Um “maldito” a serviço do rock

Por Thales de Menezes

01 lou reedFoi anunciada domingo (27) a morte do cantor, compositor e músico norte-americano Lou Reed. Ele tinha 71 anos. Boatos sobre a morte circulavam desde a sexta-feira (25) em redes sociais. Seu agente literário disse que ele morreu de complicações hepáticas. Em abril, Reed foi submetido a um transplante de fígado. Reed deixa um legado de mais de cinco décadas de carreira, construída sem que ele tivesse cedido a qualquer tentativa mais comercial ao produzir letra e música. Falou de temas desagradáveis, às vezes com guitarras ainda mais desagradáveis.

O músico entrou para a história do rock a partir da segunda metade dos anos 1960, quando criou o grupo Velvet Underground, inspiração para o surgimento de várias gerações de bandas do gênero. A banda foi apadrinhada pelo artista plástico Andy Warhol (1928-1987), que usava seu prestígio como mecenas de jovens artistas. As letras de Reed traziam os mesmos personagens dos filmes que Warhol produzia, gente da barra-pesada de Nova York: prostitutas, travestis, traficantes, ladrões e malucos.

Ele manteve carreira solo por mais 30 anos, marcada por discos importantes, radicalismos estéticos e muita rabugice com imprensa e fãs. Costumava desmarcar ou interromper entrevistas e era antipático a abordagens em locais públicos. Seu gênio difícil não impediu – ou talvez tenha até incentivado – um grande culto.

Reed gravou quatro álbuns com o Velvet, entre 1967 e 1970. Depois, seriam lançados discos ao vivo e compilações. De 1972 a 2007, fez 20 discos solo. “Transformer” (1972) virou clássico, com as canções mais adoradas pelos fãs: “Perfect Day”, “Vicious”, “Satellite of Love” e o maior sucesso, “Walk on the Wild Side”.

Nunca se transformou em grande vendedor de discos. Com altos e baixos de popularidade, Reed lançou álbuns que passaram em branco para o grande público. Seu último solo foi “Hudson River Wind Meditations” (2007), com longas faixas para serem usadas como trilha sonora de meditação.

Até chegar a essa fase zen – ultimamente se dedicava ao tai chi -, Reed passou anos no “lado selvagem” da vida, como canta em seu hit. Lewis Allan Reed nasceu em 2 de março de 1942, em Nova York e, ainda adolescente, confessou aos pais que gostava de homens e mulheres. Foi tratado com choques elétricos, experiência citada em várias de suas canções. Em 1961, tocava em bandas e apresentava um programa de jazz em rádio. Três anos depois, conheceu John Cale, virtuoso de muitos instrumentos, e os dois criaram o Velvet Underground.

ÓDIO AOS HIPPIES

O disco de estreia, com a famosa banana desenhada por Warhol na capa, saiu em 1967 e era barulhento e depressivo, completamente diferente do rock psicodélico que tinha então seu auge – Reed odiou até o fim da vida os hippies e Jim Morrison (1943-1971), do Doors, que não era hippie, mas vinha da ensolarada São Francisco. Ao largar o Velvet, foi um dos criadores do andrógino glam rock, com David Bowie e Iggy Pop. Bowie produziu o bem-sucedido “Transformer”, mas Reed pareceu ter medo de começar a agradar.

No disco seguinte, “Berlin”, surpreendeu com orquestra e som agressivo. A busca pelo “desagradável” teve auge em “Metal Machine Music” (1975). Sua última e terceira passagem pelo Brasil, em 2010, foi com uma turnê que retomava esse disco. Tocou mais de uma hora de barulho ininterrupto no Sesc Pinheiros, em São Paulo. Antes, em 1996 e 2000, mostrou canções aos brasileiros em shows “normais”.

Essas e quase todas as suas turnês nunca apresentavam repertórios constantes. Reed alternava noites em que dava ao público os hits dos álbuns “Velvet Underground & Nico” e “Transformer” com outras em que cantava apenas músicas mais obscuras.

E ele tinha muitas obscuridades. Lançou discos como “Mistrial” (1986) e “Set the Twilight Reeling” (1996), dos quais apenas aqueles fãs mais fervorosos conseguem se lembrar de alguma faixa. Mas pouco sucesso não é sinal de baixa qualidade. A força inabalável de sua poesia está documentada em “Atravessar o Fogo”, edição da Companhia das Letras lançada em 2010 com 310 letras de Reed, em versão bilíngue.

Na última década, se mostrou aberto a colaborações. Por exemplo, canta “Some Kind of Future” no CD “Plastic Beach”, do Gorillaz, projeto de Damon Albarn (Blur). Sua parceria mais badalada foi com o Metallica. Fez letras e cantou em “Lulu”, gravado com o grupo em 2011. Poucos gostaram, mas Reed, claro, não deu a mínima.

VIDA DE CASADO

Fora dos estúdios e dos palcos, Reed vivenciou o inferno de drogas e devassidão de seus versos. Seu grupo de amigos chegava a pagar químicos para a criação de novas drogas – as existentes não eram fortes o bastante. Foi casado com um travesti, Raquel, e pagou aluguel por anos para vários garotos de programa e prostitutas. Reed teria parado de caminhar no lado selvagem nos anos 1990, quando se aproximou da cantora, violinista e artista multimídia americana Laurie Anderson, 66.

Eles mantiveram durante três ou quatro anos um relacionamento aberto, e depois Reed teria parado de encontrar outros parceiros. Quando ele se submeteu ao transplante, Laurie declarou: “Ele estava morrendo. Não acho que ele vá se recuperar totalmente disso, mas certamente ele estará fazendo as coisas dele em breve”.

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