Ninho vazio

Por Ruy Castro

Uma amiga está triste porque sua filha se mudou para Nova York. Foi estudar na Universidade Columbia e não deve voltar tão cedo. O filho mais velho, também há pouco, foi trabalhar em outra cidade. Os dois moravam com ela. De repente, minha amiga ficou sozinha em casa. Está passando pela “síndrome do ninho vazio”, uma figura da psicologia para definir a depressão que se apossa de alguns pais –ou, quase sempre, mães– quando seus filhos vão à vida.

Estava pensando nisso quando, pouco antes do Natal, percebi certos movimentos alados no terraço. Uma rolinha ia e vinha, com matinhos no bico, e pousava numa viga alta do caramanchão. Mesmo à distância, constatei que estava construindo um ninho. No Natal, o ninho ficou pronto. Ela sossegou e sentou-se nele pelos dias seguintes. Batizei-a de Lola, a Rola, e saboreei a expectativa de, em breve, ser avô.

Não entendo de passarinhos, mas calculei que, por sua circunspecção no ninho, Lola devia estar sentada sobre três ou quatro ovos –e, se assim fosse, merecia respeito pelo que lhe devia ter custado botá-los para fora. Mas Silvania, minha funcionária, aproveitou-se da temporária ausência de Lola –numa das poucas vezes em que ela saiu, certamente para ir às compras–, subiu a um banquinho, espiou o conteúdo do ninho e me informou de que eu era avô de um único ovo.

Bem, não sejamos soberbos, um já estava bom. Dias depois, constatamos que, em certos momentos, o rabo e a cabecinha para fora do ninho eram menores. O bebê nascera. Dei-lhe o nome de Lolita, a Rolita, e esperei que ela e sua mãe nos brindassem com algumas piruetas, mesmo desajeitadas, como parte do aprendizado aéreo de Lolita.

Que nada. Ontem, Lola, a Rola, e Lolita, a Rolita, foram embora bem cedo. E sem se despedir. Agora entendo a síndrome do ninho vazio.

2 comentários em “Ninho vazio

  1. Bonito e emocionante relato. Aqui em casa esse exemplo aconteceu há 7 meses atrás, quando nossa última filha já aos 27 anos nos deixou ao se mudar para outro estado em virtude de concurso público. As outras também pelo mesmo motivo se foram, deixando o ninho vazio como diz o título da coluna. Agora sem às três em nosso recanto, só nos resta nos adequarmos a essa situação e fazer as visitas trimestrais ou semestrais conforme às condições.

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