Coluna: Nem os gênios são felizes

O futebol é, de fato, um mundo de surpresas e incoerências. Em meio ao verdadeiro festival de matérias especiais sobre o Rei Pelé, em face de seu aniversário de 70 anos, assisti uma velha entrevista de 1968 na qual ele se defendia das suspeitas sobre a decadência do seu futebol. O repórter foi claro, talvez repercutindo uma impressão geral naquela época, quanto aos receios de que Pelé já não fosse o mesmo jogador desde as contusões que o afastaram do Mundial do Chile em 1962 e desde a vexatória eliminação do Brasil na primeira fase da Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra.
Meio sem graça, o futuro Atleta do Século argumentava que sofreu muito com as contusões durante o Mundial e que não sabia o que o futuro lhe reservava. Ao mesmo tempo, quanto às desconfianças em relação ao seu futebol, disse que havia uma mudança na postura dos times, que talvez explicasse a queda de rendimento. Queria dizer que não era mais tão fácil fazer tantos gols, como no começo da carreira, visto que todos os adversários passaram a se prevenir mais quando enfrentava o temível Santos. Mais que isso: Pelé começou a ser alvo de uma verdadeira caçada em campo, vítima implacável da violência dos zagueiros, com a cumplicidade e omissão dos árbitros.
O que aconteceu em gramados ingleses, principalmente na partida contra Portugal, era um bom exemplo da marcação reservada ao supercraque desde que ele despontou no Mundial de 1958. Apesar de todas essas justificativas para a fase que o Rei vivia, todos se preocupavam em saber se o título mundial na Suécia não tinha sido o apogeu do menino de Três Corações. O próprio Pelé parecia inseguro e dizia ao repórter que não sabia se poderia disputar a Copa de 1970, no México. Ia depender de muitas coisas, além da crescente preocupação em estar com a família. Como se veria dois anos depois, ele iria participar do torneio e seria peça decisiva na conquista do tricampeonato mundial pelo Brasil. Aliás, na avaliação quase geral, foi em solo mexicano que seu talento ímpar se revelou em todo esplendor e maturidade, mais até do que em 1958, quando era pouco mais que um menino.   
Os dissabores de Pelé naquele tempo provam que o mundo do futebol pode ser generoso em alguns momentos, mas é quase sempre traiçoeiro na aferição de qualidades, deixando de levar em conta o fator humano na hora de fazer julgamentos. Aos 25 anos, depois de inúmeras façanhas pelo Santos e Seleção Brasileira, Pelé ainda precisava provar que era realmente um fora-de-série. O que fez depois disso calou definitivamente seus críticos, embora tivesse ainda que prestar contas (a alguns) pela decisão de não disputar a Copa de 1974, realizada na Alemanha. O episódio demonstra, com clareza, que nem os gênios estão livres de cobranças. Que o fato sirva de lição para os jovens boleiros, alguns exageradamente incensados antes do tempo.    
 
 
O desfecho foi mais ou menos dentro das expectativas. Depois de perder em casa, o Águia precisava vencer em Natal. Tarefa dificílima pelo nível técnico do ABC. As esperanças se concentravam no histórico do time de João Galvão, habituado a jogar (bem) fora de seus domínios. No primeiro tempo, até que o embate foi equilibrado, embora sem grandes oportunidades de gol. No tempo final, porém, o efeito do calor pesou sobre o condicionamento da equipe paraense, que se desgatava mais pelo esforço de buscar a vitória. Com tranquilidade, o ABC construiu a vitória até certo ponto fácil. A eliminação não ocorreu ontem, mas naquele instante de desatenção que permitiu o gol potiguar no Zinho Oliveira, sábado passado.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta segunda-feira, 25)

Um comentário em “Coluna: Nem os gênios são felizes

  1. Para corroborar minha teoria de que Pelé, se estivesse em atividade, seria igual ou melhor que foi, lanço mão do trecho a seguir, extraído da coluna:

    “Pelé começou a ser alvo de uma verdadeira caçada em campo, vítima implacável da violência dos zagueiros, com a cumplicidade e omissão dos árbitros”. Desse excerto, grifo ‘cumplicidade e o omissão dos árbitros’, para dizer que, por determinação da Fifa, os árbitros hoje são mais severos que naquela época, e um time da categoria do Santos de Pelé – que hoje seria certamente um time europeu como Real Madrid, Milan, Chelsea etc – cheio de craques, em uma partida teria pelo menos duas penalidades a seu favor, e o negão seria o cobrador, daí chegar ao número de gols que fez outrora.
    Outra conclusão é de que a mídia cobra bastante, não levando em conta a humanidade existente até em alguém fora-de-série como Pelé, exigindo que se mate, não só um, mas vários tigres durante cada partida.
    Um abraço ao escriba Gerson Nogueira.
    Valentim, Curitiba – PR

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