Por Gerson Nogueira
Três clubes podem causar a suspensão do Campeonato Brasileiro da Série C. Eles apelaram à Justiça Comum tentando assegurar presença na competição. Com isso, tudo indica que a semana será dominada pelas batalhas jurídicas e seus possíveis desdobramentos. Como se viu ao longo do cansativo imbróglio envolvendo Remo e Cametá, torcidas, atletas, técnicos e imprensa esportiva terão que ocupar o tempo projetando os mais diversos cenários.
Enquanto isso, advogados tomam o lugar de jogadores e passam a ocupar o noticiário, e tome noticiário sobre leis e estratégias de tribunal. Nada a ver com o verdadeiro futebol, cujas regras são simples justamente para permitir que qualquer pessoa o pratique.
Não é o caso de questionar quem está certo ou errado, mas a contínua utilização de recursos jurídicos estranhos ao universo do futebol para desfazer decisões de campo. Por princípio, sempre fui contra esses estratagemas que contrariam a ordem natural das coisas.
Entendo que vitórias e derrotas devem ficar restritas ao campo de jogo. Os resultados devem valer para todos. Em caso de dúvidas ou questionamentos, o bom senso recomenda que as instâncias da Justiça Desportiva sejam acionadas.
O fato é que as regras do jogo precisam ser respeitadas, sob pena de travamento do futebol profissional no Brasil, como ocorria nas décadas de 70 e 80. É um problema que diz respeito a todos os atores envolvidos com o esporte no país.
A guerra de recursos e liminares desencadeada na Série C interessa aos clubes reclamantes e aos reclamados, mas afeta todos os demais participantes. O Paissandu, por exemplo, vive uma semana de incertezas quanto à estréia na competição. A tabela indica que o jogo será contra o Luverdense, em Belém, domingo.
Caso as arengas judiciais se prolonguem, o Estatuto do Torcedor pode ser descumprido, pois é provável que a data dos jogos seja alterada. Pior ainda é se times começarem a competição e depois, por força de decisão judicial, venham a ser excluídos. Isso ocorreu, aliás, na própria Série C em 2011, quando Rio Branco e Araguaína protagonizaram uma confusão que terminou contribuindo para a eliminação do Paissandu.
Vale dizer que quando o Superior Tribunal de Justiça Desportiva era presidido pelo polêmico Luiz Zveiter, há alguns anos, liminares eram quase sempre ignoradas. Ele se amparava na Lei Pelé e no Estatuto do Torcedor e suas decisões eram soberanas. Para o bem ou para o mal, prevaleciam as medidas adotadas pelo STJD e as coisas eram mais claras.
Com a provável paralisação do campeonato, só uma interferência drástica da Fifa para punir os clubes reclamantes poderia fazer cessar as manobras protelatórias e apelações que, em última análise, conspiram contra o futebol. Alguém precisa botar ordem na casa.
Por um golpe de sorte e talento do defensor, o Paissandu saiu quase ileso de julgamento no STJD. Ameaçado de perder mando de campo, foi punido com multa de R$ 2.400,00. Devia comemorar a sentença. O clube foi responsabilizado por atitude hostil da torcida na partida contra o Coritiba no Mangueirão, válido pela Copa do Brasil.
Torcedores de mente vazia atiraram garrafas, latas e outros objetos em direção aos jogadores paranaenses e ao trio de arbitragem. Pela brincadeira, o Paissandu poderia ter sido condenado a jogar longe da capital paraense logo na segunda partida da Série C, com sérias perdas financeiras.
A pergunta que os auditores não fizeram, mas que seria perfeitamente cabível é: o que faz um sujeito sair de casa, pagar ingresso e atirar objetos no gramado como se isso fosse mudar o resultado de um jogo? Já tarda o momento de ser feita uma ampla campanha de conscientização da torcida paraense. É a mais participativa, com alto índice de comparecimento a estádios e, ao mesmo, é a mais mal-educada de todas.
Herrera, apelidado pela torcida argentina de “quase gol”, ganhou meu respeito com o gesto sincero de recusa a uma conhecida promoção do “Fantástico”. Teve a coragem de rejeitar alguns minutos de exposição na poderosa Globo. Não é para qualquer. O normal é a pronta adesão a qualquer brincadeira de mau gosto proposta pelos repórteres globais. Conheço dezenas de boleiros que dariam tudo pela chance de escolher um pagode mequetrefe, um cântico gospel ou um hit sertanejo qualquer.
O botafoguense, que marcou três gols contra o São Paulo, não viu necessidade de escolher música ou fazer macaquices na tela global. Mostrou desapego e orgulho, na melhor tradição de Heleno e Quarentinha. Cabra bom.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta terça-feira, 22)
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