POR CLARA ROMAN

A independência e o fortalecimento das instituições de controle, como Polícia Federal, Judiciário e Ministério Público, permitidas sobretudo nos 13 anos do Partido dos Trabalhadores à frente da Presidência da República, melhoraram o controle sobre as instituições. No entanto, na avaliação de Leonardo Avritzer, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a composição social semelhante dos funcionários desses poderes gera distorções.

“Ministério Público e o Judiciário querem convencer que eles são os representantes do interesse do povo. Mas isso não é real”, afirma o professor. Para Avritzer, consciente ou inconscientemente, esses funcionários representam uma classe muito restrita, e que, até por suas funções, não dá conta de responder às demandas políticas e sociais do país.

Esse fortalecimento se deu, segundo ele, por ações como a estruturação do Tribunal de Contas da União (TCU), a partir de 1992, devido à pressões de movimentos sociais que na época pediam o impeachment do ex-presidente Fernando Collor e o fortalecimento da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União (CGU) no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo o sociólogo, uma das causas das distorções ocorre pelo próprio critério de seleção para a composição desses cargos. A exigência do diploma de Direito para o Ministério Público e Judiciário acaba selecionando pessoas com um perfil parecido: jovens, de classe média, de algumas universidades específicas. Com uma origem social similar, esses funcionários têm uma visão única sobre o governo e o Estado, o que gera distorções.

Ainda que essa classe se autoproclame defensora do povo, não é ela que vai propor soluções para o país, afirma Avritzer. “A saída da crise não estará nas instituições de controle. Apresentar respostas e reconstruir o projeto democrático é papel dos políticos”, afirma ele.

“’Super’ Moro pode querer prender todo mundo. Mas isso não vai mudar os problemas estruturais que o país tem”, afirma o cientista político sobre as prisões efetuadas pela operação Lava-Jato.

Problemas estruturais esses que estão ligados ao presidencialismo de coalizão, explica o professor. O presidencialismo de coalizão, como é chamado o sistema político brasileiro, exige que o presidente eleito pela maioria popular tenha que dialogar constantemente com a Câmara dos Deputados e o Senado Federal.

O problema, afirma o cientista político, é que muitos desses deputados não têm um projeto de país, mas sim um projeto pessoal de enriquecimento próprio e para o seu partido. “O Congresso Nacional sempre esteve à direita do Executivo, mas essa distância aumentou com o PT, que está mais à esquerda”, analisa.

Avritzer, autor do livro “Impasses da Democracia no Brasil”, afirma que seu trabalho se concentrou mais no diagnóstico, e não nas soluções. Um fortalecimento do Executivo, com a entrada de funcionários bem preparados e de perfil técnico, e uma reforma política que mude as regras do financiamento de campanha podem ajudar a melhorar o que ele chamou desses ”impasses na democracia”.

Esse ano, algumas mudanças já entraram em vigor no calendário eleitoral. A presidenta Dilma Rousseff, seguindo decisão do STF, vetou no texto o financiamento privado de campanhas. O fim do financiamento privado é justamente uma bandeira histórica do PT.

5 responses to “Origem social parecida gera distorções no Judiciário, afirma sociólogo”

  1. Avatar de Ferdinando Lay
    Ferdinando Lay

    Cai sempre no gosto do PT assumir a paternidade das boas causas, A da vez é que nos 13 anos no poder, o judiciário e a polícia federal passaram a ter a liberdade da investigação e com aval da Dilma, que já declarou exaustivas vezes, desejar que tudo seja colocado em pratos limpos, inclusive sendo ela e seu aliado os mais visados, sem desmerecer outras dezenas, alguns e na maioria ligados ao PT. Verdade é que o avanço da tecnologia e principalmente da informática facilitam captar dados, antes de difícil acesso, para esclarecimentos, possibilitando uma gama de indícios e assim é o lava-jato que pela sua plenitude já estar na 26a etapa. Bom observar que aquela juventude que impulsionou as diretas já ficou para trás e a de hoje, com um visão mais crítica, assume um papel fiscal mais rígido e integrado quando envolvido em ações investigativas que lhes são confiadas. A própria caricatura política de hoje já é um estímulo para aqueles que tem compromisso com a verdade.

    Mais temas como o texto acima virão para abafar a ausência da Dilma no programa do PT de ontem gerando várias desconfianças, entre muitas a de que quer se desvencilhar do partido. Será?

  2. Avatar de Antonio Valentim

    Não à toa outra vez teci comentário acerca do acesso à magistratura.
    Não é qualquer bacharel em ciências jurídicas que consegue chegar lá. Se não tiver por trás uma família que lhe dê suporte, fica difícil.

  3. Avatar de Jose Cardoso
    Jose Cardoso

    Eu não entendi o ponto da autora. Não é função do judiciário resolver os problemas estruturais do país. Isso é uma função do executivo e do legislativo, por isso eles recebem muita grana para trabalhar. O problema é que o governo, mesmo com maioria no Congresso, não faz nada, e o Congresso, tal como sabemos muito bem, faz o dobro do executivo.

    A autora também fala de direita e esquerda..como se os nossos congressistas seguissem alguma ideologia. Há somente dois grupos: os que estão no poder e os que estão querendo chegar no poder.

    No final das contas o resultado é sempre o mesmo para a população brasileira: um pais que, mesmo com toda a sua riqueza, nunca decola!

  4. Avatar de Gusmão
    Gusmão

    Lay, leia de novo o texto, de novo e de novo e se precisar mais uma vez, ao final talvez entendas o que realmente a autora quis dizer, saber interpretar um texto é algo fundamental para opinar sobre e ele, sem escrever asneiras.

  5. Avatar de lopesjunior

    Suspeitas sobre o governo sempre foram o mote da democracia e da inteligência, afinal, votar não é a mesma coisa que dar um voto de confiança, mas um exercício de futurologia, apostando que esse ou aquele método de gestão do Estado será o mais eficaz no próximo mandato. É dizer, a eleição pelo voto é uma decisão dada pela maioria, que admite esse ou aquele projeto de governo como melhor em comparação aos outros. Aécio perdeu. E perdeu porque recebeu a crítica, muito justa e nada lisonjeira, de ser o representante de uma política econômica que concentra renda, pois, representa o mesmíssimo partido que fez as modificações constitucionais que permitiram as privatizações e o desfazimento de recursos públicos como o Deptº Nacional de Obras, para se contratar empresas que se responsabilizariam pelas construções de que o país necessita e que superfaturam obras. O vício corrupto que vemos nasceu bem aí nesse momento histórico, talvez já de caso pensado. É dessa relação com o privado que nasce a promiscuidade, da relação que vendeu patrimônio a troco de banana e desmantelou setores vitais do governo para dar lugar às ações das empreiteiras. O agente público, como agente político é tão responsável pela corrupção quanto à iniciativa privada. Esta por ser corrupta, e aquela, por ser também. Nunca é demais lembrar que a eleição é uma comparação entre propostas e a vencedora é aquela que a maioria do povo considera a melhor. O PT, de Lula e Dilma, venceram quatro eleições seguidas porque mostraram o quanto é bom para o país investir no pobre e que o discurso de que quem recebe bolsa família é vagabundo é só a terça parte do discurso, ou falácia, neoliberal de igualdade de oportunidades para todos. Na atual conjuntura de crise internacional, resultado do próprio metiê do capitalista, de acúmulo de riqueza e de praticamente nenhuma geração de emprego, a elite brasileira apenas tem provado o quanto a globalização é maléfica aos Estados, sejam os europeus, africanos, americanos ou asiáticos. O modelo neoliberal só serviu ao propósito de concentrar renda, e poder, nas mãos dos mais ricos, e isso bem debaixo das barbas do povo.

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