Por Elias Pinto, no DIÁRIO
1 O escritor francês Louis-Ferdinand Céline escreveu libelos terríveis contra os judeus e apoiou os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, mas nos deixou obras-primas, como Morte a Crédito e Viagem ao Fim da Noite. O poeta norte-americano Ezra Pound, em programas de rádio na Europa, apoiou o fascismo italiano, no mesmo período. Condenado e preso por traição em seu país, foi mais tarde perdoado. Os Cantos, seu livro maior, escrito ao longo de décadas, alterna grandes momentos poéticos com uma algaravia multilinguística que beira o impenetrável.
2 Céline e Pound são retratos de uma época, assim como o nosso Getúlio Vargas, que flertou desbragadamente com o nazifascismo. Chamado às falas pelo poderoso vizinho norte-americano, e adoçado com o ferro (de Volta Redonda) na boneca (Carmen Miranda), o homenzinho cambou para os Aliados. Deposto, o velhinho voltou ao poder nos braços do povo.
3 A biografia de Céline, Pound e Vargas – e de tantos outros, antes e depois – foi certamente tisnada pelos maus passos. Suas obras – na literatura, na poesia, no governo –, aqui e ali, respiram esse ar opressivo, nocivo à existência democrática (notadamente no gaúcho de São Borja, por deter as rédeas do poder, no caso, o Estado Novo), mas a posteridade lhes reconheceu a importância, a contribuição transmitida por seu incontornável legado, o positivo.
4 E nem as biografias que lhes investigaram a vida contornaram os passos incômodos, a filiação ou adesão a ideias e governos totalitários, como podemos acompanhar nos dois volumes já publicados da trilogia biográfica de Getúlio Vargas por Lira Neto, que já escreveu livros sobre o escritor José de Alencar, o ex-presidente (da ditadura militar) Castello Branco, a cantora Maysa e o padre Cícero. Que eu saiba, nenhum dos parentes desses biografados lhe interpôs restrições ou recorreu ao aberrante artigo 20 do Código Civil que concede a biografados e herdeiros que vetem biografias não autorizadas, “se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais”. Além de aberrante, medieval, a lei, mal ordenada, mal redigida, se presta exatamente à censura prévia.
5 O leitor já deve estar razoavelmente inteirado da polêmica em torno dessa questão, e de que há um projeto em trâmite na Câmara dos Deputados, chamado de Lei das Biografias, que propõe mudanças na legislação, fazendo com que prevaleça a lei maior, a Constituição, que garante a livre expressão.
6 O leitor também já deve ter ouvido falar da associação Procure Saber. Tendo à frente a ex-caetana (ei, Caetana Ferreira, não é contigo) Paula Lavigne, e integrado por Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan, Milton Nascimento, Roberto Carlos e Erasmo Carlos (amigos de fé na repressão), o movimento foi criado a fim de lutar pela manutenção da censura prévia. Por isso eu o chamo de Procure (não) Saber.
7 Roberto Carlos deu uma entrevista ao Fantástico, a que eu não assisti, acenando com uma mudança de postura, dizendo-se a favor das publicações sem autorização, porém, “com certos ajustes”. Não soube explicar que ajustes seriam esses. O que esses artistas perceberam (e muitos deles foram censurados durante o regime militar) foi que desafinaram feio e agora buscam reparar o irreparável. Conspurcaram as próprias biografias como nenhum biógrafo indiscreto ou mal intencionado lograria emporcalhá-las.
8 Roberto, por exemplo, proibiu a biografia de Paulo Cesar de Araújo, Roberto Carlos em Detalhes, depois de publicada. Em entrevista ao Roda Viva de anteontem, Araújo disse que um caminhão a mando do alcunhado rei parou à porta da editora, a Planeta, e de lá saiu com 10 mil exemplares confiscados e que desde então estariam atirados em um armazém, um depósito real.
9 Eu hoje leio, com prazer e proveito, Céline e Pound. E admiro Vargas. Não sei quanto a vocês, mas hoje eu não compro nada que Chico, Roberto, Caetano, Gil et caterva venham a lançar, produzir, ou qualquer disco anterior. Que as gerações vindouras possam, revolvendo a merda fóssil de agora produzida por esses artistas, lhes recuperar a criação.

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