Eu não vi Pelé

Por Tiago de Souza

Todos temos devaneios (alguns dirão inclusive que se tratam de lembranças… vai saber?) e aspirações sonhadoras de termos vivido em alguma época, em algum lugar, ter vivenciado algum acontecimento histórico (e na época, provavelmente, nem ter notado que esse instante seria mesmo eternizado). Há quem sonhe em ter sido um cavaleiro templário, ou um navegador ibérico, ou ter ido à manifestações contra ditaduras, ter curtido um dia em Woodstock. Eu queria ter visto Pelé, e só.

Já perdi a conta das vezes em que assisti ao filme de Sua vida, que vi Seus lances na TV, que presenciei histórias contadas pelo meu pai (que são como lendas, algumas o são, inclusive), que me peguei desejando mais do que qualquer coisa ter ido a pelo menos um jogo do Santos de Pelé, do Brasil de Pelé, ou então apenas ter vivido essa época para depois contar aos filhos, netos, e quem mais se dispuser a ouvir, que “vi” Pelé jogar.

Não vi Pelé fazer mais de 1.200 gols, e assistir a que outros – pra mim eleitos divinamente –  também fizessem os seus mais 1.200 gols. Não vi Pelé – um negro, jovem, de país pobre – ser aplaudido em redutos arianos, em rincões bolivarianos, em palácios da Bretanha, em aldeias africanas. Queria ter visto o Pelé numa das maiores demonstrações do poder social do esporte no – hoje quase hollywoodiano – dia em que parou uma guerra no Congo Belga. Queria ter visto Pelé no Pacaembu, no Morumbi, no Maracanã, no Azteca, na Rua Javari, no estádio da Esportiva de Guaratinguetá, ou em qualquer lugar que ele nunca pisou mais juram já tê-lo visto passar. Porque não duvido da Onipresença do Rei. Não duvido de nenhum feito relacionado a Pelé.

Não vi narradores se referirem a Pelé como “lá vem Ele…” quando seu pé, sua velocidade, sua habilidade, sua destreza, e a bola, se misturavam num desafio à física de qualquer época, e todos os ouvintes, muitos sem qualquer referência de imagem do Rei, saberem que Pelé estava vindo… e o gol muito provavelmente também.

Não vi Pelé para conseguir fazer poemas com seus feitos, para poder entender de fato o sentido de Armando Nogueira ao falar que “se Pelé não tivesse nascido homem, teria sido bola”. Queria ter visto Pelé. Não me interessa que à época eu também teria visto alguns de meus mestres de samba cantando ao vivo por exemplo, teria presenciado momentos interessantes, de maior importância histórica do que qualquer feito de Pelé. Não, queria era ter visto Pelé subir e consubstanciar a expressão “matar no peito”, quando ele e bola se entendiam como nunca mais se verá.

Queria ter visto Pelé inclusive para quem sabe soltar a bravata de que ele não foi exatamente tudo isso, mas sempre sabendo que não passaria de pura vontade de ser do contra, ranzinza como sou. Queria ter gritado “fica” no Maracanã farto em sua despedida de 1972 como meu pai jura ter ido e gritado (não me interessa se é real, eu acredito e é isso que interessa a ele, meu pai). Queria ter ido ao Maracanã no milésimo gol como mais de 500 mil pessoas já falaram também terem ido e igualmente não me interessa quem foi, apenas porque vivas eram à época e têm todo direito de falarem que foram, ponto.

Eu vi o Edson Arantes do Nascimento, mas queria ter visto Pelé. Não pelo motivo recorrentemente citado sobre a personalidade, índole, e outros sobre Edson. Mas porque Pelé era no campo, e só esse me interessa. O que ele é, foi e será fora dele, é problema dele, não meu. Mas o que ele fez nos estádios, é inspiração para o mundo, e isso eu queria ter visto.

Na minha geração – aqui coloco todos que não viram Pelé jogar, porque são eras diferentes na minha cabeça e que cada um faça a sua divisão – sempre ouço a insolência de que “hoje” Ele não teria sido isso, não teria feito aquilo, não driblaria assim… puro despeito de quem não viu Pelé. Porque, no interior, a verdade é que todos esses queriam ter visto Pelé. Esse é meu devaneio de viagem ao tempo, esse é o desejo que jamais realizarei na vida, esse é o sonho de criança que tenho quando estou sozinho: queria ter visto Pelé!

Tiago de Souza é jornalista, são-paulino, e tem tristes 28 anos que não lhe permitiram ver Pelé.

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