Coluna: O caminho é pelas pontas

Para quem vai jogar pelo empate, o técnico Andrade agiu bem ao confirmar a permanência de Vagner na defesa para a decisão de hoje em Goianinha. Faria melhor ainda se substituísse Leandro Camilo por Márcio, que saiu do time por suspensão automática. Alguns dos muitos auxiliares deveria dizer ao comandante que Vagner e Márcio formaram a melhor dupla do Paissandu na competição, demonstrando bom entrosamento e baixo índice de falhas. Camilo, que teve boa passagem pelo clube em 2010, ainda não se firmou e demonstra intranquilidade até diante de ataques anêmicos, como o do Luverdense.
Como não pode viver apenas da defesa, pois o futebol felizmente exige bem mais que isso, Andrade precisa dar um jeito, encontrar a mágica capaz de fazer com que o departamento de criação funcione com mais apuro do que na quarta-feira. Juliano e Robinho correram e armaram boas jogadas enquanto houve fôlego. No segundo tempo, o gás acabou e o time todo sentiu a falta de lançamentos e triangulações. Para compensar, Héliton voltava o tempo todo para ajudar na marcação, tornando-se quase um fundista. Óbvio que essa multiplicação de tarefas afetou seriamente sua maior qualidade: as manobras em velocidade no ataque.
Héliton, por sinal, tem características fundamentais para um bom resultado diante do América. Para conquistar a vitória, único resultado que lhe interessa, o time potiguar vai abrir espaços na defensiva, situação que deve se ampliar à medida que o tempo for passando e o desespero aumentando. Andrade não pode deixar, como no embate com o LEC, que sua peça mais aguda canse logo, indo ao ataque e recuando até a linha de fundo do Paissandu. Existem seis homens – Vânderson, Robinho, Juliano, Allax, Fábio e Daniel – para guarnecer a defesa. O lugar de Héliton (e de Rafael) é do meio-de-campo em diante, sendo que se torna mais contundente no chamado tiro curto, quando lançado às proximidades da área inimiga. No fundo, apesar de terem banido com a figura do ponta, o futebol não vive sem um especialista naquela faixa estreita do campo. E a razão é bem simples: ainda não inventaram caminho mais curto para o gol.
É plenamente possível que o Paissandu repita contra o América sua mais categórica exibição neste campeonato: a vitória sobre o Rio Branco, por 2 a 1, na capital acreana. Naquela noite, o time soube sair de um tropeço inicial para um triunfo irretocável, jogando com inteligência tática e perfeita distribuição dos jogadores pelos setores do campo. O América, apesar de superior tecnicamente ao Rio Branco, não tem um sistema de marcação muito forte, permite avanços até a entrada de sua área. Ao Paissandu cabe aproveitar os espaços, valorizar ao máximo a posse de bola e não deixar que o nervosismo da partida atrapalhe seu plano de jogo.

 
 
Mais do que as providências de Andrade para escalar o time, ganhou destaque na sexta-feira a notícia de que o Paissandu ganhou um inesperado mecenas, na figura do presidente da Assembleia Legislativa, deputado Manoel Pioneiro (PSDB). Doou R$ 100 mil ao clube para a quitação dos salários em atraso com os jogadores. É a grana que o presidente Luiz Omar teria repassado aos jogadores antes do embarque, apagando incêndios que ameaçavam tumultuar a jornada decisiva. Pagou um mês de salários, embora alguns atletas estejam há mais de cinco meses sem receber. Apesar do alívio dos dirigentes pela ajuda de última hora, é de lamentar que a desordem administrativa do clube tenha permitido que a situação chegasse a um ponto tão grave. Não menos lamentável é a interferência do Legislativo em assunto que não lhe diz respeito, doando uma verba pública que deveria ter outra destinação.
Pobre do futebol profissional que, por tão mal gerido, depende da caridade que é prima-irmã do oportunismo político. Essa combinação arcaica do público com o privado, como se sabe, representa a ante-sala da falência para agremiações que vivem cambaleando, de pires na mão. Serve de paliativo, mas não cura a doença – ao contrário, agrava o quadro. O precedente é ruim. Se a moda pega (e costuma pegar), além de desfrutar dos já polpudos incentivos do governo estadual, todos os clubes passarão a pleitear favores do generoso Legislativo sempre que estiverem aperreados com pendências salariais. Pioneiro mostrou que a porteira está aberta.  
 
 
O velho estádio do Souza pode ser palco, logo pela manhã, da classificação antecipada da Tuna à divisão principal do Campeonato Paraense. Contra o Abaeté, terceiro colocado e a um ponto apenas, a Lusa tem a missão de confirmar a campanha invicta nesta fase. Se vencer, vai a 11 pontos e praticamente assegura a vaga, abrindo boa vantagem sobre o time abaetetubense. Samuel não terá Rubran e Euler, mas contará com a preciosa ajuda da barulhenta torcida cruzmaltina. O outro adversário direto é o São Francisco, que receberá o Parauapebas, em Santarém, amanhã.
 
 
A coluna se solidariza com o companheiro Ronaldo Porto, suspenso do futebol da Assembleia Paraense por 12 partidas em função de comentários emitidos em sua coluna no caderno Bola. A punição, além de exagerada, configura uma prática incompatível com um clube que sempre exercitou a tolerância e a liberdade de expressão. Ainda há tempo de rever esse mau passo. (Foto: MÁRIO QUADROS/Bola)

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 20)

3 comentários em “Coluna: O caminho é pelas pontas

  1. Toda estratégia poderá ser comprometida por um fator: o lamentável preparo físico do Paysandu.

    Com a saída de Édson Gaúcho os jogadores passaram a mandar no clube e, em protesto pelo atraso de salários, entraram numa espécie de “greve branca”, muito comum por aqui, reduzindo significativamente as movimentações físicas. Passaram a fazer apenas simulacros de treinos, entrando em campo para realizar exercícios leves e peladas travestidas de coletivos, parecendo aos torcedores que o elenco estava trabalhando normalmente. Mas a verdade é que os atletas só estavam perdendo condicionamento com os treinos deficientes. As brigas na justiça, que só alongaram a competição, contribuíram ainda mais.

    A consequência desastrosa pôde ser vista nos dois jogos contra o fraco e desgastado Luverdense. Em ambas as partidas o Paysandu foi dominado no segundo tempo, terminando mais cansado que o adversário. Na última partida, Potiguar e Sidny, que haviam jogado cerca de vinte minutos, saíram exaustos de campo, comprovando a ausência de treinos sérios. O próprio técnico da Luverdense, Lisca, mostrou-se surpreso em ver o adversário mais cansado que seu time e Andrade andou alfinetando o preparador físico Pompeu.

    Que o América esteja tão ou mais desgastado. Caso contrário, será mais uma frustração.

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  2. Quem sabe a injeção da grana no bolso e a provável promessa de Andrade em indicar alguns para clubes do sul-sudeste maravilha não crie um ” gás ” nos jogadores .Eles só tem a ganhar com o acesso.A grana ,o cara recebe depois ,há meios para isso.Sandro , rodado e experiente deu esse péssimo exemplo. “Não vou treinar , não recebo”. Aí queimou e maculou sua história por uma grana que depois irá receber de um jeito ou de outro.Direitos trabalhistas são invioláveis, cedo ou tarde o trabalhador , se tiver direito , receberá.
    Agora a imagem de sucesso, a honra , o caráter pra onde vai ?Espero que esse seja o discurso da comissão técnica aos jogadores.Papão sobe.

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