Governo limpinho para trabalho sujo?

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POR EMIR SADER

Delfim Netto, entre outros ministros da ditadura, dizia que não sabia nada do terror levado a cabo pelo regime militar, menos ainda da tortura e dos desaparecimentos. Parece que faziam parte de um outro governo.

Fingiam não saber que um programa econômico de “primeiro crescer e depois distribuir”, com arrocho salarial e intervenção em todos os sindicatos, supunha uma brutal repressão. Que o regime do qual foi o principal ministro econômico depôs um presidente, interveio no Congresso, no Judiciário, cassou parlamentares, juízes, interveio em universidades, em partidos políticos, ocupou militarmente o Estado e o país – em suma, acabou com a democracia e instaurou uma ditadura militar. Que um programa como o seu só poderia passar na realidade mediante um regime de terror.

Agora aparecem vozes para reivindicar que Temer tenha um governo limpinho, sem políticos sob investigação, sem evangélicos, sem políticos corruptos, com gente honesta, séria, democrática. Mas para dar um golpe, terminar com a democracia, instaurar à força um selvagem programa antipopular e antinacional, só podem contar com bandidos, com políticos corruptos, com economistas que defendem os interesses do 1% mais rico.

Podem procurar, não vão encontrar gente com espírito democrático disposta a defender a ruptura de um governo eleito pelo povo, disposta a se identificar com aquela corja que se exibiu para o Brasil e para o mundo no dia 17 de abril – o dia da vergonha nacional -, com sua cara, seus valores, suas indecências. Quem vai querer embarcar numa aventura de uma minoria sem votos, sem delegação da sociedade, contra tudo o que representa democracia, mobilização popular, interesses da grande maioria, patrimônio nacional?

Não reclamem que só encontram, para assassinar a democracia, assassinos. Que só encontrem corruptos, dispostos a acobertar a corruptos. Que só disponham de gente sem voto para tentar impor um governo chefiado por gente sem voto.

Documento vazado de um suposto candidato a ministro da educação do Temer, que diz que a educação seria a “ponte para o futuro”, diz explicitamente que a educação tem que deixar de ser uma política social para fazer parte simplesmente do “desenvolvimento econômico”, isto é, só interessaria o que servisse à reprodução do capital, à busca dos interesses de lucro dos grandes empresários. Um programa que lutaria contra a “ideologização” que o PT pretenderia impor nas escolas, discutindo temas sociais, éticos, políticos.

A linguagem do mencionado documento é centrada no tal “capital social”, porque essa é a linguagem dos ricos: educação reduzida a “capital social”, a aquilo que sirva à maximização dos lucros do grande capital.

Para tentar dar um visão mais arejada, o documento se propõe a “conversar/ouvir” gente como João Paulo Lehman, Viviane Senna, Neca Setubal, Simon Schwartzman, ilusoriamente, Fernando Haddad, Cid Gomes.

Estão repartindo o botim, estão redigindo discursos de posse, estão fazendo planos de governo, para a maior aventura, a mais irresponsável, a mais sem compromisso com a democracia e com o país que o Brasil já enfrentou.

Para isso só podem contar com aventureiros, com gente que busca no governo abrigo de processos de corrupção, cargos para nomear, amealhar dinheiro, acobertar negócios. Não venham reclamar da lista de bandidos que vão se projetando como eventuais ministros do eventual governo Temer. O conteúdo da aventura determina o pessoal de bordo.

Não haverá governo limpinho para a tarefa suja de desmontar os direitos sociais da grande maioria, para privatizar o patrimônio público, para desmontar o orçamento social, para bloquear qualquer possibilidade de retomada do crescimento econômico com distribuição de renda. Fazer esse jogo sujo para a democracia, para o país e para o povo só pode ser com bandidos, com corruptos, com gente sem voto e sem caráter.

Decência impõe que impeachment seja anulado

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POR PAULO NOGUEIRA, no DCM

Realmente esquisita. Um time pareceu absurdamente favorecido pelo juiz. Acabou derrotado. Alguns dias depois, fica-se sabendo que o organizador fez horrores. Comprou não apenas o juiz, mas o goleiro adversário. E colocou uma fortuna nas casas de apostas para lucrar com seu crime.

O que você faz?

Há uma única saída. Você anula o resultado, ou a Copa e o futebol em si ficarão irremediavelmente desmoralizados.

É mais ou menos esse o quadro do processo de impeachment.

Como respeitar – e aceitar – o resultado do jogo armado por Eduardo Cunha na Câmara dos Deputados?

Não dá. Muito menos depois do relatório do ministro Teori Zavascki na sessão do STF que determinou o afastamento de Cunha por 11 votos a zero.

Caberá ao futuro descobrir por que Teori levou uma eternidade de quatro meses para fazer o que deveria ter feito com a urgência que o assunto impunha.

Mas não é isso que importa, na discussão que se abre a partir de agora. O que interessa é que Teori falou, enfim, e suas palavras expõem o caráter criminoso do condutor do impeachment e, por extensão, do impeachment em si.

Como acreditar num julgamento conduzido por alguém que, segundo Teori, não reúne as “mínimas condições” para presidir a Câmara? Como um sujeito com tais credenciais pode comandar um processo em que, mais que um governo, a democracia corre risco de vida?

É certo que Cunha deveria ter sido detido em seu intento de lesa pátria muito antes. Mas não foi, sabe-se lá por quê. Mas este atraso não muda a essência do drama. É Cunha que tramou o golpe. É ele que fez sua tropa de choque realizar o espetáculo grotesco daquele domingo em que bufões corruptos e cínicos votavam pelo impeachment em nome de coisas como a família quadrangular, os maçons, e pais, mães, filhos, filhas e netos.

Se Teori não tivesse engavetado o pedido de remoção de Cunha, os brasileiros teriam sido poupados de coisas repulsivas – além da paralisação do país com consequências funestas para a economia e para a vida das pessoas.

Mas, ainda que com formidável atraso, ele desengavetou, e ficou escancarado o caráter viciado, indecente do processo de impeachment.

Cunha se consagrou, nos últimos tempos, como a maior vocação corrupta da história da República. Foram tais e tantos seus crimes que mesmo aqueles que o apoiavam por estar tentando derrubar Dilma passaram a ver nele um remédio pior que a doença.

Sumiram frases como “somos todos Cunha”, ou “ele é corrupto mas é nosso”, ou tantas outras asneiras do gênero.

Um governo que nasça sob o estigma do processo orquestrado por Cunha terá chances abaixo de zero de se firmar e realizar a tarefa épica de retirar o país da crise moral, econômica e política em que está atolado.

Tal governo inaugurará, se nada for feito, a “República do Cunha”.

Alguém deseja isso?

Afastamento de Eduardo Cunha pelo STF confirma cronograma do golpe

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POR RICARDO KOTSCHO

Uma pergunta: por que só agora?

Repousava desde dezembro do ano passado nas excelsas gavetas do Supremo Tribunal Federal o pedido feito pela Procuradoria Geral da República para o afastamento do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que comandava o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

De repente, sem dar nenhum sinal anterior de que estava preocupado com o assunto, o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, resolveu levar o caso ao plenário na tarde desta quinta-feira, mas atendendo a outro pedido feito com o mesmo objetivo, um dia antes, pela Rede Sustentabilidade, de Marina Silva.

Sentindo-se ofendido com a decisão de Lewandowski, o relator da Lava-Jato, Teori Zavascki, antecipou-se e, na noite desta quarta-feira, concedeu liminar, baseada no pedido da PGR, determinando o imediato afastamento de Eduardo Cunha do mandato de deputado federal e da presidência da Câmara.

A sessão plenária do STF para julgar o caso está mantida. Cunha será substituído pelo vice-presidente da Câmara, Waldir Maranhão (PP-MA), que votou contra o impeachment e também está sendo investigado pela Operação Lava Jato.

Por que Eduardo Cunha só caiu agora, cinco meses depois da ação impetrada pelo procurador-geral Rodrigo Janot, que o chamou de “delinquente” e listou em seu pedido uma série de crimes atribuídos ao presidente da Câmara, que já é réu no STF?

Nada acontece por acaso. O processo de impeachment, desde o início, segue um cronograma muito bem montado, o que revela a existência de um comando centralizado e sincronizado que age por etapas. Cunha só foi descartado agora, simplesmente, porque já cumpriu seu papel na articulação e votação da admissibilidade do processo de impeachment, às vésperas da decisão do Senado, que pode levar ao afastamento de Dilma Rousseff por 180 dias.

O risco de Eduardo Cunha se tornar o primeiro na linha sucessória, podendo assumir a presidência da República num eventual governo do seu aliado Michel Temer, aumentou as pressões sobre o STF e acabou criando uma saia justa entre os ministros Lewandowski e Zavascki, precipitando os acontecimentos. A esta altura, também interessava a Temer livrar-se da sombra do inconveniente aliado, que já foi denunciado pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, sob a acusação de integrar o esquema do Petrolão e manter contas secretas na Suíça, entre outros. Ninguém precisava mais dele, tudo agora só depende do Senado. Era mesmo hora de jogá-lo ao mar.

O comando das ações jurídico-midiático-policiais, seguindo o cronograma, desencadeou a operação de desembarque de Cunha logo após a votação do impeachment na Câmara. O aliado virou inimigo. Em várias outras ocasiões, como já demonstrou meu colega blogueiro Mário Magalhães, as operações da Lava Jato e decisões da Justiça também coincidiram com os protestos dos movimentos de rua e importantes decisões políticas em Brasília, alimentando a pauta da mídia que nunca foi tão única, colocando a reboque a oposição partidária.

E quem integra este comando? Acho que não é tão difícil imaginar quem sejam seus articuladores, mas vamos ter que esperar pelos historiadores do futuro, como aconteceu no golpe cívico-militar de 1964, de triste memória, em que só muito tempo depois ficamos sabendo do papel de cada um na derrubada do presidente João Goulart.

Vida que segue.

Três alegrias

Depois de muito tempo de notícia ruim, tive três alegrias no mesmo dia: o São Paulo se classificou na Libertadores, o Corinthians foi eliminado e o Eduardo Cunha caiu.

Estudantes dão exemplo de dignidade e luta

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Sob ameaça de violência por parte da PM tucana e repressão judicial, estudantes deixaram nesta sexta-feira o prédio da Assembleia Legislativa paulista sob aplausos dos companheiros. Eles ocupavam a Alesp em protesto contra o fechamento de escolas pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB). Caso não deixassem o prédio, teriam que pagar multa de R$ 30 mil (cada um) por dia.

Contra estudantes pobres a Justiça é célere e atenta. Triste São Paulo, pobre Brasil…

Papão definido para a grande final

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O time do Paissandu está praticamente confirmado para a decisão do Campeonato Paraense, neste sábado, às 18h, contra o São Francisco, no estádio Jornalista Edgar Proença. Nos treinos, a escalação titular foi a seguinte: Emerson; Roniery, Gualberto, Lombardi e Lucas; Ricardo Capanema, Augusto Recife, Raí e Celsinho; Leandro Cearense e Fabinho. (Com informações de MAGNO FERNANDES/foto: MÁRIO QUADROS)