidade locais. Eles costumavam e costumam espantar/afastar jovens que muitas vezes cresceram juntamente com seus irmãos e que por vezes frequentaram ou frequentam as mesmas escolas que eles frequentaram. Ou seja, são todos conhecidos, têm o mesmo berço econômico e social.

Tais jovens, ao serem “afastados/espantados” para longe dos estabelecimentos comerciais guardados pelos policiais ficavam furiosos e gritavam para os tais policiais: “Seu coxinha, você sabe que eu não sou bandido. Você me conhece. Você está defendendo esse cara em troca de uma mísera coxinha. Coxinha, coxinha!”

Ou seja, o coxinha, naquele contexto, era um xingamento dirigido a um policial que se escondia de sua própria condição (pobre, favelado e sem estirpe, mas que enganado por seu uniforme, pensava ser igual ou próximo ao rico comerciante e o avesso dos jovens pobres que ele espantava do local).

A expressão coxinha passou então a ser sinônimo daquele que defende um status quo ao qual ele não pertence. Ele defende os ricos, pensa ser rico, mas na verdade é um objeto a serviço dos ricos. Um instrumento para subjugar os seus iguais. O coxinha nunca terá o poder de um Aécio, dos Marinho ou de qualquer outro milionário ou mero empresário, mas ao defendê-los, o coxinha julga ser igual a eles.

Esses milionários não reconhecem o coxinha como seu par em igualdade, mas sim como um instrumento barato que defende e garante que ele (milionário) sempre tenha mais e mais.

O coxinha (na acepção primeira) é o policial que faz segurança na frente das padarias: defende o rico comerciante, acha que é amigo do dono da padaria, mas no fundo é apenas um instrumento barato. Esse policial vira as costas para os seus iguais, impede-os de esmolar por ali, usa da força para tirá-los do campo do rico comerciante.

Mas, caso uma desventura aconteça e esse policial venha a perder o seu emprego, esse rico comerciante não lhe garantirá direitos, nem comida e nem apoio. De modo oposto, os seus iguais, a sua comunidade, certamente lhe oferecerão o apoio necessário e até farão alguma rifa para ajudar sua família a não passar fome.

É isso: o coxinha é aquele que luta por alguém que nunca, jamais irá garantir-lhe os direitos de que ele precisa. O coxinha é o enganado. O termo se generalizou e passou a descrever o cara que pensa que um governante rico e poderoso irá construir melhorias para os trabalhadores, quando na verdade esses trabalhadores receberão desse tipo de governante apenas migalhas.

O coxinha pensa que é classe dominante. Ele se uniformiza à classe dominante: usa camisa polo de marca, já foi aos States, comprou casa e SUV financiados, critica as cotas e os nordestinos, fala mal do SUS e da ignorância da faxineira. O coxinha é o cara que põe gel no cabelo e sai por aí esnobando o seu brega Rolex e pensa ser igual ao CEO da multinacional. Ambos enganados, ambos coitados, ambos à mercê da fuga de suas origens.

Essa é a história da gênese da expressão coxinha e que eu desencravei há alguns anos em uma das tantas pesquisas que fiz por São Paulo.

Coxinhas são aqueles que viverão ao sabor das migalhas frias acompanhadas de café coado. A eles restará sempre e tão somente a azia e a má digestão, pois quem se iguala ao diferente recebe o que esse diferente acha que ele merece: coxinhas frias e nunca uma CLT.

(*) Márcia Tigani é médica psiquiatra, escritora e poetisa 

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10 Comentários Add your own

  • 1. Acácio F B Elleres - Campeão dos Campeões  |  16 de setembro de 2017 às 7:04

    Que beleza!

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  • 2. Antonio Valentim  |  16 de setembro de 2017 às 8:26

    Muito bom. Há muitos pelo Brasil, infelizmente!

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  • 3. João Pablo UFPA  |  16 de setembro de 2017 às 8:40

    Vale a avaliação inversa, tem quente que mora em bairros de classe media alta, moram em apartamentos com valor entre meio milhão e dois milhões de reais, tem carros que o pessoal da classe media alta tem, usa iphone do ano, vai para Miami ( um reduto da classe média alta do Brasil ), vai para europa conhecer Paris como toda classe media alta faz, anda de primeira classe, alguns desses é verdade já foram pobres na vida, mas vivem junto a classe média alta, defendem as minorias mas vivem encastelados nos redutos da classe média alta. Por isso que quero distância dessa suposta luta de classes

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  • 4. Mauricio Carneiro  |  16 de setembro de 2017 às 10:16

    Complicada essa generalização, advinda do momento de polarizações por que passa a vida no Brasil graças ao posicionamento político cego que virou questão de honra, daí a (des) qualificar o outro de coxinha ou mortadela. Até parece que só existe coxinha ou mortadela. Conheço muitos adeptos do PT de origem pobre que subiram na pirâmide social, continuam bradando pelo partido, mas seu comportamento é totalmente destoante de sua origem e discurso. Há também os sabidamente granados que podem tranquilamente ostentar mas não o fazem, comportam-se coerentemente com algum tempo difícil do passado ou possíveis turbulências futuras, ou simplesmente não gostam. Esses teoricamente poderiam votar em A ou B, quer fosse pelo patrimônio ou pela simplicidade com que vivem, sem medo de rótulos? Parece ser proibido “petista” alugar ou comprar em bairros da “elite” ou em condomínios de luxo porque pelo post em questão estes seriam na realidade coxinhas enriquecendo empresários, donos de construtora etc. Também, “tucano” corre risco ao falar de uma viagem aos states ou que comprou um Audi (as aspas são para rotular ironicamente, pois é o que acontece infelizmente). Qual a causa dessa situação? Os políticos, que não honram os votos que recebem, tanto faz se de classe alta, média ou baixa, que não cumprem as promessas, que se juntam por interesse unicamente pessoal ao que há de mais podre, que de jeito algum podem ser chamados de homens públicos, que causam repulsa e nojo. Consequência disso é que não se discutem civilizadamente projetos, nem vale a pena na realidade atual, mas trocam-se acusações baixas entre amigos, familiares e briga-se nas ruas e redes sociais contra nem se sabe quem para apontar que o maior esquema de desvio de verba e de corrupção foi o outro que começou. Por isso, a cada dia reforço minha convicção no voto nulo enquanto não valer a pena se discutir projetos, até que se faça uma verdadeira reforma política que traga valor ao voto compulsório.
    Por fim, discordo do post por ser mais uma pessoa esclarecida a estimular estereótipos em vão. Não leva a nada explicar a origem dos termos pejorativos e discriminatórios. Pra quê?

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  • 5. Antonio Oliveira  |  16 de setembro de 2017 às 15:33

    A explicação constante do post foi absolutamente desmentida pela realidade concreta instaurada nos últimos 13 anos, quando muitos que esperaram um reforço da CLT que já existia, receberam um Michel Temer que já existia, um Sarney que já existia, um Maluf que já existia, dentre outros malfeitores que já existiam.

    Ah, e os 13 anos que vieram prometendo algo novo, trouxeram tudo o que já havia, só dez vezes pior. Aliás, o próprio sistema de migalhas para uns e abastança para outros foi repetido de modo mais grave.

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  • 6. Antonio Valentim  |  16 de setembro de 2017 às 18:05

    Pena que venho sob moderação.

    Mas a polêmica ou esclarecimento é válida.

    Vivemos o tempo da evolução do capitão-do-mato.
    Há 517 anos nisso e não mudará enquanto não houver educação libertadora.

    Recentemente veio à tona a questão do tratamento de doutor. É outra herança cultural do Brasil colônia, e o próprio homem simples e humilde, sem contar – claro – os sabujos de plantão, tende a tratar pessoas de classe social superior com esse título.

    Há um projeto do senador Requião para acabar com isso. Qualquer um, até mesmo o presidente da República, não é senão um servidor do povo, por mais simples e humilde que seja este.

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  • 7. Antonio Valentim  |  16 de setembro de 2017 às 19:47

    Nada de errado em se viver com conforto. O que não se pode é virar as costas às suas origens, sua gente.
    Ora se alguém é rico e já nasceu em família rica, não se admira que defenda a sua classe e vote em governantes e representantes conservadores.

    O que me espanta é ver o pobre defendendo o rico, votando em candidatos conservadores.

    O coxinha é exatamente esse aí. Eles existem em todo lugar: no trabalho, no clube, nas igrejas. Sofre toda sorte de influência dos jornais, da televisão… Por conseguinte, é contra os movimentos sociais, que, segundo lhe foi massivamente colocado, é coisa de bandido, agitador, comunista…

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  • 8. blogdogersonnogueira  |  17 de setembro de 2017 às 14:16

    Amigo Valentim, um dos pontos mais tristes da presente situação é a erupção dessa verdadeira praga nacional chamada “pobre de direita”, há muito identificada aqui no blog. Espanta (e assusta) a quantidade de gente humilde, sacrificada até, empunhando bandeiras que sempre foram exclusivas dos poderosos e da elite nacional.

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  • 9. Mauricio Carneiro  |  17 de setembro de 2017 às 15:12

    Não me espanta qualquer coisa que venha do povo brasileiro, que pouco lê e tem uma educação de muito baixo nível. A aberração surge quando os líderes, pré e pós impeachment (ou golpe, como queiram), de uma “pátria educadora” de maneira cruel e cínica reduzem os já parcos recursos da educação, onde os maiores prejudicados são os pobres, como a manter por ser interessante a ignorância popular. Cortar mordomias que é bom, nada. Ora vá…bando de sem vergonha amarelo, vermelho, verde, anil e branco.

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  • 10. Antonio Oliveira  |  17 de setembro de 2017 às 20:43

    Xará Valentim, também sob moderação é? Bom saber que estou em tão boa companhia.

    A propósito, lhe digo que o que me espanta é a desfaçatez com que certos homens, ditos públicos, dizem defender as causas populares, quando, na verdade, estão mesmo é preocupados em defender as causas conservadoras, como acabam revelando, as pessoas a quem se aliam e sua verdadeira inoperância e limitação ao discurso, no que diz respeito às questões estruturais nas quais se assentam a possibilidade de reversão tanto dos problemas dos despossuídos e quanto da manutenção das benesses dos abastados.

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