fotorusaecia

POR J. CARLOS DE ASSIS (*)

Temos em curso no Brasil uma conspiração destinada a desestabilizar o Governo Dilma sob o pretexto da luta contra a corrupção. É da mesma natureza das iniciativas para promover mudanças de regime na chamada Primavera Árabe, com a diferença de que, nesses casos, os regimes eram ditaduras estabilizadas , enquanto no nosso caso somos uma democracia vulnerável. Como não é possível estimular um golpe em favor de democracia que já existe, a desculpa é o combate à corrupção que se pretende vincular aos presidentes Lula e Dilma.

Pessoas de boa fé pensam que tal conclusão é precipitada. Eu próprio costumo rejeitar teorias conspiratórias, porém só até o ponto em que as evidências começam a falar mais alto. Vou tentar mostrar a evidência de uma conspiração em curso no Brasil usando como principal referência a principal revista de política externa dos Estados Unidos, a “Foreign Affairs”, insuspeita de antiamericanismo. Tomo como referência ensaios da edição de setembro/outubro sobre a crise na Ucrânia e sobre o golpe contra Allende no Chile há 40 anos.

Relativamente à Ucrânia, a revista diz abertamente que a crise é culpa sobretudo do ocidente, ou seja, dos Estados Unidos. Resulta da ambição da OTAN, sob liderança americana, de empurrar suas fronteiras para o Leste incorporando sucessivamente quase todos os estados da órbita da antiga União Soviética. Assim, em 1999, foram incorporadas a República Checa, a Hungria e a Polônia. Sempre sob protestos russos, em 2004 foram anexadas Bulgária, Estônia, Latvia, Lituânia, Romênia, Eslováquia e Eslovênia. Em 2009, foi a vez de Albânia e Croácia.

Essas incorporações violaram compromissos formais estabelecidos com Gorbachev no processo de reunificação da Alemanha, para a qual foi essencial a concordância russa. A Rússia não reagiu além de protestos formais, parte porque estava ela própria internamente fragmentada, parte porque todos esses países incorporados à OTAN não fazem fronteira direta com ela, exceto os pequenos países bálticos. Em 2008, contudo, a OTAN manifestou a intenção de incorporar também as fronteiriças Geórgia e a Ucrânia, o que significava acabar de cercar a Rússia.

Nenhum líder russo aceitaria ou aceitará o cumprimento dessa ameaça no seu próprio quintal, muito menos um estrategista da estatura de Putin. Quando o presidente da Geórgia, simpatizante da entrada na OTAN, resolveu reincorporar as províncias rebeldes de Abkhazia e Ossétia do Sul, Putin reagiu imediatamente e as invadiu. Deixou claro, nesse movimento, que não aceitará a incorporação da Geórgia, um país limítrofe da Rússia, à OTAN, a não ser fragmentado. Assim como deixou claro a Bush, segundo um jornal russo, que “se a Ucrânia fosse admitida na OTAN ela cessaria de existir.”

“Foreign Affairs” faz um retrato realista do que aconteceu daí em diante na Ucrânia. No processo de criar a atmosfera “democrática” favorável à adesão à União Europeia, atalho para a entrada na OTAN, os Estados Unidos despejaram desde 1991 mais de US$ 5 milhões em instituições de formação de opinião no país, para – segundo Victoria Nulan, a secretária de Estado assistente para a Europa e a Eurásia -, criar para a Ucrânia “o futuro que ela merece”. Uma instituição especial, a National Endowment for Democracy, promoveu mais de 60 projetos para minar a estabilidade do Governo legítimo de Yanukovych, pró-russo.

O presidente dessa instituição, Carl Gershman, não deixou muita dúvida quanto ao objetivo último desse movimento. Numa entrevista ao New York Times, declarou que “a escolha da Ucrânia de integrar a Europa vai acelerar a morte da ideologia do imperialismo russo que Putin representa”. De forma ainda mais explícita, acrescentou que “os russos também enfrentam uma escolha, e Putin pode encontrar-se no lado perdedor final não no exterior do país mas dentro da própria Rússia”. Putin reagiu a esse tipo de provocação invadindo a Crimeia e promovendo o referendo para sua anexação à Rússia.

Estou transcrevendo trechos dessa longa reportagem porque sei que os brasileiros não merecem de nossa imprensa, escrita ou televisiva, um noticiário imparcial sobre o que está acontecendo na Ucrânia. Nossa grande imprensa é em relação aos Estados Unidos mais governista, em qualquer circunstância, do que a própria imprensa da elite americana. Mas o que quero acentuar é que o governo americano tem uma estratégia clara de sustentação de sua dominação no mundo e está disposto a pagar qualquer preço, sobretudo se o preço foram instituições ou vidas de outros povos, para firmar seus objetivos estratégicos.

É nesse ponto que convém examinar a situação brasileira atual. Os Estados Unidos restabeleceram a Guerra Fria e elegeram a Rússia como inimigo estratégico, já que a Rússia, ainda uma potência nuclear de primeira linha, é o único poder estratégico, junto com a China na economia, capaz de rivalizar com eles. Ora, nós estamos cometendo a audácia de nos aproximarmos da Rússia e da China no âmbito dos BRICS, criando uma alternativa de desenvolvimento no mundo, tanto do ponto de vista geoeconômico quanto geopolítico. Para quem quer levar o braço da OTAN até as planícies ucranianas, esse é um grande desafio, considerando o fato de que Brasil e África do Sul são considerados quintais relativamente bem comportados do poderio americano.

Se para eliminar o risco de uma maior aproximação com a Rússia for necessário desestabilizar o Governo brasileiro, apelando para uma inventada condescendência com a corrupção, como aconteceu na Ucrânia, os Estados Unidos não se farão de rogados. Eles tem aliados poderosos aqui dentro como leais quinta-colunas. Por algum motivo gravaram os telefones da Dilma. Já no Chile, de acordo com documentos desclassificados depois de 40 anos da deposição de Allende, verifica-se, segundo a mesma “Foreign Affairs”, que o golpe e o assassínio de Allende foram orquestrados por Washington, sob coordenação de Henry Kissinger. Começou com o assassinato do general anti-golpista Schneider, pago pela CIA, e teve durante todo o tempo da conspiração a instigação permanente do jornal “El Mercurio”, que para isso recebeu da CIA US$ 11 milhões em dinheiro de hoje. A “Veja”, como todos sabem, passa por dificuldades financeiras. Não seria o caso de se examinar quem está sustentando suas infâmias destinadas a desestabilizar o Governo brasileiro?

J. Carlos de Assis – Economista, doutor pela Coppe/UFRJ, professor de Economia Internacional da UEPB.

11 responses to “O mapa da conspiração, segundo o padrão CIA”

  1. Avatar de Antonio Valentim

    Que está em curso uma operação para apear do poder o Partido dos Trabalhadores, disso não tenho dúvida.
    Quanto às demais hipóteses…

  2. Avatar de davijunior74

    Foi a CIA que deu o tarifaço da luz?
    Foi a CIA que cortou a pensão das futuras viúvas pela metade?
    Foi a CIA que deixou roubarem na Petobrás?
    Foi a CIA que deixou roubarem no setor elétrico? (próximo escândalo)
    Foi a CIA que mentiu antes das eleições?
    Foi a CIA que superfaturou a copa do mundo?
    Foi a CIA que superfaturou as olimpíadas?

    Não dá tempo de enumerar todos os escândalos…

    Por que a presidenta não vai a mídia para denunciar isso? É caso de um pronunciamento em rádio e tv para denunciar a atuação da CIA à população. Que presidenta é essa que se omite (mais uma vez) dos problemas nacionais e cala-se diante de uma situação dessas?

    1. Avatar de blogdogersonnogueira
      blogdogersonnogueira

      Se a coisa derivar para uma espécie de campeonato de escândalos, amigo, vai ficar feio para o lado tucano, campeoníssimo na matéria. E o esquema de blindagem é tão poderoso que até hoje nenhum dos iluminados partidários de Efeagá sentou no banco dos réus. Cabra ensaboado, vou te contar.

  3. Avatar de lopesjunior

    Maduro vai à TV na Venezuela fazer as mesmas denúncias e, por aqui, é tido como louco. Ademais, muitas conspirações pelo poder são descobertas ao longo da história. Muita gente conclui que os EUA não precisam desse metiê para manter o poder, mas é possível que mantenham o poder exatamente por essa via, não?…

  4. Avatar de blogdogersonnogueira
    blogdogersonnogueira

    Já avisei antes, mas cabe repetir o alerta: palavrões não serão tolerados neste espaço. Somos todos civilizados (ou não?). Os frequentadores do blog devem ter condições de argumentar com um mínimo de educação e civilidade.

  5. Avatar de 09751
    09751

    Será que foi a CIA que derrubou o Deodoro da Fonseca, o Washington Luis e o Collor? O certo é que diplomaticamente, o Brasil tem o mesmo peso que uma ilha da Oceania e o país está brincando com fogo ao ser diplomático demais com a China, a Rússia e os EUA, sendo que esses três não se bicam, procurando agradar a um e a outro.

    1. Avatar de blogdogersonnogueira
      blogdogersonnogueira

      Não atropele as lições da História, amigo. Um conselho: faça uma pesquisa rápida na própria internet e descobrirá o que ocorreu em 1964 e quem mexeu nas peças do tabuleiro para que o golpe militar triunfasse.

  6. Avatar de Ferdinando Lay
    Ferdinando Lay

    São alucinações petista no aperto do parafuso popular.

  7. Avatar de Carlos Lira
    Carlos Lira

    Peso de uma ilha oceânica? Rapaz, você não sabe o que fala.

  8. Avatar de Antonio Valentim

    Basta pesquisar, ler…

  9. Avatar de 09751
    09751

    Só estou sendo irônico. Sei muito bem desses fatos da História. Operação Popey, que precipitou o Golpe de 64 três dias antes do marcado, Operação Brother Sam, que o Jango sem disparar um tiro de alguma forma humilhou o poderio militar americano, Operação Condor, etc. Só acredito que estão com neurose sem cabimento.

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