Por Gerson Nogueira
A gestão dos clubes é seguramente o maior desafio do futebol profissional no Brasil. Pagar contas, ordenar despesas com responsabilidade e buscar receitas com criatividade. Fazer isso não é tarefa simples, principalmente em clubes de massa, onde a paixão é como combustível, inflamando as cobranças do torcedor e provocando pressão por todos os lados.
Mais do que administrar o dia, cuidar do gerenciamento de pessoas e descobrir talentos, os gestores precisam agradar acionistas dos mais exigentes: os torcedores. Quando não correspondem à expectativa do público – e isso acontece quase sempre –, são criticados implacavelmente e acabam ficando pelo caminho.
O Vasco da Gama talvez seja o exemplo mais cristalino dos problemas que uma diretoria pode ter para levar a cabo um projeto de saneamento interno. Roberto Dinamite, maior ídolo da história do clube, botou seu passado em jogo ao assumir a presidência, após derrotar uma oligarquia danosa aos interesses vascaínos.
Dinamite afastou Eurico Miranda e sua trupe de São Januário, mas o Vasco sob seu comando não conseguiu se libertar de hábitos antigos. Continuou a atrasar salários e a contratar indiscriminadamente. Ensaiou logo no começo uma ascensão, depois de conquistar a Copa do Brasil e chegar à Libertadores. Como não havia planejamento, o projeto não avançou e a queda foi vertiginosa.
As dívidas se acumularam e o clube teve que lançar mão de seus principais jogadores. Hoje, Dinamite e diretoria convivem com o drama de uma campanha de sobrevivência na Série A. Ao longo de toda a competição, pelo que se observa desde a primeira rodada, o Vasco estará sempre ameaçadíssimo de novo rebaixamento.
Como o Vasco, muitos outros grandes clubes brasileiros padecem de gestões viciadas e arcaicas. Raros (Internacional, Grêmio, Corinthians e São Paulo) podem se dizer bem administrados, embora convivendo com algumas mazelas.
No Pará, a situação é crítica, quase de terra arrasada. Administrações recentes de Remo e Paissandu devastaram as finanças dos clubes e puseram em risco a sobrevivência de ambos. As dívidas trabalhistas se acumulam, algumas geradas por deslizes patéticos, que acendem a suspeita de interesses escusos. A Tuna, que resistiu até os anos 90, baixou a guarda de vez e hoje vive de pires na mão, amargando problemas que antes eram privilégio dos rivais mais populares.
A partir de 2000, os emergentes do interior passaram a marcar presença e a se impor. Com a ajuda de prefeituras e empresas, Castanhal e Ananindeua despontaram inicialmente como alternativas aos gigantes da capital. Depois, surgiram Águia, Cametá, São Raimundo, Independente Tucuruí e Paragominas.
Com dois títulos nos últimos três campeonatos, o interior se estabeleceu como força concreta no futebol paraense, ajudado pelas facilidades propiciadas pela Federação Paraense de Futebol, interessada direta na ascensão (e no voto) das ligas interioranas.
O sucesso das quatro linhas, porém, não encontra correspondência no âmbito administrativo. Todos, sem exceção, padecem dos mesmos males que acometem a dupla Re-Pa há anos. Cametá e Independente Tucuruí, campeões estaduais, são hoje pálidas presenças, vitimados pela má gestão e a ausência de torcida.
O Paragominas, vice-campeão estadual desta temporada, é o mais novo integrante do clube dos insensatos. Depois de dar a ilusão de que seria a exceção à regra geral, adotando uma política pé-no-chão nas contratações, acabou golpeado pela própria empáfia de seus dirigentes.
No fim de semana, seus jogadores entraram em greve por falta de pagamento dos salários. Sem respostas por parte do presidente do clube, o antes loquaz Formiga, decidiram suspender os treinamentos até que dois meses de salários sejam quitados. Prova de que no futebol do Pará a história sempre se repete, como farsa e tragicomédia. Até quando?
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Será que a culpa é dos técnicos?
Dizia-se isso do Botafogo, mas há coisas que insistem em só acontecer com o Remo nos últimos tempos. Virou saco de pancadas de emergentes (Vila Aurora, Palmas, Cametá, PFC e Desportiva) e agora parece que é também uma espécie de cemitério de treinadores. Paulo Comelli andou pelo Baenão e foi dispensado depois de um fracasso retumbante.
No ano passado, Comelli calou seus críticos locais ao comandar o Criciúma em campanha empolgante, obtendo o acesso à Série A. A situação se repete com Flávio Araújo, que perdeu o campeonato estadual atuando numa retranca feroz. Ocorre que no Sampaio Corrêa (de onde havia saído para treinar o Leão) Araújo é rei.
Provou isso novamente ontem, ao derrotar o Águia em pleno Mangueirão, por 2 a 0. Seu time, ao contrário do Remo no Parazão, joga no ataque e sem medo. Por isso, quase sempre vence.
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Direto do blog
“Pirão, ao que parece, resolveu o problema do Remo, mas apenas neste momento, ao fazer um empréstimo em seu nome. Mas, tanto faz, afinal o pagador sempre será o Remo. Se o clube estava precisando de R$ 500 mil para solucionar as besteiras feitas no 1º semestre por Pirão e cia, amanhã precisará de quase R$ 1 milhão para solucionar esses problemas (500 mil + juros bancários), acrescidos, ainda, de mais dívidas, que serão contraídas de mais farras nas contratações, até o término de seu mandato. Administrar clubes da grandeza de Remo e Paissandu, pelas mãos de agiotas ou empréstimos bancários, não é a solução. A solução do Remo está na antecipação das eleições para este ano de 2013”.
De Cláudio Santos, um azulino cético quanto às promessas de mudança na era Pirão.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta segunda-feira, 08)
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