A máfia não poupa ninguém

Por Gerson Nogueira

bol_qua_060213_11.psPelo volume de dinheiro envolvido, o futebol virou um dos negócios mais lucrativos desses novos tempos. Por isso, atrai todo tipo de aventureiro e investidor. Em meio a isso, estão os picaretas das mais diferentes tonalidades e sotaques. O escândalo revelado anteontem pela Europol dá bem a medida desse estado de coisas, com um total 680 jogos sob investigação policial rigorosa.

Por ora, não se sabe que jogos são esses. Podem envolver seleções ou apenas clubes. O certo é que 380 são de competições europeias de todas as divisões, incluindo até eliminatórias para a Copa do Mundo nos últimos quatro anos. Outras 300 partidas realizadas no resto do mundo estão na lista da Europol, o que envolve a América do Sul e o Brasil.

O avanço das mídias digitais acabou por favorecer a ação das máfias de apostas no mundo todo, proliferando seus tentáculos pelos continentes. Um jogo inexpressivo da Segundinha Paraense ou do Campeonato Maranhense poderia, por exemplo, ser alvo dos mafiosos.

Na Europa, as apostas são legalizadas e movimentam milhões de euros. Existem casas de jogo em cada esquina, onde os apostadores podem escolher as mais diferentes (e bizarras) maneiras de fazer uma fezinha, desde o autor de determinado gol ou do zagueiro que comete um pênalti.

Grande parte dos jogos manipulados na Itália e Alemanha pertence a divisões menores, ao contrário do esquema desbaratado pela Polícia Federal em 2005, que levou à prisão e posterior exclusão do árbitro Edilson Pereira de Carvalho.

No Brasil, a preferência da bandidagem se concentrava em jogos de Primeira Divisão. Há, porém, uma semelhança no modus operandi dos criminosos: mais do que investir em zebras, eles jogam pesado em resultados exagerados.

Times de menor expressão, que normalmente seriam derrotados, são manipulados para sofrerem goleadas – o que facilita o trabalho dos corruptores, pois a armação não desperta a mesma desconfiança provocada por escores inesperados, como de um grande sendo vencido por um azarão. Em tese, ficaria também mais fácil corromper atletas para escancarem uma porteira já aberta.

Os policiais europeus descobriram também alguns macetes. Elas preferem agir em cima das fases iniciais e finais das competições, quando não há maior pressão quanto a resultados que envolvem times de pouca expressão. Outro ponto importante é o alvo das tentativas de suborno.

As máfias atuam fortemente sobre jogadores e técnicos em fim de carreira. A proximidade da aposentadoria tornaria essas pessoas bem mais vulneráveis a eventuais ofertas em dinheiro. Os agentes da corrupção vasculham a vida dos atletas e técnicos, procurando maneiras de chantageá-los para forçar a aceitação de propostas espúrias.

Quando se observa o gigantismo das redes de manipulação soa até inocente a lembrança de arranjos marotos que ocorriam no Brasil e no Pará. Tempos de árbitros e bandeirinhas “comprados” sem que soubessem do esquema. Jogos que tinham atletas aliciados nos dois times, criando uma confusão dos diabos e levando a um indesejado (para os espertalhões) empate.

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Um técnico em ascensão

Depois de abater a Tuna por 3 a 0 e empatar com Paissandu e Remo em Belém, o São Francisco passa a ser olhado com mais atenção – e respeito.  Entre os motivos da boa campanha do Leão Azul santareno, há o fator entrosamento, pois a maioria dos jogadores já estava na equipe em 2012. Alguns talentos, como Caçula e Jader, também explicam o êxito do time. Cabe também reconhecer os méritos do técnico Osvaldo Monte Alegre, cujo desempenho no time é expressivo.

Discreto e aplicado, o treinador mantém um esquema ofensivo, que faz com que o S. Francisco encare seus adversários com altivez. Ataca sempre, não desiste nunca de buscar o gol. Contra o Remo, foi cirúrgico na exploração dos pontos fracos do time de  Flávio Araújo, principalmente a fragilidade dos laterais e a lentidão dos zagueiros. Ninguém havia feito isso antes.

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Motivação em dose cavalar

De olho na repercussão de seus gritos e palavrões junto à torcida, o técnico Osvaldo Oliveira, do Botafogo, autorizou a publicação de um polêmico vídeo motivacional, gravado por ocasião do recente clássico com o Fluminense. O vídeo foi recebido com espanto por todos que viam Oliveira como um profissional centrado e sereno, quase zen.

Aí é que reside o busílis da questão: Osvaldo, sob bombardeio de críticas da torcida botafoguense desde o ano passado, parece disposto a mudar esse perfil, mostrando que pode ser enérgico e vibrante. O problema é que exagerou na dose, passou do ponto.

Além de incitar os jogadores a reagirem a qualquer entrada dos adversários, o súbito acesso de ira motivou o zagueiro Bolívar, que tem um passado de violência em campo, a aconselhar os colegas a “deixar cicatrizes” nos atletas do Flu.

Ora, por mais que se saiba que preleções de vestiário às vezes descambam para bravatas e fanfarronices de toda espécie, o vídeo não deveria ter sido veiculado. Tornado público, ganha ares de intenção deliberada. Como se, de repente, o Botafogo tenha se tornado um time brucutu, o que evidentemente não é.

Por isso mesmo, a fuga de ideia tem tudo para se tornar um fardo negativo, pois a partir de agora a arbitragem tende a ser mais rigorosa com os botafoguenses. Na dúvida, diante de lance mais ríspido, vai prevalecer a lembrança do tal vídeo. Para os propósitos de Osvaldinho da Cuíca a repercussão pode ter agradado, mas desconfio que o Botafogo ainda vai pagar caro pelo marketing de pé quebrado.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quarta-feira, 06)

4 comentários em “A máfia não poupa ninguém

  1. Verdade, amigo Gerson, Osvaldo Monte Alegre é um técnico em Ascensão, falo isso, desde o ano passado. Aliás, falava aqui que não entendia o porque dele estar desempregado, quando saiu desse mesmo SF, por não aceitar interferência de diretores em seu trabalho. Eu que já admirava os técnicos locais, João Galvão e Arthur Oliveira, passo a incluir em minha relação de bons técnicos locais, esse técnico do SF.

    – Técnico bom, você vê nos jogos e não no blá blá blá, no lari lari… é dentro de campo que se percebe um time bem treinado, bem distribuído em campo,.. Nota 10 ao Osvaldo Monte Alegre, espero que outros técnicos locais apareçam, para o bem do futebol Paraense.

    – Osvaldo Monte Alegre e o Flávio Araújo, dão aula de como se montar bons times, partindo do zero, praticamente, com uma folha salarial baixa.. Um bom técnico, é tudo, amigos.

    Obs: Nenhum deles serve para Remo e Paysandu… Quem sabe um dia, quando rodarem mais, mas hoje, melhor deixar eles por lá.

    – Amigos Harold e Von – Pensem no Osvaldo Monte Alegre, para soerguer a nossa gloriosa Cruz de Malta, em 2014… Os contatos devem começar, já esse ano…

    É a minha opinião.

  2. Gerson, onde há dinheiro (muito dinheiro) circulando, pode crer, há maneiras de se cometerem fraudes. Em todo lugar, até nas igrejas, até mesmo no Vaticano.
    A questão do Osvaldão (a quem eu não contrataria para o meu time) me parece a anedota do português que urinava em público: a emenda fica pior que o soneto, como soem dizer os comentaristas de futebol.

  3. Boa tarde Gerson Nogueira e Amigos do Blog;
    Ainda ontem postei a respeito do Técnico Osvaldo Monte Alegre, entendendo da mesma forma que o nobre escriba Baionense, com a maestria peculiar, expõe; que bom que estou enxergando pelo mesmo prisma de celebridades e estrategistas da crônica esportiva Nortista.
    Concordo com a pontuação do Cláudio Santos, no entanto Cláudio, entendo que prá engrossar o casco, o melhor local é aqui mesmo, técnico quando é bom, o é em qualquer local, faltando-lhe talvez, a oportunidade, para deslanchar, também o recomendo, inclusive, para o meu Grande Bicolor Amazônico, em qualquer tempo.
    Que bola furada essa do PFC, trocar de técnico neste momento da competição, quando estava com a vaga quase garantida para o quadrangular final da Taça Cidade de Belém, corre o sério risco de ficar de fora.

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