Revivendo infância em cidade pobre da Bahia

Por Gerson Carneiro (no Viomundo)

Tenho um amigo nos Estados Unidos, que frequentemente vai ao Haiti com um grupo de evangélicos levar um pouco de ajuda humanitária. Este ano, ele me convidou.

E cá estou em Porto Príncipe, capital do Haiti, onde cheguei na segunda-feira 12, 16h do horário local. Vim direto para acampamento, onde ficam principalmente estrangeiros.

Impressões iniciais.

O primeiro choque foi térmico. Estava úmido, porém abafado com temperatura de 30 graus positivos.

Do aeroporto até o acampamento, em um trajeto que durou cerca de 40 minutos em função do trânsito caótico, experimentei sensações que me remeteram a diversos lugares. O cenário, odores, o povo nas ruas.

Inicialmente pareceu que eu acabara de chegar à cidade de Feira de Santana e também ao garimpo do Socotó, região de Campo Formoso, na Bahia. Depois pareceu estar na periferia em Salvador, precisamente no bairro de Cajazeiras. Em seguida, na Índia ou Paquistão, quando comecei a cruzar com os Tap-Tap, veículos enfeitados, muito coloridos, que compõem o transporte público no Haiti.

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A presença de soldados da ONU é marcante. Em seus tanques, com armamentos pesados, de diversas nações do mundo. Há bases militares da Jordânia, Bangladesh, Índia, Filipinas, Argentina, Peru, Paraguai, Suiça … e até do Nepal. Curioso. Pensava que no Nepal só havia monges. Mas há exército também. E eles também brigam.

O contingente maior de soldados estrangeiros é do Brasil.

Só não há soldados norte-americanos, em que pese ser muito grande a embaixada norte-americana aqui no Haiti.

Todos os soldados estrangeiros estão aqui para garantir a paz institucional, governamental. Crimes e confusões civis comuns eles não se envolvem. Essa tarefa cabe aos policiais locais certamente pouco remunerados, o que é uma barreira a mais para que tenham disposição para resolver coisas mais sérias, me contou um simpático haitiano.

Observei o olhar do povo. Expressa simpatia. Se há algo que nada consegue tirar do povo é sua simpatia espontânea.

Há beleza na cidade de ruas esburacadas aonde se faz lama quando chove, e muita poeira quando não. Alguns animais transitam dando a sensação de um enorme Sítio do Pica-Pau Amarelo. E na alvorada, um lindo coral de galos. Nem sei dizer há quanto tempo não ouvia um só galo cantar. Aqui eu ouço um coral. Os grilos também gostam de se exibir.

As casas simples espalhadas ao pé da montanha são uma atração fascinante. E lá no alto estão as mansões dos ricos. No Haiti os ricos moram no alto dos morros. Aqui eles não negam que estão por cima.

Disse lá no início que o primeiro choque foi térmico. Talvez será o único, pois tenho a sensação de estar revivendo minha infância em uma cidade pobre no interior da Bahia.

Hoje vou colocar o pé na rua, ter contato direto com o povo, e sair da impressão para a realidade. Vamos lá.

PS: Não vim em avião da FAB. Minha viagem foi inteiramente custeada pela minha ING (Indivíduo Não Governamental), da qual sou e presidente e único financiador.

Pedi ajuda a alguns amigos do twitter, que generosamente colaboraram com cerca de R$ 600, e fiz uma breve campanha no meu trabalho. Isso me  possibilitou preencher uma mala com donativos (creme dental, escova dental, sabonete e absorventes higiênicos) e bancar o transporte dela, cerca de 30 quilos ao custo de 125 dólares. Aproveito para dizer que estou feliz e emocionado com a solidariedade de vocês. Muito obrigado.

A minha ideia é todo dia, sempre que possível, mandar um relato para vocês. Sempre que possível, porque, no acampamento, cada um só pode usar computador 30 minutos por dia, além disso frequentemente falta energia elétrica.

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