Senna em excesso relega outros pilotos brasileiros ao esquecimento

Hamilton passa por novo painel em Interlagos: só Senna
Por Flávio Gomes – no Gira Mondo
O autódromo de Interlagos se chama José Carlos Pace desde 1985. Pace, o Moco, fez história e fama no Brasil nos anos 60 como piloto da Willys e, depois, da equipe Dacon. Em 1970, seguindo os rastros do amigo Emerson Fittipaldi, foi para a Europa. Ganhou a F-3 Inglesa, foi para a F-2, encantou Enzo Ferrari, passou a correr provas de longa duração pelo time de Maranello — chegou a ficar em segundo em Le Mans em 1973 — e já em 1972 estreou na F-1 pela incipiente Williams, que usava carros velhos feitos pela March. Um sexto na Espanha e um quinto na Bélgica foram seus melhores resultados. Em 1973 e 1974, correu pela Surtees, trocando o time pela Brabham nas últimas sete etapas de 1974. Conseguiu dois pódios nesse período — na Áustria em 1973 e nos EUA em 1974. Disputou o Mundial de 1975 pela Brabham e ganhou o GP do Brasil em 1975, na primeira dobradinha brasileira da história da categoria, com Emerson em segundo. Terminou aquele campeonato em sexto lugar com mais dois pódios. Em 1977, começou a temporada com um ótimo segundo lugar na Argentina e era considerado um candidato ao título. Morreu em 18 de março de 1977 quando o pequeno avião em que estava junto com outro piloto, Marivaldo Fernandes, caiu em Mairiporã depois de decolar debaixo de muita chuva. Eles iam para a fazenda de Marivaldo em Araraquara. Foi enterrado no cemitério do Araçá. Seu túmulo foi vandalizado e a denúncia do abandono foi feita pelo jornalista e historiador Douglas Nascimento em março de 2022. Em agosto de 2024, seus restos mortais foram transferidos para Interlagos e depositados sob seu busto na entrada do túnel que passa por baixo da pista, local de passagem apenas para quem tem acesso à parte interna do autódromo. A iniciativa foi de Paulo “Loco” Figueiredo, piloto de carros clássicos e dirigente da CBA dedicado à memória de velhos pilotos brasileiros. O busto e os ossos são as únicas referências físicas a Pace no complexo esportivo que leva seu nome. Da base até o topo, a altura é de cerca de 1,20 m, com a escultura propriamente dita medindo cerca de 50 cm. Não há bonés com o nome ou a pintura do capacete de José Carlos Pace à venda no autódromo.

Em 2020, o artista Kobra pintou a obra “Ayrton Senna – Superação” na empena do edifício que abriga, entre outras coisas, a torre de cronometragem de Interlagos. A pintura tem 27 m de altura por 10 m de largura e representa o momento em que o piloto brasileiro ergueu o troféu depois de vencer o GP do Brasil de 1991. É visível a partir da entrada da reta dos boxes e, também, por quem está no miolo do circuito. O público nas arquibancadas do setor A também tem uma visão ampla da imagem. No mesmo setor A, numa das extremidades da via de circulação que dá acesso à tribuna, foi inaugurada em 2022 uma escultura espelhada de 3,5 metros de altura e 550 kg com o rosto do piloto, de autoria de Lalalli Senna, sobrinha de Ayrton — que morreu em 1994 num acidente em Ímola. É, hoje, o ponto mais “instagramável” do autódromo. Há cerca de uma semana, o mesmo Kobra do painel que retrata o tricampeão mundial na torre de Interlagos inaugurou, junto a autoridades municipais, um mural de quase 2 mil metros quadrados (225 m de largura por 8,7 m de altura) para decorar o paredão que ladeia a curva do Laranjinha. A criação foi batizada de “Nós Somos São Paulo” e reproduz pontos turísticos da cidade, como o estádio do Pacaembu e o MASP, intercalados por rostos humanos: um estudante, um aposentado, um guarda civil, um gari, uma enfermeira e Ayrton Senna.

Bonés do Banco Nacional usados por Ayrton Senna durante sua carreira na F-1 são vendidos nas lojas oficiais de Interlagos, durante o fim de semana do GP, por R$ 800.
Miniaturas da escultura espelhada do setor A são comercializadas por valores entre R$ 7,6 mil e R$ 27,5 mil, dependendo do tamanho e do acabamento, no site da autora da obra. Há uma série especial limitada cujo preço não é divulgado.
Kimi Antonelli esteve no início da semana na fazenda da família Senna em Tatuí (SP) e posou para fotos com a escultura e dentro de uma réplica da Lotus preta com a qual o brasileiro venceu pela primeira vez na F-1, em 1985.
No dia seguinte, foi ao cemitério onde Senna está enterrado.
No outro, apresentou seu capacete para o GP de São Paulo, pintado nas cores do capacete de Senna.
Gabriel Bortoleto também corre com um capacete especial em Interlagos, que tem no cocuruto uma ilustração de Senna levantando o troféu de 1991, a mesma imagem da pintura de Kobra na torre.

No JW Marriott, um dos hotéis utilizados pelas equipes da Fórmula 1, uma exposição no térreo oferece aos visitantes capacetes, fotos, pôsteres e miniaturas de carros de Ayrton Senna.
No Wyndham Ibirapuera, outro hotel, uma réplica do McLaren MP4/6 em tamanho natural está exposta no lobby, carro pilotado em 1991 por Ayrton Senna.
No Blue Tree Premium, mais um hotel, há uma exposição dos capacetes pintados por Sid Mosca, criador do desenho utilizado por Ayrton Senna.
No Rosewood São Paulo, que se apresenta como um “oásis urbano regenerativo” — é um hotel —, o ex-piloto francês Érik Comas deu uma palestra nesta semana para hóspedes e convidados para falar do acidente que sofreu nos treinos para o GP da Bélgica de 1992. Ele foi socorrido na pista por Ayrton Senna.

Quando a Haas informou, terça-feira, que Rafael Câmara iria correr em Interlagos, o canal Sportv, da Globo, celebrou com uma postagem em sua conta no Instagram o fato de que o piloto faria sua estreia na F-1 num GP disputado no Brasil, como Ayrton Senna.
A TV Globo colocou chamadas no ar para a transmissão da corrida de domingo com uma colagem de imagens de pilotos atuais em Interlagos que completam uma volta no autódromo narrada por Ayrton Senna.
Um escritório no paddock ocupado pela FIA teve as colunas decoradas com reproduções do capacete de Ayrton Senna.

O Brasil teve 33 pilotos na Fórmula 1 ao longo da história. Câmara será o 34º a largar em uma prova da categoria. Seis deles venceram GPs e três foram campeões mundiais. Alguns, pioneiros, participaram de corridas nos anos 50. Um deles, Nano da Silva Ramos, completou 100 anos em dezembro do ano passado e se tornou o ex-piloto de F-1 mais velho do planeta. Eu o entrevistei e publiquei aqui. Morreu cinco meses depois em Biarritz, na França, onde vivia.
Todos correram em Interlagos em algum momento de suas carreiras. Gino Bianco participou da corrida inaugural do autódromo, em 1940. Nano, em 1947 na primeira prova internacional do circuito. Fritz D’Orey, que se chamava Frederico, ganhou os 500 Km em 1958 com uma Ferrari 1951 equipada com motor Corvette, carro que tinha sido dado a Chico Landi – dispensa maiores apresentações — por Getúlio Vargas.
Rubens Barrichello nunca venceu em Interlagos, na F-1, mas se criou no bairro e a pista era seu quintal. Felipe Massa ganhou aqui duas vezes. Emerson Fittipaldi, mais duas. Nelson Piquet foi campeão da Super Vê em Interlagos há exatos 50 anos, o que o levou à Europa e ao tricampeonato mundial.
Interlagos tem muita história e muitos personagens. Ayrton Senna não é o único.
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