O poeta por trás da “Menina Veneno”

Por Bruno Capelas (do Scream & Yell)

bernardo1Ele é o homem por trás de algumas das letras mais marcantes do rock nacional, como “Menina Veneno”, “Vida Louca Vida” e “Corações Psicodélicos”, mas pouca gente sabe como é sua cara ou sua voz. No momento em que um de seus maiores sucessos completa 30 anos de idade e um de seus maiores parceiros dá uma guinada à direita, mostrando para que servem seus olhos grandes, sua boca grande e confundindo antigos fãs e chapeuzinhos vermelhos, o letrista e poeta Bernardo Vilhena bate um papo franco com o Scream & Yell. Na conversa, o carioca relembra como entrou no mundo das palavras, conta a história de como conheceu Lulu Santos, Lobão e Ritchie e participou ativamente da cena roqueira da cidade na virada dos anos 1970 para os 1980. Além disso, ele desmistifica a origem do famoso “abajur cor-de-carne” da letra de “Menina Veneno”: “O abajur cor-de-carne veio da Marlene Dietrich, que adorava os abajures do Copacabana Palace, que tinham uma cor de pergaminho”.

A canção, escrita ao lado do inglês Ritchie, foi o maior sucesso de 1983, desbancando até o rei Roberto Carlos em vendas e fazendo Bernardo Vilhena enjoar da cria. “Eu cansei tanto dela que resolvi fazer uma viagem pra Amazônia. Chegando numa comunidade ribeirinha, vi umas lavadeiras com uns rádios enormes. E o que elas estavam ouvindo? ‘Menina Veneno’, claro!”, relembra o compositor. Trinta anos depois, Bernardo aproveita a oportunidade para falar sobre direitos autorais, a PEC da Música e o ECAD hoje em dia, além de revelar que não fala com Lobão há anos. “Há certa babaquice em tentar reescrever e modificar o passado. Ele prega uma amizade com o Cazuza e o Júlio Barroso que ele não teve. O dia que ele parar de cantar as minhas letras no show dele, eu passo a respeitá-lo de novo”.

O poeta também comenta o nível da música brasileira atualmente, e diz que é “preciso ficar de olho nas rádios e nas TVs, mas cabe aos artistas a responsabilidade de ajudar quem quer fazer algo diferente e não tem meios para isso”. Com a palavra, Bernardo Vilhena.

Antes de tudo, Bernardo, eu queria saber como foi a sua entrada no mundo das palavras. Como você se interessou pela escrita?
Confesso que essa entrada foi natural, porque aprendi a ler sozinho, vendo o meu pai lendo o jornal. Aos cinco anos de idade, eu sentava do lado dele e ficava tentando decifrar as manchetes, especialmente do caderno de esportes. Além disso, sempre gostei de escrever cartas para os primos que moravam longe, fazia poesia para as namoradas, sempre me dei bem na escola com as dissertações. Escrever era comigo, mas nunca pensei nisso, simplesmente fui escrevendo. A surpresa foi quando eu percebi que as pessoas se interessavam pelo que eu escrevia – e eu não tinha máquina de escrever, fazia tudo à mão até os 22 anos. Mas acho que só comecei a escrever de verdade quando comprei uma máquina, uma Swissa Piccola portátil, muito bonitinha, que tenho até hoje.

E como foi que você conheceu os teus dois parceiros mais, digamos, conhecidos, que são o Lobão e o Ritchie?
Eu já tinha encontrado o Ritchie em algumas festas (no meio dos anos 70), nós nos víamos sempre nas rodinhas de baseado, mas nunca tínhamos conversado. Na época havia uns eventos no MAM (Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro), com música, e quem organizava tudo isso era o Sidney Miller. Uma vez, teve um show com três bandas de rock: os Mutantes, O Terço e uma terceira banda chamada Soma, na qual o Ritchie tocava. O Sidney Miller me chamou para fazer o programa, e eu fiz uma revistinha com algumas citações sobre o rock. Coloquei frases de John Lennon, de Jimi Hendrix, do The Who e de alguns críticos e escrevi um texto sobre o que eu achava de tudo aquilo. Dois dias depois do festival, eu estava em casa, morava perto do Jardim Botânico. Toca a campainha, eu fui atender e era o Ritchie, com a revistinha na mão. “Foi você que escreveu isso?”. “Foi”. “Pô, cara, é o melhor texto que eu li sobre rock no Brasil”. Ele me contou que tinha montado um grupo novo e perguntou se eu não estava a fim de fazer algumas letras, fazer uma grana. Marquei de ir ao ensaio deles na Lapa, e conheci o Lulu Santos, o Lobão, o Luiz Paulo Simas e o Fernando Gama. Era o Vímana. Acabei fazendo umas letras para eles, naquele esquema de acabar um poema quando o seu amigo chega com uma música pronta, sabe? Mas, na verdade, cara, eu não gostava do som do Vímana.

Por quê?
Eu não gosto de rock progressivo. Adoro o Pink Floyd, que dizem que é rock progressivo, mas é mais jazzístico que propriamente progressivo. Seja como for, eu fiquei muito amigo deles, adorava estar com os caras, fazia a luz para os shows deles. Passou um tempo e o Lulu Santos foi mandado embora da banda, quando o Patrick Moraz [tecladista do Yes] tentou fazer com que o Vímana se tornasse a banda de apoio dele. O Moraz já tinha um guitarrista e o Lulu acabou chutado. Ele foi lá pra casa chorando, “Pô, o cara roubou minha banda”, e nessas nós começamos a fazer umas canções bem brasileiras. Dessa safra, só uma delas foi gravada, “Ouça Essa Canção”, pelo Edson Cordeiro – a Gal gravou a mesma música antes, mas quando eu fui ouvir, o Lulu tinha passado a letra errada para ela. “Cara, mas tem esse erro aqui!”. Foi uma coisa meio intransigente, e o problema era que era um erro chato, e pedi pra música não sair. Enfim: fiz essas canções com o Lulu, e depois ele fez uma banda chamada Uns e Outros, com o Antonio Pedro, que depois viria a ser baixista da Blitz, e o Arnaldo Baptista. Era uma banda ótima, mas que não foi pra frente. Aí o Lulu foi gravar seu primeiro compacto, e ele resolveu cantar uma música minha com o Antonio Pedro, aquela “Gosto de Batom”, que é uma música legal… mas não é uma música legal!

Mas por que não era legal?
A “Gosto de Batom” era uma música que nós fizemos meio de sacanagem. Ele era casado com uma menina, e a gente estava esperando ela acabar de se arrumar para nós sairmos pra algum lugar, e toda hora ela ia na sala e dizia: “O que vocês acham disso?”. Enquanto a gente esperava, bebendo umas, fumando um baseado, o Antonio Pedro pegou o violão, começamos a brincar e acabou saindo essa canção, que fala de uma mulher se arrumando pra sair. E o Lulu acabou gravando.

E onde entra o Lobão nessa história?
(Voltando ao Vímana) Acabou que o Lobão roubou a mulher do Patrick Moraz, a Liane Monteiro, irmã da Liége, que tinha estudado comigo no Colégio Pedro II. Aí tinha o Inácio Monteiro, que estudou com o Lobão no Colégio S. Vicente de Paulo, e era meio que um empresário do Vimana, mas trabalhava como diretor no IBOPE. O Vímana acabou, o Lobão queria começar a escrever as coisas dele e o Inácio falou que ajudava a bancar um compacto pro Lobão. Coisa de um mês depois, ele apareceu com dez músicas (Nota: letras de Bernardo). O Inácio pediu para ele falar os títulos, e ali tinha “Cena de Cinema”, “Robô, Roboa”, “Amor de Retrovisor”. Ele mandou a gente parar e falou: “cara, isso dá um LP”. Alugamos um estúdio em Botafogo, o técnico de som era o Marcelo Sussekind. Juntamos os amigos: Lulu, Antonio Pedro, Ricardo Barreto, Marina, e o disco ficou pronto, mas estava com uma mixagem meio caótica. Deu aquele medo, mas um dia, a minha mulher na época, a Isabela, tinha uma fita demo meio esquecida, e no final da fita tinha um cara cantando, e era um cara que tinha estudado com ela. Era o Carlão, que depois a gente descobriu que era técnico de som na Som Livre. Levamos o “Cena” pra ele e ele arrumou todas as vozes em duas horas. Depois disso teve a peregrinação pelas gravadoras, e o “Cena de Cinema” acabou saindo pela RCA. Quando ficou pronto tudo, o Inácio Machado me perguntou: “quem é o próximo?”.

E quem era o próximo? O Ritchie?
O Ritchie! Foi aí que nós fizemos o “Voo de Coração”, um disco que já estava praticamente pronto. O Carlão produziu junto com o Mayrton Bahia. Foi aí que a coisa pegou fogo mesmo. Por incrível que pareça, “Voo de coração”, a música, que é bastante cultuada, nunca foi um sucesso, ficou num cantinho. Ela tem aquele solo absurdo do Steve Hackett, e ele gravou três guitarras absurdamente iguais, deu um corpo para a gravação. Foi uma demo que a gente fez para levar para as gravadoras, e o próprio Liminha ficou chocado. Foi impressionante, em técnica, havia um sentimento, uma melodia naquele solo.

Mas o carro chefe do “Voo de Coração” foi “Menina Veneno”. Como é que essa música nasceu?
Quando eu estava trabalhando com o Vímana, eles me deram um livro do [Carl Gustav] Jung no meu aniversário, “O Homem e Seus Símbolos”. Eu adorava esse livro, pesquisava bastante o tema. Comecei a fazer psicanálise com 18 anos de idade, por conta própria, logo depois de ganhar meu primeiro salário. Na época, eu estava num ritmo de composições tão forte que eu brincava que começaria a fazer música até com para-choque de caminhão. Tinha várias músicas que tentavam isso, e um dia eu estava dirigindo e veio essa coisa na cabeça, a “menina veneno”. Quando veio, achei do caralho, e contei pro Ritchie. Na mesma hora ele falou que tinha feito uma melodia que achava que casava com o tema. Fui para casa dele, começamos a fazer a letra. Foi engraçado na hora que a gente escreveu o verso “meia noite no meu quarto, ela vai surgir”, porque a filha do Ritchie começou a subir a escada, a gente ouviu os passinhos e “ouço passos nas escadas…”.

E o famoso abajur cor-de-carne, de onde veio?
O abajur cor-de-carne veio da Marlene Dietrich, que adorava os abajures do Copacabana Palace, que tinham uma cor de pergaminho, mas que na expressão em alemão, quando traduzida literalmente, virava cor-de-carne. Na minha cabeça de letrista, o cor-de-carne com o lençol azul e as cortinas de seda montavam todo um cenário interessante. O refrão, por sua vez, tem uma ligação forte com as artes plásticas, uma área à qual eu sempre fui muito ligado. Eu tinha uma amiga, a Regina Vater, que tinha um trabalho de retratos das camas de hotel que ela dormia, e mandava isso como cartões postais. “Toda cama que eu durmo só dá você” era um verso dela. Era uma gíria da época, o “só dá o fulano”. São as coisas fundamentais dessa letra, dessa canção.

como foi ouvir essa música tocando nas rádios direto?
Cara, foi o meu segundo sucesso, porque eu já tinha feito o “Geme Geme”, com a Blitz. Mas a “Menina Veneno” tem aquele solo de sax do Zé Luís que é muito inspirado. Tem desespero, tem tesão, tem melodia. As coisas que mais gosto no rock’n roll são os solos. É a coisa que mais me atraiu para o rock’n roll, uma herança do jazz que eu ouvia quando era menino. Sempre dei muito valor ao solo. “Menina Veneno” é uma canção que quebrou um paradigma no rádio, que era o tempo das canções. É uma música muito grande (4m40s). O que mais me entusiasmou é que as rádios a tocavam até o final, sem editar. Ela ia até o fim do fim do fim, a última nota daquela gravação. E eu não acreditava nessa música como um hit, achava ela difícil, tinha essa coisa do arquétipo do Jung, é meio hermética. O “Voo de Coração” tem músicas muito mais abertas. Mas o título da música dava uma discussão, as pessoas perguntavam o que era menina veneno, o que significava, qual era o sentido oculto da canção. Uma vez, o DJ Pelé, o Dom Pepe, disse que estava ouvindo na casa do Caetano e que era a única música que falava de heroína, então outro dizia que era uma homenagem à punheta. Cada um tinha a sua versão.

Mas não teve um momento que você cansou de escutar “Menina Veneno” por aí?
Claro, claro que cansou. Até fiz uma viagem para a Amazônia. Eu não aguentava mais ouvir “Menina Veneno” e aluguei um barco em Manaus para ir até Santarém. Durante a viagem, a gente descia do barco para ir até uns povoados, ver as comunidades ribeirinhas. Um dia a gente desceu num riachinho, tinha umas lavadeiras, e perto delas vinha um som alto, com uns rádios enormes. Chegando perto, o que os rádios tocavam? “Menina Veneno”! Porra, até aqui?

E hoje, qual é a sua sensação quando alguém fala da música?
Fui numa festa um tempo atrás, tinha intelectuais aqui do Rio de Janeiro e eu fiquei conversando com a mulher de um intelectual sério. Ela disse: “Pô, foi você que fez Menina Veneno”. Eu confirmei, ao que ela fez uma cara envergonhada e disse: “Era assim que meu pai me chamava quando eu era criança”. Outro dia fui à casa de um amigo e a empregada dele abriu a porta pra mim. Enquanto ele se arrumava, a empregada chegou para mim e disse assim: “Foi o senhor que fez aquela música, ‘Menina Veneno’? Essa música era a música da minha juventude! Eu chegava nos bailes na Rocinha dizendo “Toca ‘Menina Veneno’!””. Isso é o Brasil, e tocar o coração do Brasil é muito gratificante. É um absurdo.

Como você se sente tendo escrito algo que está na boca das pessoas, mas sem ter uma voz ou um rosto conhecido?
É uma sensação maravilhosa. Tem um poema meu atual que diz: “A vida contemplativa é minha maior conquista / meu exercício é a solidão”. Adoro ficar sozinho, detesto feiras. O Maracanã é o meu lugar preferido, e eu posso ir lá torcer em paz. Quando eu tinha 17, 18 anos, me chamaram para cantar em banda de rock. Eu não aguentava os ensaios, aquela coisa de ficar repetindo. O grande prazer que tenho é chegar num lugar absolutamente anônimo, num bar de beira de estrada e a menina do caixa está cantando uma música sua, como “Vida Louca Vida”. Isso não tem preço.

4 comentários em “O poeta por trás da “Menina Veneno”

  1. Esse aí só se arrependeu de não ter feito a letra da música: me olho no espelho, meu olho tá vermelho, mas não é de chorar por você, zé buduia, zé buduia… Do grande Eloy Iglesias

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