Coluna: Velhos e novos amores

Volta e meia surgem reações ao fato de paraenses manifestarem predileção por clubes do Sul ou Sudeste. No domingo passado, enquanto o Paissandu afundava em Goianinha boa parte dos torcedores de Belém, incluindo bicolores, concentrava suas atenções nos clássicos da Primeira Divisão exibidos pela TV, o que gerou críticas dos mais tradicionalistas. Há nesse posicionamento de negação da paixão por clubes de outros Estados um ranço natural de ressentimento em face da posição cada vez mais desimportante dos nossos clubes nas competições de âmbito nacional.
Não é de hoje que o torcedor avalia que a CBF e os próprios grandes clubes brasileiros conspiram contra os da parte de cima do mapa. Não se pode negar que a má vontade exista. Muitos jogadores (Romário e Edmundo à frente) chegaram a admitir que não gostavam dos longos deslocamentos até as cidades nortistas e davam sempre um jeito de providenciar uma suspensão ou simular lesões para não vir jogar aqui.
Ao mesmo tempo, malvada que nem o Pica-Pau dos desenhos, dona CBF nunca escondeu que prefere campeonatos menos dispendiosos e todos sabem o quanto as passagens aéreas pesam nas despesas dos torneios. É preciso entender que essa pré-disposição contra o rincão nortista contou com a decisiva colaboração dos nossos representantes, que jamais conseguiram se firmar nas competições de primeira linha – Brasileiro da Série A e Copa do Brasil. O Paissandu ainda conseguiu se equilibrar na elite, entre 2002 e 2005, mas depois disso despencou em queda livre até se consolidar como membro fixo da Série C nos últimos cinco anos. O Remo, nem divisão tem mais.   
A presença cada vez mais fugidia dos clubes locais nas competições importantes acabou por estimular uma geração de torcedores a se afeiçoar por bandeiras de outras regiões. Fenômeno parecido com a forte torcida surgida no Pará (e em toda a Amazônia) pelos clubes do Rio de Janeiro ao longo dos anos 50 e 60, em face da inexistência de campeonatos de âmbito nacional e pela extraordinária influência exercida pelas emissoras cariocas de rádio e TV. Por isso mesmo, apesar do crescente avanço do futebol paulista, persiste até hoje por aqui uma considerável parcela de adeptos dos quatro grandes clubes do Rio.
As situações são parecidas porque hoje é praticamente como se não houvesse um campeonato brasileiro, pois os representantes da torcida paraense estão fora de combate. Diante disso, é compreensível que o fã de futebol se dedique a um segundo clube de coração. Em casos mais radicais, o torcedor optou por uma agremiação carioca, paulista, mineira ou gaúcha por não se identificar com nenhum dos tradicionais clubes paraenses. Com as transmissões de todos os jogos – nas emissoras de TV a cabo -, a tendência é que essa predileção aumente ainda mais, alimentada pela continuada crise do futebol papachibé.
A questão é de natureza quase filosófica: não há lugar vazio, apenas espaço a ser ocupado. Sem correspondência ao afeto que sempre destinou a Remo e Paissandu, o torcedor parte para compensar as dores do amor, ocupando seu coração com outras cores. Felizmente, ainda há gente disposta a empunhar a bandeira da resistência e é dessa força que os velhos titãs regionais devem se nutrir para sacudir a poeira e dar a volta por cima. O que não impede que, logo mais, todos estejam de olhos postos na rodada decisiva do campeonato mais equilibrado (e imprevisível) do mundo. A vida ensina que, para o bem ou para o mal, nada é tão definitivo assim.
 
 
É fato indiscutível que o laurel máximo da temporada caminha aceleradamente em direção aos braços do Corinthians. Aos trancos e barrancos, sabe Deus como, o time de Tite se mantém desde as primeiras rodadas entre os ponteiros da competição. Ao mesmo tempo, ventos políticos inflam ainda mais a nau mosqueteira. Depois da notícia de que toda a premiação (R$ 8,5 milhões) pelo título será rateada entre os jogadores e a comissão técnica, a CBF coroou a semana nomeando Andrés Sanchez para a Diretoria de Seleções. Diante disso, não falta quase nada para que a festa de encerramento da temporada tenha o hino corintiano como trilha sonora. Apesar dos jogos restantes, pode-se dizer que só uma verdadeira hecatombe poderia tirar a taça do Parque São Jorge. 

 

A respeito de nota publicada no domingo passado, criticando a punição aplicada ao companheiro Ronaldo Porto, recebo atencioso esclarecimento do presidente em exercício da Comissão Disciplinar da Assembleia Paraense, Flávio Freire. Em nome da CD, ele explica que “a penalidade aplicada ao mesmo foi de acordo com o regulamento do Campeonato Interno de Futebol, elaborado pelos clubes disputantes” e de pleno conhecimento do próprio associado.
 
 
O volante Vânderson, confirmado para a temporada 2012 no Paissandu, é o convidado especial do Bola na Torre (RBATV) de hoje, às 21h. Guerreiro no comando.
 
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 27) 

10 comentários em “Coluna: Velhos e novos amores

  1. Que o pessoal do sul não gosta da gente é fato notório. Mas que culpa teve a CBF nas derrotas para Salgueiro, Icasa e América ou no fato de o Remo sequer conseguir disputar a série D? É óbvio que NÃO EXISTE nenhum complô ou plano mirabolante contra o nosso futebol. Essas teorias conspiratórias são inventadas apenas para explicar nossos fracassos.

    A culpa é das péssimas administrações da dupla Re x Pa, que não ganha mais nem campeonato paraense! Aliás, quando do titulo do Independente, circulou boato de que a FPF “queria um campeão do interior”. Outra absurda teoria conspiratória, como se um campeão interiorano não representasse tremendo prejuízo à FPF!

    Quanto à perda de espaço de nossos clubes junto ao torcedor, se nada for feito, vejo a atual geração como a última a frequentar campos de futebol. Quando os torcedores atuais envelhecerem e perderem o hábito de frequentar estádios, não serão substituídos pela nova geração, pois esta não torce para nossos times e está habituada a assistir o Re x Pa na TV.

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  2. Vou repetir mais uma vez neste blog. A Série B tinha que ter 32 times com dois grupos de 16 times cada um. Não existe complô contra os times paraenses, mas há um descaso latente da CBF com os times menores. O que eu não consigo entender é por quê esses times não se juntam para exigir mudanças? O formato da Série B é excludente sim, e foi tentando evitar o inevitável, ou seja, o rebaixamento que dirigentes remistas e bicolores causaram a ruína de nossos times, assim como aconteceu com Fortaleza, Santa Cruz, Joinville, Londrina, Guarani, Juventude e outros. Aguardem para ver quem será a proxima vítima. Eu aposto no Ceará que deve cair pra Série B endividado.

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  3. Assisti ontem o jogo Vila Nova 0 x 1 Sport, de baixa de um temporal danado, uma das coisas que me chamou a atenção foi a diferença do porte físico entre os jogadores do Sport pros do Vila. Então, não tinha técnica, tinha que ser na raça, e prevaleceu a do Sport. Outra o foi a disposição do Leandro Cearense que sozinho perturbava a defesa do Sport, e pensar que perdemos este jogador, trazendo a verminose do Josiel e que também demos moral excessiva ao Rafael Oliveira, um verdadeiro fominha.

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  4. Aliás, o paraense gosta de teorias conspiratórias, especialmente com essa síndrome de perseguição construída por nossas elites. Ultimamente, as teorias conspiratórias têm rondado em demasia os torcedores do PSC. perdem pro Remo e a culpa já foi até de São Pedro. Perdem o acesso à Série B e a causa sempre é ligada a falta de pagamento ou coisas do gênero. Nunca é pela incompetência. O Pará está precisando sair do divã.

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  5. Há postagens que levam-me acreditar em mudanças profundas no futebol paraense. É preciso haver prejuizos e mais prejuizos para entendermos que esgrimir irreverencias, troca de insultos ou veleidades, não nos lervam ao lugar que pretendemos aos nossos clubes.
    Já não tenho mais “filó” para ouvir : ” mais querido ; o maior ; etc., etc.
    Sentir-se ofendido toda vez que o clube preferido é criticado, não passa de veleidades e não constribui para o debate sério.
    Este blog repercute. Tive provas participando de um roda (social ?)
    onde todos disseram ser nossos visitantes. Vamos então percutir.
    Não cabe a nós a sugentão salvadora do futebol paraense, mas cabe-nos a obrigação séria de contribuir, discutindo não só o futebol, mas o clubes em seu todo.

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  6. Prezado Rogério Freitas,

    Só lhe peço muito cuidado com esse tipo de afirmação: “Que o pessoal do sul não gosta da gente é fato notório”. Generalizar, dessa forma é sempre muito perigoso.
    Eu sou do Rio Grande do Sul, filho de pai paraense e mãe gaúcha. Também tenho familiares e amigos que moram no Rio de Janeiro. Outros amigos em São Paulo. E, eu nunca vi nem ouvi, nenhuma dessas pessoas falarem mal ou sem razão aparente do Norte do Brasil. Falar por falar. Do tipo: “Eu não gosto do norte, não gosto de nortista”. Nunca ouvi, nem testemunhei nada do tipo.
    Pelo contrário, trabalhei por cinco anos num órgão de turismo, e conheci pessoas oriundas de vários lugares do Brasil, que em sua maioria saíram daqui falando as maiores maravilhas, em especial do povo hospitaleiro e da nossa original culinária. Claro que alguns não gostaram. Isso é absolutamente normal. E até legal. Saudável, eu diria. Como disse Nelson Rodrigues, “toda unanimidade é burra!”.
    A discussão e o debate, sempre que respeitam as diferenças, são extremamente válidos e positivos para o crescimento enquanto cidadão. Por isso, generalizar, não vale a pena.
    O Brasil é pródigo nos seus bairrismos e regionalismos. Rio vs SP, Belém vs Manaus, Porto Alegre vs Curitiba, Recife vs Salvador, etc… O que humildemente em minha opinião, não passa de uma grande babaquice. As vezes, o Brasil parece uma Europa colonizada a força, que fala a mesma língua e cheia de pequenos países. Um país que se chama Pará, um país que se chama Rio Grande do Sul, um país que se chama Minas Geras, e por aí vai… Só espero que as gerações futuras por conta destes bairrismos e regionalismos não recaiam no mesmo erro do Velho Mundo, que passou por séculos mais séculos de guerras, conflitos separatistas, divisões para depois querer corrigir um milênio inteiro de disputas, unindo estes mesmos países através de um só bloco econômico, moeda única, mesmo banco central, passaporte comunitário, etc.
    Paysandu e Remo estão onde estão por incompetência de seus dirigentes, pelo amadorismo na gestão, paixão de cartola maior do que a razão profissional de um administrador, e por aí vai… Vamos assumir nossos erros, aprender com eles e fazer diferente. Que há descaso da CBF com outras regiões do país, não há dúvida. Mas, se nossos clubes já estiveram lá na elite do futebol nacional em outras tantas ocasiões diante do mesmo descaso, me digam por que não podemos chegar lá novamente?
    Quanto ao fenômeno mencionado pelo Gerson no artigo, vou além. Quanto mais nova é geração, mais para fora olham os jovens torcedores. Cada vez torcendo nem mesmo para clubes nacionais, mas sim do exterior. Eu mesmo, um assíduo batedor de pelada, tive a oportunidade de ver jogar vários desses times de futebol society da molecada envergando a camisa de equipes de todos os lugares do mundo… É Chelsea, Juventus, Barcelona, Celtic, Milan…. Parece até uma UEFA Champions League disputada em terra papachibé! E isso tem um só nome, e para o bem ou para mal, teremos de aprender a conviver com ela: Globalização!
    Era esse o meu recado.

    Um grande abraço ao Gerson e demais amigos deste fórum,
    Israel Pegado

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