Por que castigar a alegria?

Por Gerson Nogueira

bol_dom_080913_23.psExistem leis escritas no futebol que indicam claramente o viés ressentido dos autores. Nunca me conformei com a punição draconiana aos goleadores que resolvem correr ao encontro da torcida na comemoração delirante do gol. Por conta dessa visão punitiva, já houve caso de expulsão (pelo segundo cartão amarelo) para o autor do lance que vale o espetáculo.

Há algo imutável em futebol: nada é mais importante que o gol. Não adianta driblar miseravelmente,chapelar e tripudiar com firulas. São meras filigranas do espetáculo. O ato principal, culminância da ópera popular que encanta o mundo, acontece quando a bola beija as redes.

A catarse que se segue ao gol, por parte dos felizes beneficiários e também pelo estupor das vítimas, justifica a explosão de alegria que faz com que os artilheiros tirem a camisa, distribuam socos no ar e pulem como crianças em êxtase. Futebol é, essencialmente, isso.

Um engravatado qualquer, certamente com inveja de momento tão consagrador, resolveu idealizar o castigo. Criou uma regra que homenageia a repressão, pune a alegria e tortura o artista maior. É algo como uma birra particular: o sujeito faz o gol, mas se pisar fora da linha regulamentar será duramente açoitado, pelo pecado vil de extravasar euforia e sentimento.

O reverso de sentimento é ressentimento. Não conheço palavra mais apropriada para quem legisla contra o ápice do espetáculo. A propósito dessa particularidade nefasta, o amigo Glauco Lima, o mais indomável dos bicolores, escreveu um desabafo depois de ver Marcelo Nicácio ser advertido com o cartão amarelo depois de um gol contra o Sport, enlouquecendo a massa alviceleste.

Como exigir de um atacante, cuja razão de existir é o gol, que se contenha no instante da glória absoluta? Glauco observa que, naquela noite, Nicácio não tirou a camisa, não mostrou mensagens pessoais, não atrasou o jogo, apenas correu para o abraço. “Se jogou nos braços da galera para festejar um gol libertador de um sufoco doloroso. Vendo isso fico a pensar que punir um jogador de futebol que faz isso, é o mesmo que multar o pai que corre para abraçar os filhos na porta de casa depois de um dia duro de trabalho”, compara.

E vai além: “Esse cartão amarelo é o mesmo que penalizar o casal que se beija em público, após descobrirem que se gostam mutuamente. Estão querendo tirar a alma do futebol, a magia que fez dele o esporte mais amado da Terra. Estão querendo expulsar a alegria e dar cartão amarelo para a emoção. Reprimir o orgasmo. O gol é uma explosão!”.

Observa, com olhos de torcedor e amante do esporte, que tudo no futebol visa o gol. “São milhares de esforços para fazer e para evitar o gol. Goleirões, quatro zagueiros, três volantes, retrancas e defensivas. Times que jogam primeiro pra não perder e depois pra tentar ganhar. Quando o gol sai e se pune o festejo com a torcida é o mesmo que multar quem ri mais escandalosamente da piada, quem dá pulos insanos ao receber uma notícia boa, quem berra de felicidade ao tirar uma nota boa na escola ou repreender o artista que volta ao palco e desce para agradecer ao público que o aplaude de pé”.

Concordo por inteiro e fico aliviado por constatar que não estou sozinho nesta anárquica defesa dos construtores da alegria. Centenas de situações merecem ser reprimidas em campo, mas, por favor, deixem o gol (e a festa) em paz.

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Homenagem a um inventor genial

Célebre pelas mais diversas razões, Leônidas da Silva, um autêntico camisa 9 e especialista na arte de fazer gol, merece todas as homenagens dos fãs do futebol. Se vivo fosse, estaria completando um século de existência. Apelidado de Diamante Negro, Leônidas foi astro da Seleção Brasileira em seu tempo.

Defendeu com brilho São Cristovão, Flamengo, Vasco, Botafogo e São Paulo. Foi o goleador máximo da Copa de 38, com 10 gols. Carregou até o fim da vida a mágoa de não haver disputado o Mundial de 1950, quando já se encontrava em fase crepuscular.

Exímio cabeceador, Leônidas foi imortalizado como o autor do gol de bicicleta. Num rasgo de humildade, admitiu certa vez que não criou a jogada, quando muito a aperfeiçoou. Pode até não ter inventado, mas não há registro de alguém que antes dele tenha pedalado no ar com tamanha perícia e pontaria.

A plástica inigualável do gol de bicicleta, dos lances mais difíceis do futebol, confere a Leônidas a glória de integrar um seleto panteão de craques. Está, seguramente, no mesmo nível de um Romário, um Di Stéfano ou, mesmo, de um Cruyff. Acima deles, porém, teve a ventura de patentear uma jogada singular.

Graças a ele, o futebol ficou mais bonito e espetacular.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 08)

11 comentários em “Por que castigar a alegria?

  1. O grande problema, Gerson e amigos, é que estamos falando de futebol profissional… Jogador de futebol, traz todas essas comemorações, lá do futebol pelada, e quer fazer o mesmo no profissional…Aí, não…Passou o tempo de jogador fazer gol e subir no alambrado, tirar a camisa e tudo mais…Ali, ele é empregado do clube, está trabalhando e tem que seguir regras…Concordo, que as vezes os árbitros são rigorosos até demais, mas o jogador precisa trabalhar no dia a dia, suas comemorações, de um jeito mais profissional…Facilitaria pra ele… Agora pra nós que estamos de fora, só torcendo, quanto mais festa ele fizer, melhor, principalmente se o gol, foi do time que torcemos… Elementar..

    É a minha opinião.

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  2. É caro Gerson, pensava q estava só neste pensamento q vc e Glauco expressaram tão bem em poucas linhas!

    Só sou favorável à punição daqueles q tiram a camisa, por dois motivos: Financeiro, pois o patrocinador tem q aparecer; Estético, se fosse no futebol feminino td certo rs.

    Quanto ao Leônidas, um craque menos reverenciado do que merece. Meu carma particular, pois a bicicleta é a única jogada q nem tento executar nas peladas q participo!

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  3. O Aparecidense q deveria ser severamente punido foi premiado com a classificação graças ao massagista q invadiu o gramado e tirou em cima da linha o gol da classificação do Tupi.

    O futebol tá muito errado!!

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  4. Salgueiraço até no Amazonas, eu Heim.

    Futebol no Norte está sumindo, acordem dirigentes.

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