Homenagem a um eterno rebelde do cinema

Por André Setaro – de Salvador (BA)

Arthur Penn, que se foi semana passada aos 88 anos, foi um cineasta cujo apogeu, nos anos 60 e 70, seguiu logo o seu perigeu, por causa da radical mudança no sistema hollywoodiano. Se nas décadas de 60 e 70, o system, em profunda crise, admitiu, dentro de seu seio industrial, obras independentes, com o boom iniciado com Guerra nas estrelas, Hollywood fechou todas as comportas para o cinema independente. E Penn, um realizador que não gostava de fazer concessões, não conseguiu mais arranjar produtores com a coragem suficiente para bancar seus projetos audaciosos, críticos e envolventes. Não era um homem do sistema, portanto, e, nas suas últimas décadas de vida, amargou um ostracismo aliviado de vez em quando por filmes televisivos que não eram de seu agrado.

Penn, por isso mesmo, talvez não seja um nome conhecido dos cinéfilos contemporâneos. Mas nos anos 60, uma marca de referência, uma alusão sempre presente quando se conversava sobre cinema naqueles bares da rua Senador Vergueiro onde ficava o saudoso Cine Paissandú. Ou no Bar e Restaurante Cacique, reduto e universitários e artistas, na Praça Castro Alves (Salvador).

Há, em certos filmes de Penn, como em Mickey One (1965), uma estrutura narrativa que foge ao modelo estadunidense, dando a impressão de ser um filme europeu. As idas e voltas no tempo e no espaço fazem crer que o cineasta foi muito influenciado pelos filmes da nouvelle vague, a exemplo de Acossado e O ano passado em Marienbad (aqui, o pisca-pisca da memória). Este filme tem no seu quadro central Warren Beatty, que Penn o aproveitaria depois em um de seus filmes mais audaciosos: Bonnie and Clyde (1967), que no Brasil tomou o título estúpido de Uma rajada de balas.

Assim como Sidney Lumet e muitos outros notáveis, Arthur Penn é da geração da televisão americana, tendo-se, na práxis, formado nela. A sua obra de estréia é um western revisionista e desmistificador: Um de nós morrerá (The left handed gun, 1958), com Paul Newman no papel de Billy The Kid, famoso fora-da-lei da lenda do faroeste, que aqui é visto sob um prisma psicanalítico com acentos freaudianos. Billy, em interpretação stanislavskiana de Newman (leia-se Actor’s Studio), é apresentado como um rapaz transviado à la James Dean, o que, para a época, e para um western, passou dos limites. Resultado: apesar do enfoque inovador do ponto de vista temático, Penn amargou quatro anos de ostracismo sem encontrar produtor para um segundo opus.

Em 1962, surpreende com o belíssimo O milagre de Anne Sullivan (The Miracle worker). Anne Bancroft é uma professora incumbida de ensinar uma menina surda e muda a se comunicar. Anne Bancroft, que, na verdade, se chamava Anna Maria Louise Italiano, ganhou o cobiçado Oscar de melhor atriz, assim como a menina, Patty Duke, o de melhor atriz coadjuvante.

Obra impactante, que já em DVD há algum tempo, não vem atraindo a atenção que merece, Caçada humana (The chase), de Arthur Penn, com roteiro de Lilian Hellman, através da fuga de um prisioneiro (o novato Robert Redford), Penn expõe, numa visão ácida e sem piedade, as chagas da sociedade americana. Marlon Brando é o xerife da cidade e há uma cena, com ele, quando toma muita pancada e cai ensanguentado da sua mesa, que antecipa a violência em Don Siegel e Sam Peckinpah. O elenco é de alta conta: Jane Fonda no esplendor de sua beleza, o já citado Redford (que viria a se tornar um astro de primeira grandeza), E. G. Marshall, Janice Rule, Miriam Hopkins, Martha Hyer, Richard Bradford, Jocelyn Brando (irmã de Marlon), entre outros. Que cast! Mas Penn foi traído pelo produtor, que montou o filme à sua revelia. The chase, mesmo assim, é um filme a respeitar.

Um acontecimento, o lançamento de Bonnie and Clyde no Brasil nos agitados anos de 1968 (embora o filme tenha sido feito em 1967). O ritmo ágil, com variações estilísticas, a misturar comédia e drama (os assaltos a bancos são regidos segundo a estética do cinema mudo), e o sopro renovador no tratamento do tema, fizeram de Bonnie and Clyde um fenômeno. Vida, paixão e morte de um casal de assaltantes de bancos em plena década de 20, vivido por Warren Beatty e Faye Dunaway, que seria solicitada, desde então, pelos grandes cineastas. O filme ainda introduz o gigante Gene Hackman e o comediante Gene Wilder. Um tento e tanto para Arthur Penn.

A tendência desmistificadora e o arrojo temático se verificam em Pequeno grande homem (Little big man, 1970), com Dustin Hoffman e, trazendo de volta a seu cast, Faye Dunaway, um filme vigoroso que ataca, impiedosamente, o heroísmo americano. O General Cluster, tão idolatrado pela lenda, é visto, aqui, como um genocida, um louco com compulsão assassina. Dustin Hoffman, maquilado para parecer um homem de 120 anos, é o herói penniano que conta a história sob o seu ângulo em flash-backs.

O último grande filme de Penn foi Um lance no escuro (Night moves, 1975), com Gene Hackman como um homem desesperado que, de repente, tem a missão de encontrar uma ninfeta (estréia de Melanie Griffith no cinema) e levá-la de volta à Flórida. Trata-se de um thriller instigante no qual Penn procura mostrar uma América sufocada pelas conseqüências do Watergate. A sequência final, quando um yacht sem rumo se perde num oceano sem fim, com Hackman dentro da embarcação, é deslumbrante. Ainda que tivesse feito um ou dois filmes depois deste, e pequenas fitas para a TV, o grande Penn se encerra aqui, em Um lance no escuro, 35 anos antes de sua morte. Para se ter uma idéia a que estão condenados os cineastas mais audaciosos e que não mais se adaptaram ao cinema-parque-de-diversão atual praticado por Hollywood. Billy Wilder, outro notável diretor, passou mais de duas décadas de sua vida útil indo todos os dias para o escritório do estúdio sem conseguir, todavia, nenhuma chance de dirigir.

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