Conexão África (13)

Uma Seleção sem espaço para surpresas

Todas as pesquisas publicadas sobre a Copa colocam o Brasil ainda entre os favoritos a levantar a taça. Ligeiramente abaixo da Argentina, é verdade, mas sempre lá no topo. Talvez seja sempre assim enquanto o futebol for do jeito que é hoje e as pessoas lembrarem das glórias do passado. Com cinco Copas conquistadas, participação ininterrupta em todos os mundiais, legado de dezenas de craques fora-de-série e pelo menos dois gênios inatingíveis (Pelé e Garrincha), a Seleção Brasileira tem mesmo que ser lembrada entre as maiorais, mesmo quando visivelmente não vem com sua melhor formação, como desta vez.
É uma dessas ocasiões em que a entressafra fala mais alto e os craques rareiam. Mesmo num país que parece ser imbatível na produção de jogadores diferenciados, de vez em quando surge uma estiagem. A rigor, na seleção atual, somente Kaká pode ser considerado acima da média – e para nosso azar não está 100% fisicamente. Júlio César, Robinho e Daniel Alves (reserva) vêm logo abaixo, em termos de qualidade técnica. Maicon, Luís Fabiano e Nilmar são os outros nomes de destaque. Os demais estão dentro – ou pouco abaixo – da média das demais seleções, não são melhores nem piores, integram a multidão de mais de 700 jogadores que participam da Copa.
O problema é que o Brasil sempre teve craques em profusão. Mesmo nossas seleções mais contestadas sempre tiveram vários craques, alguns mal escalados, mas mesmo assim presentes no grupo. Desta vez, infelizmente não. Claro que o futebol é dado a surpresas e um desses nomes obscuros que Dunga prestigia pode, de repente, se transfigurar no “leão da Copa”, aquele tipo de jogador especial que aproveita os sete jogos da competição para fazer sua história. Pode ser até no jogo desta noite (aqui em Johanesburgo) contra a Costa do Marfim de Didier Drogba.
Pode, mas é improvável que aconteça. Dos treinos que Dunga não deixou ninguém ver não emergiu nenhuma surpresa. Júlio Batista, Kléberson, Elano, Josué, Grafite, Ramires, Felipe Melo, os Gilbertos. Nenhum desses mostrou apetite para subverter os planos do treinador. Estão lá para compor elenco, completar o time suplente nos coletivos, não querem incomodar ninguém.
Até porque este selecionado tem por princípio a comunhão plena de espíritos, o que significa que um (Dunga) fala e todos obedecem, passivamente.
A lealdade é tão forte, pelo que se observa à distância, que inibe eventuais competições por posições no time, o que é péssimo para o escrete. Seleção, pelo próprio nome, significa a reunião seleta dos melhores. Significa também que todos podem aspirar a camisa de titular. Com Dunga e seu imediato, essa disputa não é estimulada. Vai prevalecer, do começo ao fim da Copa, o time que já veio escalado do Brasil, mesmo que Ramires tenha se sobressaído nos últimos amistosos, dando mais velocidade e fluidez ao jogo. Ou que Nilmar seja uma opção interessante para jogos que não ofereçam espaço para um centroavante típico, como Luís Fabiano.
Nada disso importa e esses próprios jogadores, se perguntados a respeito, dirão que está ótimo do jeito que o chefe decidiu. Eles parecem ter medo das decisões da comissão técnica. Qualquer infração ao código interno pode representar o desterro na Sibéria. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Talvez seguindo esse receituário o Brasil até ganhe a Copa, mas repito o que venho dizendo há três anos e oito meses: será uma caminhada sofrida e sujeita a muitos solavancos.
Mas, caso o título venha, o que é perfeitamente possível, ninguém se importará com esses preciosismos de cronista romântico, apaixonado por futebol de verdade. Assim é o esporte, assim é a vida.  

Falta de iniciativa pode custar muito caro

Quando vi na sexta-feira a Alemanha entrar pelo cano contra a Sérvia fiquei imaginando o que nosso Capitão do Mato achou do jogo. Deve ter virado para quem estava ao lado e disse: “Não era essa a seleção maravilhosa, que encantou todos os jornalistas? Foi jogar esse futebol solto e está aí correndo risco de eliminação”. A essa observação hipotética, mas plenamente coerente com o discurso do treinador, eu acrescentaria que a Alemanha foi quase igual ao Brasil da estreia. Jogou com a mesma incapacidade criativa e insistiu nos toques laterais. Diante de um time decidido, prático e objetivo, se deu mal. É o que pode ocorrer com a Seleção, caso encare times mais taludos e dispostos a aproveitar as hesitações do meio-campo e os espaços
defensivos vistos contra a Coreia do Nort – apesar de estarem ali quatro zagueiros e dois volantes fixos, que raramente ultrapassam os limites do meio-campo. Ausência de iniciativa também é um pecado que pode custar caro em Copas.

A Copa das zebras?

Na Copa mais imprevisível dos últimos tempos, quase todo mundo pode se dar bem – e quase todos também podem se dar muito mal. Do pelotão dos
cotados para o título, somente Argentina, Holanda e Brasil permanecem sem tropeçar. Alemanha, Inglaterra, Espanha e Itália já se atrapalharam pelo caminho. E surge, de repente, um pelotão de emergentes a fim de surpreender. Chile, Eslovênia, México, Paraguai, Gana, Sérvia e Uruguai correm por fora, desafiando suas limitações e o ceticismo geral, mas podem chegar. Pela pinta, a Copa sul-africana pode reservar surpresas e zebras ainda maiores nas fases de mata-mata.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 20)

Deixe uma resposta