Por Fábio Sormani
Neymar concedeu sua primeira entrevista à mídia na manhã desta quinta-feira em Barcelona. Durou quase uma hora. Tinha gente saindo pelo ladrão.
E no que versou basicamente o papo de Neymar com os jornalistas europeus? No seu estilo, de jogo e pessoal.
Neymar ouviu várias vezes jornalistas perguntando se ele não terá que mudar seu jeito de jogar para se adaptar ao modelo do Barcelona. Sua característica de ter a bola nos pés durante muito tempo, o que contraria o jeitão do Barça atuar, que é tocar a bola e cansar o adversário à procura do espaço para chegar ao gol.
A insistência no tema foi tanta que Neymar mostrou certa irritação. E lá pelas tantas respondeu: “Mudar meu estilo? Não sei se você viu a Copa das Confederações, mas eu estava no Brasil ainda, e consegui, com meus companheiros, ir bem, fazer uma grande Copa das Confederações. Claro que tenho que aprender, melhorar muito aqui, mas evoluir a gente evolui em qualquer lugar do mundo. Não tem por que (mudar)”.
Outro tanto de jornalista europeu foi noutra direção: o estilo Neymar de ser. Queriam saber se ele vai comemorar os gols com suas famosas dancinhas. E lembraram que Carles Puyol, o capitão do Barcelona, ano passado, repreendeu Daniel Alves e Tiago Alcântara e interrompeu uma dança de ambos, comemorativa ao quinto gol da equipe catalã diante do Rayo Vallecano.
Neymar respondeu: “Ninguém falou nada comigo. Acho que a dança, a comemoração nunca tem que ser desrespeitando o adversário. Tem que ser uma coisa que você faça, que seja para você mesmo. A comemoração é a hora de você extravasar, gritar e fazer o que sentir vontade. Mas nunca é desrespeitosa”.
Ao ler tudo isso, eu fico me perguntando: por que o Barcelona contratou Neymar? Se o time catalão quer mudar o jogador, por que não contratou um autômato? Um atleta que não dribla, que é bom de toque de bola e que é careta em campo? Um atleta que não pensa por si próprio, que é levado a pensar por outrem?
Pelo que vemos, Neymar (foto Reuters) é a antítese do que o Barcelona quer e do que pensa a careta mídia europeia. Neymar é alegre, driblador, gosta de dar espetáculo, de ter a bola nos pés, pois é feliz jogando bola. Joga como se estivesse na rua, no campinho de terra batida, se divertindo com os amigos.
Esse é o segredo de seu sucesso: a alegria.
Neymar é como Garrincha; Mané era assim. Ia de lá pra cá e de cá pra lá. Fazia seus marcadores de bobos e os chamava de “João”. Era conhecido como “Alegria do Povo”. Era a diversão de todos numa época em que não havia patrulheiros de plantão e o ódio não era tão disseminado como hoje em dia, onde o fanatismo cega as pessoas e gera intolerâncias.
Naquela época, as tardes de domingo, naquele Maracanã que não existe mais por obra da Fifa, nas tardes daqueles domingos, Mané fazia de bobos seus marcadores. Encantava a todos (botafoguenses ou não) com seu jeitão simples e roceiro. Fazia a alegria do povo ao passar o pé em cima da bola; ao pisar na bola; ao fingir que ia e não ia. E ao fazer gols também e levar não só o Botafogo às vitórias e aos títulos, mas a seleção brasileira também.
Exatamente como Neymar sempre fez com a camisa 11 do Santos.
A Europa, temo, pode estragar Neymar; a Europa pode acabar com Neymar, o que seria muito pior.
Ela já fez isso com Robinho, um jogador que não lembra nem de longe aquele moleque atrevido que deu oito pedaladas diante de Rogério na final do Brasileiro de 2002, quando o Santos bateu o Corinthians por 3-2 e foi campeão brasileiro.
Hoje Robinho não dribla nem um cone. É um jogador com o dobro do peso de sua época de Santos. É um jogador bitolado, preso a sistemas de jogo e por isso mesmo sem criatividade.
Temo que isso possa ocorrer com Neymar.
No Barcelona já se fala que ele tem que ganhar cinco quilos de massa muscular. No Barcelona Xavi disse ontem que o sucesso passa pela equipe e não pelo individual, como se Neymar não soubesse disso. No Barcelona o estilo de jogo é o oposto do que o ex-atacante do Santos sempre jogou.
E eu não paro de me perguntar: por que o Barcelona contratou Neymar? Para engessá-lo?
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