Por Luiz Guilherme Piva
Alguém já deve ter dito que o Ganso joga como um craque da época de ouro do futebol brasileiro.
Mas também no estilo e no jeitão ele parece estar no início dos anos sessenta.
Como se jogasse em preto-e-branco.
Um funcionário em fraldas de camisa e calça de tergal.
Ou foca do Correio da Manhã cobrindo comício.
Bom moço da periferia ou estudante existencialista.
Passeio de Ban-Lon no Vemaguete. Sofá pé palito. Mistura Fina.
E na estética, também.
Dos seus pés emanam linhas do Niemeyer.
Seu ritmo está entre o samba-canção e a bossa-nova.
O andar dos galãs da Atlântida e o olhar sem causa de James Dean.
Mas o mais importante é a arte, que lembra João Cabral de Melo Neto.
Densa como um canavial.
De arregalar os olhos, como um pesadelo dentro do homem.
O passe exato, de pedra.
O afago na bola como quem leva a vela acesa.
O lançamento descaindo como pálpebra de onda.
A elegância andaluza.
O lance luminoso como uma casa aberta ao sol.
Mas, nisso tudo, hoje, no noturno futebol brasileiro, ele é único.
E o Ganso, sozinho, não tece a manhã.

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