Dias de glória

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Por Álvaro Pereira Júnior

E-mail bomba na segunda-feira de folga: “Álvaro, a gente se conheceu em Santiago, eu trabalho com o Bruce Springsteen. Alguma ideia de música brasileira para ele tocar aí? Sugeriram as canções tal e tal, mas o Bruce quer saber o que você acha”.

Primeira reação: é trote. Depois, uma conferida no domínio da remetente, fulana@jonlandau.net. Começou a ficar sério. Jon Landau, todo jornalista de música sabe, ou deveria saber, era o crítico da revista “Rolling Stone”, fama de implacável (a ponto de atacar “Are You Experienced?”, de Jimi Hendrix, quando o álbum saiu, em 1967), que um dia foi a um show de Bruce e escreveu o que talvez seja a resenha de rock mais famosa de todos os tempos: “Eu vi o futuro do rock e ele se chama Bruce Springsteen”.

Landau tornou-se guru/parceiro/produtor de Springsteen, simbiose que dura até hoje. Contra a possibilidade de trote, eu tinha esse histórico a meu favor: Bruce ouve jornalistas. Pelo menos alguns. Periga “The Boss” realmente estar me consultando.

Outra evidência favorável: dias antes, no Chile, eu tinha entrevistado Bruce para o “Fantástico”. Era para durar 15 minutos, mas ele mandou seguir. Falamos por meia hora.

Eu estava em terreno seguro. Tinha lido na viagem a Santiago quatro revistas “Uncut” e duas “Word” com edições especiais sobre ele. Também encarei boa parte da biografia “Bruce”, de Peter Ames Carlin. E, principalmente, devorei a excelente reportagem sobre o cantor que a “New Yorker” publicou em julho de 2012, assinada pelo próprio editor-chefe, David Remnick.

No Chile, a única entrevista exclusiva, além do “Fantástico”, foi para um argentino que vacilava no inglês e parecia não tomar banho desde antes de Bruce comprar sua primeira guitarra. Durou os cinco minutos previstos.

Assim, não sei se por eu ter levado a sério a missão, ou pelo simples contraste com o colega ensebado, o fato é que deu liga entre o “Show da Vida” e Springsteen.

De volta ao e-mail explosivo: eu precisava de um tempo para pensar. Escrevi que dali a algumas horas mandaria sugestões. Nenhuma resposta de volta. Seria mesmo trote?

Entra em cena um comparsa, o jornalista e amigo há 25 anos André Forastieri, com quem tinha uma cerveja marcada logo em seguida. “André, olha esse e-mail.”

Expliquei que tinha pensado em Legião Urbana, “Que País É Esse”, e “Inútil”, do Ultraje a Rigor. Não por amar nenhuma das duas, mas por achar que funcionariam para Bruce e trariam um conteúdo político do agrado dele. André lembrou que “Inútil” tinha sido tocada pelos Paralamas no primeiro Rock in Rio, de 1985, o que lhe dava um significado especial.

Mais uns segundos vasculhando arquivos mentais, até que Forasta disparou: “O Bruce tem de tocar Raul!”. Claro! Raul, um outcast, longe dos lobbies de gravadoras, do establishment da MPB, do rock de consenso, um nome de que ninguém mais se lembraria. Mas o quê? “Aluga-se?” Não. Imaginei a massa cantando o refrão de “Sociedade Alternativa”. Era isso.

Voltei para casa, mandei o e-mail no capricho, sugestões com contexto histórico e esclarecimentos: Raul, Legião, Ultraje. Contei a uns poucos amigos. Faltavam dois dias para o show em São Paulo, cinco para o Rock in Rio. Nunca recebi resposta dos americanos.

Até que, a poucas horas do concerto em SP, uma jovem criatura avisou por e-mail: estavam dizendo no Twitter que, da fila, ouvia-se Bruce Springsteen ensaiar “Sociedade Alternativa” com a E Street Band.

O resto é emoção, homenagem, história. Não estava lá –assisti, comovido, mil vezes na web. Em um arranjo soul arrebatador, cantando em português, Bruce abriu os dois shows com Raul, o brasileiro mais “rocker” de todos os tempos. Em vez de tocar as músicas que, antes de mim, alguém tinha sugerido e agora posso revelar: “Canção da América” e “Comida”.

Sobre “Canção da América”, disse em meu e-mail à assessora de Springsteen que, de fato, tinha a ver com o que ele apresentara no Chile e na Argentina (números de Victor Jara e Mercedes Sosa). Mas que eu a considerava piegas, tipo um hino de igreja. Sobre “Comida”, nem comentei, só mandei um link e recomendei que Bruce a ouvisse.

Músico sensível até a última célula, claro que ele escolheu Raul. Viva a Sociedade Alternativa!

4 comentários em “Dias de glória

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