Meus filhos, meus bens

Por Rosely Sayão

Uma leitora me contou que tem o hábito de assistir a novelas, mesmo sem gostar muito, porque as considera um passatempo bom para relaxar do estresse do trabalho. Depois de jantar com o filho de seis anos e colocá-lo para dormir, essa mãe tem o costume de sentar-se em frente à TV e acompanhar o desenrolar das tramas da novela das nove. As cenas da ficção que a afetaram violentamente foram as relacionadas à história de um casal recém-separado que briga pela guarda da filha.

O que deixou nossa leitora muito perturbada foi ter se dado conta de que ela mesma tem vivido essa história e ainda não havia percebido: só percebeu depois de se envolver e de se identificar com os personagens. Essa mulher separou-se recentemente do pai de seu filho e, desde o rompimento do casamento, está enfrentando uma situação muito semelhante à que viu na novela. Ela e o pai do menino têm brigado, inclusive na Justiça, para obter a guarda do menino e, ao mesmo tempo, impedir que o outro desfrute da companhia da criança.

O que ela não havia pensado até então, e foi ao assistir a algumas cenas da novela é que passou a refletir a respeito, é que tudo o que tem feito pode estar prejudicando o seu filho. E é esse o tema de nossa conversa de hoje.

Casamentos, divórcios e recasamentos são acontecimentos cada vez mais comuns no tempo em que vivemos. No século 21, esses fatos não causam espanto. As novas famílias resultantes dessas uniões e desuniões fazem parte do nosso cotidiano.

Mas há ainda um número muito grande de ex-casais que, à semelhança de nossa leitora e dos personagens da novela, ainda usam o filho como um instrumento para atingir o ex-parceiro. Por que será que isso ocorre? Talvez o fato de o filho, hoje, ser considerado um bem leve o ex-casal a disputar a posse dele. Crianças e adolescentes passam, então, a ocupar o mesmo lugar que as coisas materiais ocupam após a dissolução conturbada de um casamento.

Longas batalhas judiciais são travadas para que cada uma das partes sinta que não saiu perdendo muito após o rompimento, não é verdade? Mas os filhos sofrem com isso porque, primeiramente, nada podem fazer para sair da situação criada por seus pais. E quando tal situação ocorre, certamente eles é que saem perdendo.

Eles perdem a confiança em um dos pais ou em ambos e perdem também a segurança e a proteção de que tanto precisam. Os filhos são levados a assumir a defesa de um dos lados e perdem, principalmente, um direito que ninguém deveria poder tirar deles: o de crescer em companhia de seus pais, mesmo que eles não estejam mais juntos.

Quem tem filhos precisa saber que assumiu um compromisso para o resto da vida. Seu casamento pode terminar, mas o vínculo com a mãe ou o pai de seus filhos não deveria terminar nunca. Além disso, é importante lembrar, também, que um filho não é um bem sobre o qual se pode obter a posse.

Parece que as crianças que nascem no mundo da diversidade têm se adaptado muito bem às mudanças pelas quais a família vem passando. Mas assistir aos pais brigando pela sua guarda não pode fazer bem a elas. Os mais novos precisam de nossos cuidados e, para honrar esse compromisso assumido, os pais precisam, de qualquer maneira, agir com maturidade.

4 comentários em “Meus filhos, meus bens

  1. Gerson, posso falar de camarote. Minha ex levou nossos filhos, então com 9 e 2 anos, pra MG e na emoção do momento dizia que iria fazê-los esquecer de mim. Bobagem. Pai que não abandona os filhos jamais os perde. Até quando adulto o homem, não por acaso, quer conhecer e ser aceito pelo pai ou mãe. Hoje tudo está na paz e meu comportamento na ocasião gerou o retorno esperado. Minha filha menor cresce muito bem, sem qualquer tipo de problemas. No nosso caso, essa novela serviu até pra mostrar a ela o quanto eu e sua mãe nos respeitamos, a ponto de ela mesma comentar ser feliz por isso. Essa é a mensagem. Tentar não separar, mas se inevitável, pensar nos filhos, que podem sofrer consequencias duradouras.

  2. Isso mesmo, Maurício, mas o que vemos por ai é o uso dos filhos como instrumento de medição de força entre os casais beligerantes. Como bem aborda a articulista, os filhos não são propriedade dos pais. Nossa responsabilidade sobre eles vai muito mais além do que a guarda. A palavra chave é AMOR. Se ela delinear as ações, como no seu caso, haveria bem menos processos judiciais e menos trabalhos aos psicólogos.

    abs

  3. Jorge Alves, você e o Maurício têm toda a razão. A propósito, bem ao encontro do que você diz quanto ao nossos filhos não serem nossa propriedade, olhe este texto atribuído a Khalil Gibran:

    “Vossos filhos não são vossos filhos.
    São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
    Vêm através de vós, mas não de vós.
    E embora vivam convosco, não vos pertencem.
    Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
    Porque eles têm seus próprios pensamentos.
    Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
    Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
    Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
    Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
    Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
    Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
    O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
    Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
    Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:
    Pois assim como ele ama a flecha que voa,
    Ama também o arco que permanece estável”.

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