Internet rápida e 14 milhões de analfabetos

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Por Joana Salém Vasconcelos

Desde que a blogueira cubana Yoani Sanchez chegou ao Brasil no último dia 18 de fevereiro, seu percurso por algumas cidades tem causado polêmicas, entre protestos e defesas apaixonadas. A bandeira carregada por Yoani é a “liberdade de expressão” que, segundo ela, é extremamente limitada em seu país. Entre seus primeiros comentários na sua conta do twitter, com mais de 440 mil seguidores, Yoani se mostrou deslumbrada com a velocidade da internet no Brasil. Escreveu: “Mi primer tweet conectada a #Internet en #Brasil … waooo que conexión más rápida”. Logo depois, completou: “cada día que pasa y no se le permite el acceso masivo a Internet para los cubanos, la Isla se hunde más en el siglo XX”. Ao ler suas palavras, imediatamente, emerge a certeza de que Yoani Sanchez não conhece o Brasil. Provavelmente não sabe, por exemplo, que no Brasil 70% dos domicílios não tem acesso à internet, nem rápida, nem lenta, como constatou o IBGE em 2010. A maior parte do Brasil estaria, na concepção de Yoani, afundando no século XX – junto com Cuba.

Os defensores de Yoani, que a acompanham e, provavelmente, a financiam em suas andanças pelo país, são também paladinos brasileiros da “liberdade de expressão”. Curiosamente, muitos deles são os jornalistas que mais se expressam nos meios de comunicação do país e repetem, cotidiana e livremente, o mesmo discurso sobre a liberdade. A palavra “liberdade”, contudo, faz parte daquele universo de palavras sagradas, que todos podem reivindicar sem dar precisão exata ao que estão se referindo. Contudo, quando desacompanhada de qualquer conteúdo social, a palavra “liberdade” não passa de um cosmético do discurso. Isso porque, em uma nação socialmente segregada como a nossa, não existe liberdade sem conflito de interesses. O que determina, por exemplo, a liberdade dos sem-terra e a liberdade do latifundiário? Toda liberdade possui conteúdo social, e defendê-la como uma bandeira política neutra é uma atitude falsificadora.

No Brasil, portanto, a liberdade de expressão é um fato proporcional à nossa segregação social. Há que se supor que quando defendem a liberdade de expressão em abstrato, os amigos brasileiros de Yoani, na realidade, ocultem seus interesses. Talvez os interesses do Instituto Millenium, que expõe o retrato da cubana entre seu rol de “especialistas”. Nesse caso, liberdade de expressão seria uma dimensão da liberdade de mercado, movida por uma sacralização dos princípios individualistas e consumistas do capitalismo.

Porta-vozes de um elitismo atroz, os líderes do Instituto Millenium, essa versão pós-moderna do complexo IPES/IBAD, pouco se importam, por exemplo, com o fato de que no Brasil haja mais de 14,6 milhões de habitantes não alfabetizados (IBGE, Censo 2010). É preciso abrir os olhos: Cuba possui pouco mais de 11 milhões de habitantes. Isso significa que o Brasil, esse país de cidadãos livres, contém mais do que uma Cuba inteira de analfabetos dentro de si, uma população ofuscada pela euforia consumista dos nossos tempos.

Não se importam, tampouco, com o fato de que o trabalho infantil atinge mais de 3,6 milhões de crianças e adolescentes brasileiros em idade escolar (entre 5 a 17 anos). Que hoje, em pleno século XXI, 50% de população brasileira com mais de 10 anos é considerada sem instrução ou não conseguiu concluir o Ensino Fundamental. Estamos falando de mais de 80 milhões de pessoas, ou ainda, mais de sete vezes a população de Cuba (IBGE, Censo 2010). Diante dos fatos, cabe perguntar: qual liberdade de expressão é possível em um país que não garante a seu povo o direito efetivo ao conhecimento e à informação, naturalizando a existência do analfabetismo em massa?

A armadilha retórica da “liberdade de expressão”, tecida pelos adoradores do mercado, precisa ser urgentemente desfeita. Infelizmente, a aquecida troca de insultos de parte a parte ocasionada pela visita de Yoani Sanchez ao Brasil não pôs em relevo aquilo que é fundamental. Primeiro, que qualquer liberdade é limitada e excludente quando não há um patamar mínimo de igualdade social. Segundo, que a democracia brasileira, enquanto estiver refém do financiamento privado, não pode ser a garantia de liberdade de expressão, enquanto os condicionantes materiais dessa liberdade permanecem sob o controle de uma casta de privilegiados. Terceiro, que o capitalismo latino-americano, em todas as suas fórmulas e regimes, se mostrou incapaz de romper com a lógica da segregação social. Cuba foi, neste sentido, o único país capaz de construir de uma sociedade igualitária.

Em Cuba, poucas necessidades básicas dos cidadãos dependem exclusivamente do poder de compra. Como resultado da escassez de divisas decorrente do bloqueio econômico dos Estados Unidos erguido em 1960, surgiu em Cuba um princípio de distribuição do excedente completamente distinto do modelo segregacionista latino-americano. Trata-se do princípio da “remuneração coletiva do trabalho”: os salários se reduziram ao mínimo, enquanto o Estado garantiu a todos, igualitariamente, as suas necessidades básicas. O poder de compra individual foi limitado e convertido em desenvolvimento social. Foi assim que muitos cubanos, incluindo a maioria dos trabalhadores rurais, passaram a se alimentar melhor do que antes da revolução. Com a queda da União Soviética, o sistema atravessou um período de austeridade, o “período especial”, que foi aliviado com a eleição de Hugo Chávez na Venezuela em 1998.

Imagino que Yoani Sanchez compreenda a importância histórica de superar a segregação social numa região como a América Latina. Ao superá-la, o governo cubano cometeu diversos erros: perseguiu os homossexuais, afastou intelectuais críticos, censurou escritores, criou um enorme sistema de vigilância política enraizado nos Comitês de Defesa da Revolução, que intimidam a cidadania a manifestar suas críticas. Entretanto, apesar destes defeitos nada desprezíveis, Cuba continua sendo a única experiência latino-americana de superação do modelo segregacionista.

No limiar dessa contradição, a esquerda latino-americana tem o dever de aprender com os erros do socialismo real, seja em Cuba, seja em qualquer outra parte. Se o igualitarismo é condição imprescindível para a realização das liberdades humanas, é também insuficiente. Quando enganchado em dogmas e intolerância política, pode resultar em uma explosiva equação de violência, cujas vítimas foram, incontáveis vezes, aliadas do próprio igualitarismo. Sobre isso, é a esquerda que deve se responsabilizar e produzir sua autocrítica. A equação justa entre igualdade e liberdade é sua tarefa do futuro.

Em tempo: que os próceres da mídia que ciceroneiam Yoani tenham a bondade de levá-la a um hospital público sem máquina de raio X ou a uma escola sem biblioteca. Talvez assim, conhecendo um pouco mais o Brasil, Yoani possa conter seu inocente deslumbramento com o capitalismo subdesenvolvido.

Joana Salém Vasconcelos faz Mestrado em Desenvolvimento Econômico na UNICAMP sobre história econômica cubana.

8 comentários em “Internet rápida e 14 milhões de analfabetos

  1. Esta postagem revela muita coisa interessante de abordar. Mas, por ora me importa questionar: sim, mas por que mesmo os hidrófobos não deixaram a blogueira cubana cumprir livremente, como ela tinha direito, a sua agenda no Brasil??? Ali só faltou um sinalizador, pois de resto era uma autêntica remoçada, terror bicolor, independente, Mancha verde (e amarela), gaviões etc.

    A verdade é que a repressão cubana se estendeu até o Brasil. E não foi a primeira vez… A blogueira deveria mesmo ir aos hospitais, às cracolândias, às delegacias de polícia, às comunidades etc, etc, etc. Todavia, não se pode negar que a blogueira tenha ao menos conhecido uma parte dos doentes, dos drogados e dos criminosos do Brasil, entre estes, inclusive aqueles que detêm mandato.

    No mais, o que se percebe é a intenção de alguns em monopolizar o direito de falar sobre a situação de Cuba.

  2. Esquerda raivosa do Brasil, em breve voces não poderam mais usar Cuba como um exemplo a ser seguido, Cuba esta se abrindo para o mundo desde a saida do poder do cumpanheiro Fidel…Depois que os cubanos sentirem o gosto da liberdade, nunca mais vão querer saber da ditadura Castrista…Só vai restar pra voces como referencia, a Coréia do Norte…O mundo esta ficando cada vez menor pra quem é comuna juramentado…Né Gerson?

  3. Os exageros na visita da cubana vieram de todos os lados,os protestos no aeroporto e nos lugares públicos por ela passou na minha opinião foram normais e democráticos,todos tem o direito de se expressar desde que sem violência.O absurdo foi o que aconteceu na livraria cultura onde a mesma foi impedida de falar e de lançar seu livro e a manifestação em Salvador que impediu de que o documentário sobre ela fosse exibido,ai sim faltou respeito e violação da liberdade de expressão.Foi exagero e provocação também a ida dela ao congresso levada por deputados oposicionistas,não havia necessidade daquele show.Louve-se a postura do senador Eduardo Suplicy que esteve ao lado dela e foi contra o manifesto que proibiu a exibição do filme.

  4. Falar de Cuba?

    Só após o fim do embargo! Fora isso, é especulação!

    Motivo: Os cidadão dever poder escolher, senão, não tem como ser imparcial.

    Aliás, nada nessa vida é imparcial, até tentam, mas não conseguem!

  5. Umas das discussões que devem ser levantadas é sobre o que representa a figura de Yoani Sánches. Muito se abordou as manifestações até irascíveis contra a blogueira, mas o que ela representa de fato? O que ela defende? O que ela escreve, qual a natureza dos conteúdos do seu blog? Deixando de lado as manifestações hostis de um seguimento da militância das esquerdas (os quais chamo de “militontos”) que tem no seu interior pré-projetos de ditadores e excetuando-se também a presença de Suplicy e sua louvável urbanidade em acompanhar a blogueira, mas que considero ser um político filiado a um partido que hoje não está assim tão identificado com as demandas históricas por justiça, terra, igualdade e inclusão social e econômica em nosso país, a discussão deve centrar-se nas apropriações indevidas que estão sendo feitas da figura da simplória cubana. Afinal, se a esquerda não sabe de nada do que ela escreve, posta ou fala, a direita pega carona no oportunismo e talvez saiba menos ainda. Assim como é equivocado lançar sobre ela a pecha de “entreguista”, “traidora do povo cubano”, “lacaia, cadela ianque” ou coisa que o valha, também é equivocado considerá-la “um bastião das liberdades políticas e civis” ou uma representante do “progressismo genuíno” haja vista que tais atribuições estão sendo conferidas a ela por aqueles que estão lhe dando guarida em sua estadia no país e que jamais foram identificados com as causas progressistas e populares ou com a defesa da democracia, mesmo a de caráter liberal (grupo Folha-Estadão, Veja, Rede Globo, o binômio PSDB-DEM e quejandos). Muito embora as hostilidades contra a cubana tenham chegado às raias do absurdo e da descortesia, para dizer o mínimo, ela foi de uma lucidez tremenda ao afirmar que em sua ilha não se tem nem o direito a manifestações de caráter grosseiro como as que ela mesmo tem presenciado em sua estada no Brasil. Ela de repente pode até considerar-se uma progressista ou defensora das liberdades democráticas pois não concorda com a limitação das mesmas por um regime ditatorial e anacrônico como o cubano, mas a direita bovina de nosso país usá-la como a Virgem de Nazaré, trasladando-a em uma berlinda… pera lá… é no mínimo achincalhe! Aí se deve fazer a seguinte pergunta: e em nosso país, vivemos numa democracia de fato? Lá (em Cuba) não seria como cá?

  6. O extremismo político, seja ele de esquerda ou de direita, é sempre muito perigoso. No entanto, ser de centro sem qualquer ideologia, e que na verdade significa não ser nada para poder ser tudo, como são a maioria dos partidos políticos brasileiros, é ainda pior.

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