Distorcendo o ato de torcer

Por Gerson Nogueira

bol_ter_200813_11.psDo jeito que a patrulha de bons modos avança nos estádios logo vai chegar a hora em que palavrões, vaias e xingamentos estarão oficialmente proibidos, sujeitando os autores à pena de prisão ou açoite. A “coxinização” do futebol estará então implantada plenamente, visto que na prática o conceito de elitização da modalidade se alastra pelo planeta.

A mais recente novidade é que a Fifa está particularmente atenta ao comportamento dos torcedores nas arenas da Copa do Mundo de 2014. Depois das manifestações dos indignados de coloração ideológica difusa ao longo da Copa das Confederações, a entidade parece mesmo disposta a não refrescar no quesito etiqueta social.

A própria designação de “arenas” aos estádios já embute uma discriminação explícita aos estádios comuns, lugares onde o torcedor se sentia tranquilo, confortável e à vontade para vociferar contra quem quer que fosse.

O manual de conduta distribuído antes da Copa dos Confederações, contendo 50 intermináveis normas, já continha veto peremptório aos gritos e palavrões. Os gênios da Fifa parece que estão mesmo dispostos a abafar o ruído da galera, o cheiro de povo e o ronco da cuíca, como se isso fosse possível.

Há relatos impressionantes de que, no recente torneio de preparação para o mundial, os orientadores da Fifa chegaram a abordar torcedores, digamos, mais empolgados. Considero que esse procedimento constitui um autêntico atentado à liberdade de expressão. Tão grave (e obtuso) como castigar a comemoração do gol pelo artilheiro.  

Onde já se viu proibir que o torcedor exerça o legítimo direito de praguejar contra times rivais, esculhambar os pernas de pau de seu próprio time e, claro, homenagear a distinta genitora do assoprador de apito? Tal atitude seria semelhante a proibir a vaia nas manifestações de rua ou o palavrório dos peões de construção à passagem das moças mais robustas. Trata-se de um esporte nacional, tão praticado quanto o jogo de palitinho e o dominó.

Atribuir aos campos de futebol antros de permissividade porque os torcedores se tornam agressivos e barulhentos é, no mínimo, cercear a liberdade das pessoas. Sempre se entendeu, mesmo que isso não esteja escrito, que o sujeito que paga ingresso adquire automaticamente licença para o esperneio, o que inclui de vez em quando soltar um palavrão, desde que não seja uma ofensa direta a um vizinho de arquibancada.

Estudos científicos já comprovaram o poder terapêutico dos palavrões, capazes de acalmar o espírito e descarregar adrenalina. Há quem busque no abrigo dos estádios lotados a chance legal de extravasar revoltas acumuladas em outros níveis e descarregar frustrações maiores. Algo como a interpretação livre do grito primal, que fez a cabeça de John Lennon lá pelos anos 60. De mais a mais, como segurar a explosão de alegria que se segue a um gol ansiosamente esperado?

É diferente, por exemplo, da prática selvagem de atirar pedras, radinhos, pilhas, tênis e garrafas no trio de arbitragem. Dependendo da capacidade de arremesso do agressor, os artefatos podem ferir machucar alguém, daí a punição prevista pela legislação esportiva.

O consolo é que a pretensão da Fifa está destinada a cair no terreno das pretensões inúteis. Vetar a ação primitiva do grito nos estádios é como dar facadas na água, tentar impedir que a luz do sol se propague ou que o vento se alastre. A impressão é de que o sonho dos gênios que buscam controlar tudo no futebol é achar um jeito de penalizar a prática do gol. Parece incrível, mas é bom não duvidar.  

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Contas para escapar do abismo

O Paissandu retornou do giro de duas partidas (sem pontuar) por São Paulo e tem uma semana para se preparar para um confronto decisivo, para variar. No sábado, recebe o Icasa (CE) na Curuzu e tem a chance de fazer as pazes com a vitória, que pode tirá-lo da incômoda 18ª posição atual.

Em meio às especulações sobre mais reforços, o torcedor se dedica a cálculos sobre a pontuação necessária para escapar do rebaixamento. Números confiáveis indicam que o Papão terá que alcançar pelo menos 46 pontos até o fim do torneio para não correr riscos.

Isso significa que precisa somar 31 pontos nos próximos 22 jogos. Não é uma missão impossível, mas exigirá um comportamento impecável nas partidas disputadas em casa, já que vencer fora se tornou um drama. Dos 11 compromissos caseiros que restam, o time terá que vencer 10 e empatar um.  

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta terça-feira, 20)

17 comentários em “Distorcendo o ato de torcer

  1. Gerson e amigos:

    Na série B de 2012, o Guaratinguetá escapou com 43 pontos(o nível técnico, foi muito baixo, diferente de agora)

    Na série B de 2011, O Icasa foi rebaixado, com 47 pontos e o ASA foi salvo, com 48 pontos

    Na série B de 2010, o Brasiliense foi rebaixado, com 46 pontos

    Na série B de 2009, o América-RN, foi rebaixado, com 46 pontos, e o Ipatinga foi salvo, com 48 pontos

    Penso, que o Paysandu escapa, com 47 pontos, desde que, com um bom nº de vitórias e saldo de gols..Aí, vai para o critério de desempate..

    É Papão, faz o seguinte, vai ganhando aí, depois a gente pensa em usar a calculadora…hehe

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  2. Dizem que o reforço de pesso pra vestir a camisa 33 do Remo é Emerson Sheik, combinam.

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  3. égua Edson, acertaste na “mosca” ou melhor na “leoa”.
    Quanto ao nosso Papão, vamos começar Sábado e, até que enfim o Vandick deu uma dentro baixando o preço para 20 paus,

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  4. Rapaz quando começam a fazer a conta, já era.

    Em relação a FIFA, é algo momentâneo que não vai funcionar no Brasil, estão esquecendo de falar para mesma, que no Brasil quem gosta de futebol é o pobre, diferentemente da Europa.

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  5. Respeite, Luiz. Não há molecagem nem panelinha neste espaço. Existem sistemas de moderação que atuam sobre algumas palavras-chave. Compreenda isso e não faça julgamentos apressados.

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  6. Antes de ser encerrado o 1o turno, o PSC já está sob a pressão de ter que vencer todas em casa. Agora, é lutar para sair desse pesadelo em que se transformou a série-B.

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  7. Mais um para fazer companhia para o Paragobala:

    Fora da Série D, presidente do Genus busca alternativas para pagar salários.

    Bem feito.

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  8. Acho que a maior decepção ficará para os secadores pois o Grande Bicolor Amazônico não vai cair. O grupo vai reagir e melhorar na tabela, porém, não sobe!
    Penso que no segundo ano jogando a série B e ai sim montando um time para subir e coroando o ano do centenário com o acesso para a primeira divisão do Brasileirão!
    Na minha opinião é melhor festejar um acesso da B para a A do que fechar o ano do centeenário com uma queda da A para a B.
    Para os secadores gastem bastante energia pois nada rebaixará o Papão!

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