Um retrocesso disfarçado de solução

Por José Augusto Padilha

O uso da retranca pelo último vencedor da Libertadores abre uma pensata sobre o atual estado do futebol brasileiro, que amarga o pior ranqueamento de sua história e assiste a Espanha roubar sua prerrogativa – o toque de bola.

Depois de ficar rouco ao comemorar finalmente a remoção da espinha de peixe futebolística da goela do meu Timão, comecei a pensar no significado da conquista da Libertadores para o meu time e como extensão, do momento que o nosso futebol atravessa. Depois dos deslumbrados de plantão e a mídia (que cobriu um evento como uma Copa de Mundo) apontarem o Corinthians como um monstro sagrado imbatível, é hora de pesar as coisas como elas são.

Amo meu time, sou corinthiano, maloqueiro e sofredor até o fim, mas não sou cego. Vale dizer que o Corinthians não é unanimidade entre sua torcida, pelo menos a que enxerga além das goleadas de 1×0. Sim, é um time excessivamente defensivo, que aposta no contragolpe e nos erros do adversário. Sim, ele carece de atacantes de peso (sem trocadilhos com Ronaldo e Adriano, por favor), pois não tem força ofensiva. Em contrapartida, faz uma marcação sob pressão implacável por vezes e tem um aspecto que considero importante: a frieza e a qualidade de saber cadenciar o jogo até dar o bote. Que, no caso, pode ser uma brecha do adversário, por conta da falta de atacantes muito incisivos.

Mas ora veja que, nos últimos tempos, o que era um problema se torna, por conta do discurso jornalístico bem esperto,  qualidade. “Um time bem montado”, “Defesa impenetrável”, “Volume consistente de jogo”, entre outros adjetivos, sem mencionar a já imortal “Jogabilidade”.  É importante frisar que dá para contar mentiras apenas citando verdades e vender o Corinthians como o suprassumo do futebol atual dá uma mostra da pobreza tática que vivemos. Meu amado time joga feio, por opção de técnico, abraçada por jogadores e endossada pela diretoria e reverenciada pela torcida, encantada pelas magras mas constantes vitórias do time titular.

Um pequeno parêntesis: talvez o que encante a massa corinthiana também seja o fato de ser um time vencedor sem craques, onde a solidariedade supre a carência de grande habilidade. Pode ser que um time esforçado gere identificação com parte da torcida, habituada desde muitos anos a acreditar que raça e garra são sinônimos de bom futebol. Não o são necessariamente; basta olhar momentos em que zagueiros alvinegros, ao porem a bola para fora, praticamente a enviam para a tribuna da imprensa, para delírio de parte da torcida. “Futebol é pra macho”, vão dizer alguns.

Esse time corre o risco de disputar, se tiver competência, a final do Mundial Interclubes em dezembro com outro campeão da retranca ou, em tempos de eufemismos, do “sólido jogo defensivo”. O problema é que o treinador do Chelsea é um ex-zagueiro italiano, ou seja, um especialista em ferrolhos, cadeados, fossos e muros. Ou seja, uma autoridade em não atacar, apenas se defender e esperar a oportunidade para dar o bote. Parece o Corinthians? Parece, mas tem diferenças chamadas Ramires, Fernando Torres e Drogba (tinha), gente que desequilibra de verdade. O que fará um time mediano numa final desta? Sinceramente, espero que não um papelão.

Vale lembrar que a final passada não foi um vexame fundamental do Santos: foi a confrontação do futebol ofensivo total do Barcelona, que aliou o estilo holandês com a posse de bola, com a leveza do Santos, que teve a ingenuidade de apenas jogar ofensivamente sem marcas. Assistiu a uma aula de um Barcelona inspirado e sem posições fixas: quase sete jogadores atuando como meias e um meia chamado Messi, que está a um passo de se tornar um dos verdadeiramente grandes. Falta-lhe a conquista de uma Copa.

E aí chegamos ao terreno temido, o status quo de nosso futebol. A vitória do Corinthians na Libertadores, o reinado de Mano Menezes na Seleção Brasileira (por um fio, a se julgar pelos Jogos Olímpicos) e o imenso prestígio de que goza Muricy Ramalho são emblemáticos da crise de identidade que nos assola. Estamos optando por um estilo pragmático e vencedor, que a longo prazo, está dilapidando uma pedra angular de nossa escola futebolística – a ofensividade, calcada no toque de bola.

Muricy transformou o São Paulo num time de classe mundial – jogando compactamente e feio. Quase levou o Santos pelo mesmo caminho, mas um time que possui Neymar e Ganso, quando em momentos felizes e sincrônicos, não se dá ao luxo de recolher-se, apenas atacar e atacar. Mano Menezes semeou no Corinthians a ideia de uma defesa sólida, no que foi sucedido por Tite, que a radicalizou e transformou o time em uma máquina de pouco levar gols – e pouco fazê-los, em contrapartida.

Há antecessores? Sim, Dunga, que tem altos e baixos em seu futebol inegavelmente vitorioso  – e indubitavelmente defensivo – até o fiasco na África do Sul, que tornou a Seleção principal um bloco compacto que sabia contra-atacar. Talvez o último momento verdadeiro de futebol de nossa canarinha sejam os 4×1 aplicados na Argentina, na Copa das Confederações de 2005, onde, sem abrir mão de marcação e ataque, fizemos um jogo de futebol de verdade. Desde então, lampejos.

O problema também reside nisso: a falta de planejamento, uma política de continuidade e um grupo que atue junto. Barcelona hoje e a seleção são o que são porque jogam juntos há anos, o que aumenta a cumplicidade e o entendimento entre seus jogadores sobre como e onde a pelota deve rolar. As categorias de bases do Barcelona, onde o estilo de jogo ensinado é o mesmo do time principal, dão a receita para o sucesso. O problema deste bolo é que leva anos para crescer e ser servido a contento, mas os consumidores brasileiros preferem comê-lo cru.

Parêntesis para o Corinthians: um aspecto positivo de sua vitória e um ensinamento básico para outros elencos é o alto entrosamento e solidariedade entre jogadores que treinam conjuntamente há pelo menos dois anos (e há mais de um ano e meio sob a mesma direção).

O que esperar, em outro nível, de uma Seleção Brasileira que não tem uma base definida que não tem um estilo, muito menos um grupo que se conhece há mais tempo? Sem tarimba, derrotas e ajustes, estaremos sujeitos novamente a ver uma equipe desorganizada, quando muito dependente de um ou outro craque – caso este se mostrar inspirado.

Dessa forma, o que deve se apresentar num horizonte de dois anos, salvo enorme engano, é a decepção. Dolorosa, mas extremamente didática se bem aproveitada. Fato no mundo dos esportes coletivos: uma grande derrocada significa uma lição a ser aprendida e, se consolidada, é a base de conquistas futuras. A tragédia de 1950 ajudou a forjar uma geração extraordinária em 1958; o fiasco de 1966, quando todos esperavam que o Brasil comesse a bola, gerou desconfiança numa seleção onde atletas viajaram desacreditados, gente do quilate de Tostão, Jairzinho, Pelé, Carlos Alberto Torres, Clodoaldo e Gerson. O resto é história.

Para fazer um contraponto, o Corinthians de hoje deve parte de seu crédito a dois fiascos pavorosos: a queda para a série B, em 2008, e a infame eliminação perante o Tolima, vergonhosamente barrado às portas da Libertadores de 2011. Mas lições aprendidas forjaram um novo time, que venceu um Paulista, uma Copa do Brasil, um Brasileirão e uma Copa Libertadores. Infelizmente, há que se reconhecer, jogando futebol feio e defensivo nos últimos dois anos.

Aqui o ponto é a provável necessidade de um fracasso monumental do futebol brasileiro por uma simples ausência de projeto de longo prazo. Para simplesmente acordarmos. Porque nosso problema, na minha simples concepção de mundo, está em lidar com um dilema: manter a linha pragmático-defensiva– e ampliar a impressão perante o mundo de que estamos perdendo o bonde da história do futebol; tentar ressuscitar o futebol-arte, esquecendo que vivemos uma seca permanente de craques (hoje consideramos um craque quem dá mais que 20 passes corretos e precisos numa partida); ou considerar a possibilidade de buscar na herança das gerações 70 e 82, aliada à escola holandesa, uma chance de reinventar a história do ludopédio.

Mas, a curto, prazo, quero que meu Coringão seja campeão. É pedir muito, eu sei, mas sou torcedor corinthiano e brasileiro. Pobre de mim. Ou de nós?

(José Augusto Padilha é um jornalista profissional de São Paulo e corintiano desde sempre)

8 comentários em “Um retrocesso disfarçado de solução

  1. Sou adepto do futebol-arte, mas o grande problema do futeebol global é a auscia de craques. Só a Espanha e Barcelona jogam bonito, porque os tem e em reduzida quantidade. A Argentina jo ga feio, mas tem o melhor do mundo. O Coríntians e os outros não tem opcão, são obrigados a jogar no contra-ataque. Se o Santos tivesse a zaga e o meio de campo corintiano seria superior, mas o Neymar está em má fase e o Ganso não tem mais condicões físicas de jogar em alto nível depois das cirurgias, então está difícil alguém jogar bonito. A Holanda ainda tenta, porque é cláusula do contrato do treinador batavo jogar com 3 atacantes – mas não tem craque, apenas bons jogadores – e só – por isso não é páreo para as selecões retranqueiras.

  2. o curintiano ai de cima castigou as teclas e quase me convence de que realmente ele queria passar ao lado das “feiuras” praticadas por seu amado time, mas ao final…acabou passando por cima., quando afirma em estado de gozo que:

    “Mas, a curto, prazo, quero que meu Coringão seja campeão. É pedir muito, eu sei, mas sou torcedor corinthiano e brasileiro. Pobre de mim. Ou de nós?”

    ,Vai prá casa Padilha!

  3. Em se tratando de Corinthians o título é possível neste brasileiro, deixado em 2º plano em priori a libertadoras, conquista maior. Certo é que muitos pontos estão a distância do campeão deste ano da série A e há tempo para uma reviravolta, embora reconheça que o Atlético-MG, Vasco e Fluminense estão com grande vantagens por conta do esclarecido acima. Ontem a chata da lusa atrapalhou e não tivemos a ajuda do apito amigo e zagueiro amigo tão enfatizado pelos antis.

  4. O Atletico Mineiro é até aqui o melhor, com o Fluminense e o Vasco na sua cola, o Corintians começou agora e já mostrou-se capaz de fazer mais de um gol por partida contra o flamengo. Calma gente, deixe acabar as olimpiadas, os times se fortalecerem e depois a gente vê que tem o melhor. Até porque a acomodação dos novos treinadores precisa de um certo tempo para dar resultado.

    1. Camarada Dorivaldo, vi o jogo de ontem entre Atlético e Sport e ainda não me convenço que o Galo vai ter fôlego pra chegar ao título. Grêmio e Fluminense tem elencos superiores e também podem chegar. O Vasco tem o grupo mais entrosado, mas acaba de perder Diego Sousa.

  5. Ei Gerson! O Botafogo também tem chances de chegar e você omitiu isso na postagem acima. Se o Holandês encaixar como uma luva neste time com o bom elenco que tem o alvi-negro, pode ser cotado para levantar a taça. Assim penso.

    1. Amigo Diogo, além de ser suspeito para fazer esse tipo de previsão, tenho minhas dúvidas quanto à competência do Oswaldinho. E ainda não engoli a liberação do ídolo Loco Abreu. O campeonato é meia-boca, vários times têm chances (inclusive o meu amado Botafogo), mas vamos aguardar os acontecimentos.

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