Dodô e o desprezo ao marketing

Dodô já tentou combater a própria personalidade. Em uma bela tarde de sua longa carreira, o atacante comemorou um gol como um gladiador sedento de sangue. Pulou alambrados, sacudiu os braços com força, arregalou os olhos e proferiu gritos de guerra. Tentou repetir a coreografia, mas sentiu náuseas. Alheio às campanhas de autopromoção, tão difundidas entre as estrelas do futebol, Dodô, atualmente na Portuguesa, disse em entrevista que não apoia jogadores marqueteiros e só não conquistou mais títulos por ser uma “pessoa muito azarada”. A frieza demonstrada por Dodô em campo foi talvez sua maior inimiga. Apelidado de “Dodorminhoco” pelas torcidas paulistas, o atacante ganhou mais adversários do que fãs na capital paulista. “Não era fácil. Tinha que ter sangue frio. Eu mal entrava em campo e a torcida já gritava: ‘Acorda Dodô, o jogo já começou!’ Não era fácil suportar”, disse o atacante, que considera a torcida do Palmeiras a mais chata que já conheceu.

No início de carreira, sob o comando de Telê Santana, o atacante viveu o encanto de ser considerado um dos jogadores mais promissores do futebol brasileiro, quando ainda defendia o São Paulo no final dos anos 1990. Em 97, chegou a ser convocado por Zagallo para defender a seleção brasileira. Porém, dez anos depois, atuando pelo Botafogo, viveu o maior drama de sua carreira, após ter sido flagrado no exame antidoping por ter utilizado a substância fenproporex (anfetamina) em partida contra o Vasco. Em 2008, a Corte Arbitral do Esporte acatou recurso da Fifa e da Wada (Agência Mundial Antidoping) e o suspendeu por dois anos dos campos. “Fui utilizado como um exemplo”, disse. “Não tem como duvidar de uma coisa (um remédio) que o clube te passa, principalmente se esse clube é o Botafogo. Levei uma punição que nenhum jogador de futebol havia levado.”

Você já defendeu seis dos oito maiores clubes do eixo Rio-São Paulo. Qual a torcida mais chata que você teve que aguentar?
Dodô: A do Palmeiras. Entrar no Palestra Itália era complicado. Se o time não correspondia, eles (os torcedores) vinham fortes, pegavam no pé. Você vê  a torcida do Botafogo, do Vasco e Fluminense. Elas são maravilhosas. No Rio, acho que por ser uma cidade mais habituada com artistas, o trabalho é mais tranquilo. Em São Paulo, a cobrança, tanto da torcida quanto da imprensa, é mais rigorosa.

Mas na sua época de Palmeiras o time foi rebaixado…
Dodô: Sou meio azarado, caraca meu.. O time do Palmeiras daquele tempo (em 2002) era razoável. Tnha jogadores como Zinho e Arce. No Bota, antes de chegar ao Palmeiras, eu estava numa fase espetacular. E estreei bem pelo Palmeiras. Ganhamos do São Caetano e pensei: ‘Agora vai. O time vai reagir’.Mas nada. Veio o Levir, e nada. E posso garantir que não tinha racha, não tinha briga. Um jogador motivava o outro: ‘Vamos lá’!. Mas não tinha solução. Tem jogo que você martela, insiste e não adianta nada. Inexplicável.

Você sempre jogou em clube grande, mas não conquistou muitos títulos. Atribui isso ao fato de ser ‘azarado’ como disse?
Dodô: Fico triste porque poderia ter ganhado. Ao mesmo tempo, eu não jogava sozinho. Cansei de ser artilheiro e ver meu time perder.  Um Paulista e um Carioca é muito pouco para a minha carreira, para os times que eu joguei. Você olha minha carreira e percebe: tem muito vice-campeonato! O São Paulo de 1997 e 1998, na minha opinião, não se compara ao São Paulo de hoje, que ganhou tudo. Aquele time do São Paulo era melhor. O Santos do meu tempo era um timaço, mas não ganhava também.

Você nunca gostou de comemorar muito os gols. Não faltou um pouco de marketing?
Dodô: Eu escutei muito isso. Já tentei fazer gol e subir no alambrado, mas aí você faz uma, duas vezes e cansa. Voltei ao normal. É coisa minha, prefiro dar crédito a quem passa a bola. Hoje tem marqueteiro demais. Já cheguei a clubes em que na reunião, antes de fechar o contrato, algumas pessoas falavam que eu tinha que ser marqueteiro, que faltava isso para mim, que tinha que fazer algo extra, além de jogar futebol. Mas ser marqueteiro e falar alguma mentira não são coisas para mim. (Do UOL Esporte)

2 comentários em “Dodô e o desprezo ao marketing

  1. O ARTISTA quando é bom mesmo não precisa disso, que o digam Chico Buarque de Holanda e Marisa Monte. PORÉM, como estamos no planeta Terra e no século 21, é muito difícil sobreviver sem a ajuda da mídia. Giovane, que um dia ostentou o manto sagrado azul marinho, foi bastante prejudicado em sua carreira por conta de seu jeito de ser, malgrado jogasse um bolão, como todos nós sabemos.

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