Conexão África (21)

Uma Copa para poucos eleitos

Nunca foi tão fácil ganhar uma Copa do Mundo. Esta é a exata sensação que se tem em face dos jogos que vi até agora (todos, sendo 12 com presença nos estádios). O nível técnico, que na Alemanha foi dado como fraco, aqui pode ser definido como baixíssimo, até agora. É verdade que mal começaram as oitavas de final e ainda é possível que se apresente perante todos a grande equipe da competição, aquela que brilha pelo conjunto e não abre mão dos recursos da habilidade individual. Quero dizer que, há quatro anos, tínhamos também essa mesma esperança a essa altura e o que veio em seguida não acrescentou rigorosamente nada ao pouco que havia sido oferecido, culminando com a insossa final entre Itália e França, decidida nos penais, como nos Estados Unidos em 1994.
Esta primeira Copa africana tem números haitianos se comparada a outras edições, como a da Alemanha e da Ásia. Até o momento, são 122 gols (média de 2,19), índice inferior até à marca paupérrima da Copa da Itália em 1990, cuja média ficou em 2,21 e é o mais baixo da história. Não é segredo para ninguém que os times jogam muito mais em função de não perder do que propriamente de vencer. Saem felizes de campo, tocando trombetas, quando arrancam um 0 a 0. Nenhum mínimo sinal de constrangimento pelo furto da emoção do gol ao torcedor.
Portanto, vejo facilidades imensas para times que tenham um mínimo de organização e apresentem estruturas ofensivas realmente competentes. Os que mais chutarem a gol, mais arriscarem ir ao ataque e que saibam usar estratégias de velocidade, acabarão triunfando. Os dois grandes embates de ontem, entre Alemanha e Inglaterra e Argentina x México, além de muitos gols, reacenderam a chama da esperança quanto à salvação da Copa pelo bom futebol.
Há pelo menos seis Copas, desde a famigerada edição italiana, seleções medianas sempre entram na disputa buscando surpreender e, para isso, aferram-se a retrancas infernais, botando até nove jogadores atrás da linha da bola. O problema é que essa turma – Eslováquia, Paraguai, Uruguai, Chile, Coréia do Sul, EUA, Gana, México – já não está sozinha nesta maneira obtusa de planejar o jogo. Neste Mundial, até as seleções mais badaladas recorrem ao expediente de usar defesa e meio-de-campo fechadíssimos, com um ou dois coitados correndo atrás dos gols lá na frente.
Claro que esse aleijão vem sempre precedido de um discurso tão bonitinho quanto ordinário, que tenta justificar o ferrolho e o antijogo. Capello, Low, Dunga, Aguirre, Tabarez e outros menos votados defendem que o futebol evoluiu, elegendo o pragmatismo como razão de viver. A tal “evolução” significa, em outras palavras, andar para trás, nivelando todos na vala comum da grossura e da ausência de ideias criativas. Antes de planejar formas de superar o defensivismo, preferem arranjar maneiras de se agarrar a ele, acreditando no equívoco de que o futebol do futuro se resumirá a isso: defesas fantásticas empenhadas em diminuir ao máximo a chance de gols. Ora, zagueiros existem para evitar o gol, mas os times também se
preocupavam em construir ataques portentosos (tinham, inclusive, mais gente na frente do que atrás) e todos se divertiam no fim das contas.
No pobre futebol que se pratica hoje no mundo, espelhado na atual Copa, até os pesos-pesados de sempre aderiram à nova onda. Vejo o técnico holandês cantando a mesma musiquinha retranqueira, com um time que tem futebolistas do nível de Robben, Van Persie e Snijder. O Brasil, coroado cinco vezes com o cetro máximo, abandonou seu compromisso com a história e trouxe à competição aquilo que Dunga e Jorginho consideram “a melhor defesa do planeta”. Tenho calafrios quando ouço um técnico – brasileiro, principalmente – enaltecer o sistema defensivo, sem dizer uma vírgula sobre seus atacantes. A pátria dos grandes craques (todos atacantes ou meias) não merece ser insultada dessa forma. O xis do problema está na força do exemplo: se o país do futebol decidiu deixar de lado a volúpia pelo gol, os demais seguem naturalmente essa tendência. É claro que os títulos serão conquistados e comemorados, mas a insipidez da maioria dos jogos começa a ficar insuportável.

Destino conspira contra os melhores

Dois duelos dignos de Copa do Mundo. No primeiro, um primor de atuação alemã nos contra-ataques e na forma inteligente de defender, saindo rápido para planejar o ataque. O gol que Larrionda não deu, num dos erros mais toscos da história das Copas, facilitou a vitória, mas é inegável que Ozil, Podolski e esse surpreendente Müller deitaram e rolaram em campo. Com um pouco mais de empenho, a goleada poderia ser ampliada. Pela disposição das equipes, foi o melhor embate da Copa até aqui e recolocou a Alemanha entre as fortes candidatas ao título.
No jogo da noite, a Argentina consolidou a imagem que vinha construindo na primeira fase: de um time que não se conforma em fazer um gol. Busca sempre marcar mais e mais. Ataca o tempo todo, utilizando muito bem o talento individual de Messi, Tevez, Higuaín, Maxi Rodriguez e Di Maria. Disse, no começo da Copa, que os que têm craques chegam mais longe. Felizmente, essa premissa vem se confirmando.
Para azar de ambos, porém, o confronto direto nas quartas de final privará o torneio de um dos dois melhores times até aqui. Vamos torcer para que apareçam outros e que o Brasil esteja entre eles. Diante do Chile, logo mais, pode se materializar o começo de uma nova postura do time na competição, saindo do meio dos medianos e encarando de frente sua responsabilidade com o futebol bem jogado.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta segunda-feira, 28)

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