Por Gerson Nogueira
Foi um empate com o indisfarçável sabor de derrota. Na ponta do lápis, o resultado foi até interessante, mas as circunstâncias inesperadas do final da partida frustraram o torcedor. Quando o Paissandu chegou aos 3 a 1, depois arrancada de Régis, aos 32 minutos do segundo tempo, havia quase certeza de vitória. Como não acreditar? Afinal, o time tocava bem a bola e, fechadinho em seu campo, dava botes certeiros. Mais que isso: a defesa do Santa Cruz pedia, quase implorava, para tomar mais gols.
O problema é que a jogada de contra-ataque não se repetiu com a mesma eficiência. Havia um especialista no banco, Héliton, à espera da chance. Seria praticamente impossível a defesa pernambucana resistir à velocidade do jovem atacante, ainda mais jogando em linha e com apenas dois zagueiros lentos guarnecendo posição.
Roberval Davino optou por tirar Kiros, cansado, e lançar Rafael Oliveira – aliás, quando o atacante vai finalmente viajar para a Ucrânia? Sem mobilidade, Rafael não acrescentou força ou fôlego ao ataque do Paissandu. E ainda recuou para ajudar na marcação.
Davino, que depois da partida, apontou a desatenção como principal causa do prejuízo, custou a substituir Vanderson por Neto e ainda perdeu uma substituição de linha com a contusão de Paulo Rafael. Nada, porém, justifica o apagão que se abateu sobre o setor defensivo do Papão entre o 39º e o 45º minuto. Dois escanteios, dois gols. E é justo dizer que no segundo tempo a defesa vinha se comportando bem, com três zagueiros atentos e mais dois cães de guarda à frente.
O súbito empate, que não constava mais dos planos de nenhum bicolor, deixou a certeza de que o time desperdiçou uma excepcional oportunidade de derrotar o Santa Cruz em seus domínios. A torcida coral já estava deixando o estádio e o próprio time tricolor parecia abatido. Por isso, com 3 a 1 no placar, só falhas pontuais e algum descontrole emocional justificam a reação adversária.
É preciso reconhecer que o Paissandu fez um bom jogo, se comparado com o de segunda-feira no Mangueirão, quando se mostrou incapaz de se impor à marcação do Fortaleza. Caso mantenha a troca de passes como principal estratégia de organização no meio-de-campo, tem imensas chances de sucesso na competição. É preciso, porém, ajustar a cobertura defensiva e tirar o ataque do isolamento, fator que torna o centroavante Kiros (ou qualquer outro) improdutivo.
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Nem só de chateação viveu o Paissandu no Recife. O dado mais positivo do empate de sexta-feira foi o renascimento de Robinho, meia que há tempos não dava o ar da graça na equipe. Depois de barrar Harisson, Davino fez a aposta certa. Robinho jogou com o desembaraço dos tempos de Cametá. A segunda grande notícia foi a reaparição de Tiago Potiguar, rápido e habilidoso como ainda não havia sido sob o comando do novo técnico.
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O futebol é (ou devia ser), acima de tudo, diversão. Apesar da consciência crítica sobre tudo o que rola no mercado da bola, gosto do exercício escapista de pensar que um jogo vale apenas pelo que se vê ali em campo. Jogadores, técnicos, preparadores, árbitros e a torcida. De vez em quando, faz bem se agarrar na utopia de que tudo pode começar e acabar no espaço daqueles 90 minutos.
Penso nisso ao observar toda a expectativa criada em torno da seleção olímpica de futebol. O filme se repete de quatro em quatro anos. O tabu em torno da medalha de ouro volta com toda força e junto vem a ideia de que o futebol pode ser um esporte ainda puro, livre das mazelas e sujeiras.
As esperanças depositadas em Neymar, Ganso, Oscar, Lucas & cia. revelam o anseio não revelado de que os garotos conduzam o país da bola à redenção e resgatem o encanto perdido. Não é um bicho de sete cabeças. O torneio olímpico nunca esteve tão favorável às pretensões brasileiras.
A rigor, somente a Espanha representa perigo real na luta pelo ouro. A sempre ameaçadora Argentina não se classificou para o torneio. A anfitriã Inglaterra, derrotada em amistoso na sexta-feira, tem um time olímpico à imagem e semelhança da seleção principal: confuso e inseguro.
Com um mínimo de entrosamento e alguma dose de inspiração, Neymar e seus companheiros têm condições de quebrar a velha escrita. A conquista do ouro pode vir a ser a alavanca para resolver a outra obsessão nacional: a conquista da Copa do Mundo em casa, exorcizando fantasmas que habitam nossos armários desde 1950.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 22)
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