Coluna: O futebol de resultados

Os românticos conseguem enxergar aspectos positivos no expansionismo da Copa do Mundo rumo a países fora do primeiro mundo do futebol. Tudo bem, afinal há gente que vê algo bom até em chuva de canivete. A questão é que a Fifa decidiu abraçar e seguir apostando no modelo inaugurado ainda por João Havelange nos anos 60, quando brandiu a bandeira da quebra do preconceito contra os emergentes da bola. Em teoria, intenções altruístas, mas na prática apenas nuvem de fumaça para disfarçar motivações menos nobres.

Como observei em artigos escritos durante a recente cobertura da Copa sul-africana, a Fifa descortina nos países emergentes a chance de ampliar seu faturamento com obras faraônicas – a Rússia promete orçamento de quase R$ 26 bilhões –, sem os perrengues burocráticos e legais do Primeiro Mundo. Erguer novos estádios em países europeus ou nos Estados Unidos é quase uma desnecessidade. Na Alemanha, em 2006, só foi preciso reformar praças esportivas já existentes. Não por acaso, a Copa germânica foi a última a ser realizada no Velho Continente. 

Por esse ponto de vista, as candidaturas de Espanha/Portugal, Inglaterra e Estados Unidos estavam irremediavelmente condenadas antes mesmo da abertura dos envelopes. Para a Fifa e empreiteiras que lhe seguem mundo afora, é fundamental fincar suas bandeiras em países dispostos a abrir os cofres, mesmo que os estádios depois fiquem sub-utilizados ou simplesmente abandonados – como já está ocorrendo na África do Sul.

O certo é que, com a escolha das sedes de 2018 (Rússia) e 2022 (Catar), a Fifa oficializou essa nova geopolítica, pautada prioritariamente nos lucros.

Não importa se o Catar tem futebol indigente, com times inexpressivos e torcida que ignora o esporte. O que vale é a boa vontade das ricas famílias árabes na hora de bancar os projetos de mega-arenas.  

Em função disso, a Europa ocidental – palco dos mais importantes torneios de clubes do planeta e continente que alavanca o futebol como negócio – ficará pelo menos 20 anos sem receber uma Copa do Mundo, ausentando-se de cinco edições do torneio, fato inédito nos 80 anos da competição.

O próximo mundial a visitar o continente deve ser o de 2026, isto se algum emergente asiático, árabe ou da Oceania (único continente ainda não contemplado) não se candidatar pelo meio do caminho. Não nos iludamos: a Fifa vai onde o dinheiro está.

Toda essa mudança de estratégia, evidenciada na Copa de 2002, dividida por Japão e Coréia do Sul, vem acompanhada de solavancos na credibilidade dos comitês de escolha dos países-sede. A cada nova rodada, surgem suspeitas e denúncias quanto ao envolvimento de delegados da entidade no favorecimento a candidatos. Os portugueses, insatisfeitos com a derrota de ontem, dizem que as cartas estavam marcadas. Os ingleses chiam. Barack Obama parte para o ataque. Parece choro de perdedor, mas a Fifa (e sua secular falta de transparência) enseja todos esses protestos.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta sexta-feira, 3) 

4 comentários em “Coluna: O futebol de resultados

  1. É assim mesmo que funciona, amigo Gerson. Assino embaixo sua coluna de hoje. Parabéns.

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  2. Bom dia Gerson Nogueira e Amigos do Blog;
    Por essas e muitas outras que não sabemos, mas, os efeitos sentimos, é que penso que já deveríamos ter chutado o pau da barraca criando a INDEPENDENTE CONFEDERAÇÃO NORTE BRASILEIRA DE FUTEBOL; pode parecer loucura ou utopia, mas, prá quem é sistematicamente perseguido, boicotado e alijado de todos os eventos comandados pela FIFA, via CBF A MADRASTA, TEM O QUÊ A PERDER???
    Analisemos o horizonte futuro, e percebamos o mercado Brasileiro de times de futebol que padecem do mesmo mal, aliás, só quarenta clubes brasileiros merecem a atenção da FIFA/CBF, ou não? se considerarmos ainda, os vizinhos guianos e andinos, temos um vasto mercado e grande chance de sucesso.
    Prá finalizar o recente exemplo do Presidente LULA, O METALÚRGICO, quando apostou no mercado interno como forma de combate à crise financeira internacional, deve ser seguido e as medidas tomadas, analisadas e adaptadas à realidae da nova Ordem que se proponha estabelecer.
    NOTA: Em recente revista especializada de divulgação nacional, o EX e ETERNO presidente da FIFA, João Havelange, ufanava-se de haver recomendado à FIFA emplacado a recomendação de manaus como sub sede da copa 2014, sob o argumento de que os turistas precisavam vir conhecer o mato da amazônia, fazer o quê? a FIFA agora que desenvolver o turismo de contemplação de mato… futebol?! bom, lá tem o maior campeonato de futebol pelada do brasil, talvez por isso mereça ser a sub sede amazônica da copa 2014.

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  3. Concordo 100% com o post.
    Mas me veio uma coisa à cabeça: se eles são corruptos, quem foi que corrompeu a FIFA pra trazer a Copa pro Brasil?
    quem negociou com eles?
    com que interesse foi feito esse ajuste de bastidores pra eles virem pra cá?
    Quem tá ganhando com isso?

    Nessas hora que eu queria ser um pai dinah. hehe

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