Por Sírio Possenti (De Campinas, SP)
No dia seguinte à eliminação do Corinthians, pipocaram e-mails com materiais humorísticos. Todos se divertindo com a derrota do projeto de timão. Houve belas sacadas. Mas também muita grosseria, já que o estereótipo do corintiano é o pobre e/ou bandido. Aliás, o fato deve ser motivo de reflexão dos sociólogos (na verdade, já foi). Há uma sequência fortemente ideológica nos estereótipos: o time de massa passa a ser time de pobre, o time de pobre passa a time de bandido (assim como o São Paulo passa de time de rico a time de gente fina (basta ver as falas do presidente sobre o perfil de seu técnico), e de time de bacanas a time de “bambis”.
O interessante, no caso do Corinthians, é que os torcedores de todos os outros times se divertem com seu fracasso. Nada semelhante acontece quando quem perde é o Palmeiras ou o São Paulo.
Acho que Freud explica. Ocorrem fenômenos semelhantes na política. O partido mais criticado é o partido do qual se acabou de sair (aquele no qual se gostaria de ter ficado?). Foi abandonado ou porque não se conseguiu espaço para uma candidatura ou porque não foi mais possível exercer nele um papel ideológico relevante. Esse partido torna-se uma espécie de Outro, e esse Outro é o que o Eu não pode ser, mas gostaria de ser, se não fosse o que é.
Acho que o que acontece se deve ao fato de que todos os torcedores dos ouros times, se não torcessem por eles, torceriam pelo Corinthians.
(Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso e Língua na Mídia)
Será? Há controvérsias.

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