Por Mauro Cezar Pereira
Na segunda-feira, no Linha de Passe da ESPN debatemos sobre a pesquisa Datafolha, que apresentou Flamengo e Corinthians com praticamente o mesmo número de torcedores. Estranhamente o mesmo instituto, há três anos, apontava uma diferença de 6 pontos percentuais (19% a 13%). E foi o estudo da semana passada que assustou a muitos com o empate em 1% entre as torcidas de Fluminense e Portuguesa de Desportos!
A população do Brasil, segundo o Censo, em 2010, era de 190.732.694. Como a pesquisa de 2009 foi realizada no final daquele ano, utilizemos 190 milhões como número base. Por ela, eram 23% dos habitantes de nosso país sem time, ou seja, aproximadamente 43.700.000 que simplesmente não torciam. Seriam 146.300.000 de torcedores e se 19% apoiavam o clube carioca, o Datafolha então apontava o Flamengo com 27.797.000 de adeptos. O Corinthians, com 13%, teria 19.019.000.
Claro que são números aproximados, mas a diferença há 36 meses era de 8.778.000 torcedores ou algo não muito distante disso. Como tamanha vantagem rubro-negra em tal ranking do mesmo instituto desapareceu em tão pouco tempo? Importante: desde então a população brasileira cresceu em pouco menos de 6 milhões de habitantes. No dia da chegada do Corinthians ao Brasil trazendo na bagagem a taça de campeão mundial eram 196.655.014.
É, parece que o conceituado Datafolha errou em algo. Depois veio uma explicação um pouco mais detalhada, mas ainda assim nada convincente. A liderança ainda seria rubro-negra, mas a diferença entre os dois mais populares times do país teria caído para menos de 1 ponto percentual. E em apenas três anos! Não custa lembrar, era de seis pontos!!! Milhões de fãs simplesmente sumiram?
O instituto deveria revelar quais as 160 cidades pesquisadas e quantas pessoas foram ouvidas em cada uma delas. Sem essa informação não vejo como levar tal resultado a sério, pela diferença abissal em relação aos estudos anteriores, do Datafolha e de seus concorrentes. E talvez o eventual anúncio dos municípios pesquisados torne o resultado ainda menos crível. E o assunto é relevante, pois pesquisas assim podem valorizar ou desvalorizar clubes que tentam obter patrocínios e fechar novos negócios para 2013.
Aliás, a pesquisa em sua nova apresentação, com mais uma casa decimal, mostrou a Portuguesa com 0,51% (acima dos 730 mil torcedores). Mais do que Sport, Náutico, Goiás, Ceará, Fortaleza, Coritiba, Atlético Paranaense, Santa Cruz, Paysandu, Remo, Sampaio Correa, Vila Nova, Criciúma. Avaí, Figueirense… Vários clubes com legiões de torcedores que enchem seus estádios mas sequer aparecem no estudo em sua versão mais detalhada — clique
aqui e veja.
Como crer cegamente que esse resultado traduza a realidade nacional? Mais parece um “retrato” de um pedaço do país. Talvez ele seja aceito por aqueles que rotulam o nordestino torcedor de um time carioca como alguém que tem na equipe do Rio um “segundo amor”. Em geral eles são os mesmos que definem os corintianos paranaenses como tão fiéis quanto os paulistas. Algo como uma interpretação conveniente. O mesmo vale para a conclusão de que uma torcida crescerá por causa de conquistas enquanto as outras encolherão. Mas a “Fiel” não encolheu durante o jejum de 23 anos sem título. Coisa mais patética! Futebol é paixão e não tem apenas uma camisa, ou duas cores.
Em São Paulo muitos não engolem o fato de o time mais popular do Brasil não ser paulista, apesar do vigor econômico do Estado. Não por acaso teve enorme repercussão na mídia paulista uma declaração nada científica de um dirigente do São Paulo quando o time ganhou o terceiro campeonato nacional consecutivo, em 2008. O cartola acariciou sua bola de cristal e cravou: em 10 anos o tricolor do Morumbi teria a maior torcida do país. Poucas vezes uma bravata foi tão destacada pela imprensa como naquela ocasião.
Pessoas assim também tentam convencer os mais ingênuos que apenas os apaixonados por determinado times são realmente apaixonados. Como se não bastasse o papo do monopólio do sofrimento, que por sinal há tempos é muito mais verde e branco do que alvinegro. A presença da Portuguesa na lista, à frente de tantos clubes populares em suas respectivas regiões, dá a forte sensação de que as “misteriosas” cidades pesquisadas foram, em grande parte, paulistas e/ou que têm forte influência do futebol de São Paulo, como as do norte do Paraná.
E existem mais pontos para você ler, parar, pensar, acreditar, duvidar… A torcida do Cruzeiro aparece quase 60% maior do que a do Atlético Mineiro e a do Grêmio 50% superior à do Internacional. Os santistas (com 6% da preferência na cidade de São Paulo segundo o Datafolha revelou em outra pesquisa de 2012) desta vez são praticamente tantos quanto os seguidores de Botafogo e Fluminense juntos. Efeito Neymar? Como apenas pessoas com pelo menos 16 anos foram ouvidas, difícil crer que esses já eleitores tenham virado casaca por causa do jovem craque. Pois é…
Curtir isso:
Curtir Carregando…
Deixe uma resposta