Pensata: Todos contra e felizes

Por Sírio Possenti (De Campinas, SP)

No dia seguinte à eliminação do Corinthians, pipocaram e-mails com materiais humorísticos. Todos se divertindo com a derrota do projeto de timão. Houve belas sacadas. Mas também muita grosseria, já que o estereótipo do corintiano é o pobre e/ou bandido. Aliás, o fato deve ser motivo de reflexão dos sociólogos (na verdade, já foi). Há uma sequência fortemente ideológica nos estereótipos: o time de massa passa a ser time de pobre, o time de pobre passa a time de bandido (assim como o São Paulo passa de time de rico a time de gente fina (basta ver as falas do presidente sobre o perfil de seu técnico), e de time de bacanas a time de “bambis”.

O interessante, no caso do Corinthians, é que os torcedores de todos os outros times se divertem com seu fracasso. Nada semelhante acontece quando quem perde é o Palmeiras ou o São Paulo.

Acho que Freud explica. Ocorrem fenômenos semelhantes na política. O partido mais criticado é o partido do qual se acabou de sair (aquele no qual se gostaria de ter ficado?). Foi abandonado ou porque não se conseguiu espaço para uma candidatura ou porque não foi mais possível exercer nele um papel ideológico relevante. Esse partido torna-se uma espécie de Outro, e esse Outro é o que o Eu não pode ser, mas gostaria de ser, se não fosse o que é.

Acho que o que acontece se deve ao fato de que todos os torcedores dos ouros times, se não torcessem por eles, torceriam pelo Corinthians.

(Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso e Língua na Mídia)

Será? Há controvérsias.

12 comentários em “Pensata: Todos contra e felizes

  1. Nao ha controversias, Gersom, ele esta errado mesmo. O fato e que o time montado pelo Curintia e fraco. O dinheiro gasto com o R. Carlos dava pra contratar dois ou tres jogadores razoaveis pra encaixar no elenco. Entre eles, um nove que marque gols, tipo Washington, pra fazer sombra ao idolo gordo. Sem um reserva bom, ele seguira fazendo o que faz: muito pouco.

  2. Por aqui alguns pensam assim sobre a torcida do Paysandu, por ser a maioria pobre, associa-se os torcedores e dirigentes a bandidos, quando isto, ser bandido, não é privilégio de classe ou clube algum.

  3. TAMBÉM ACHO que não há controvérsias. O professor Sírio Possenti está certíssimo. O Corinthians é um fenômeno de popularidade, que, com a ajuda da mídia paulista, conquistou milhões de simpatizantes além das fronteiras do estado de São Paulo, e, exatamente por ser popular, atrai contra si também o antagonismo de outras torcidas, que gostariam de ver seus times assim tão populares, mesmo não conseguindo ganhar muitos títulos relevantes. Note-se que o Corinthians ficou 23 anos sem ganhar um titulozinho sequer, e ainda assim o número de seus torcedores foi se multiplicando a cada ano. Com relação ao ‘fenômeno’ Ronaldo e ao ‘velhinho’ Roberto Carlos, essas duas caras deram, se não o futebol esperado, pelo menos um enorme espaço na mídia. E, diga-se, que propaganda também ajuda muito – que o digam os profissionais de mídia, incluindo o ilustre jornalista autor deste blogue – não fosse assim o Flamengo, do qual não sou adepto, não seria o campeão de popularidade do Brasil, graças não só a vitórias mas principalmente à grande difusão das rádios Nacional, Globo e Tupi, desde os anos 30, 40, 50 e 60. Um grande abraço a todos aqui do já friento sudoeste paranaense.

  4. QUANTO à torcida do Paysandu, também não há controvérsias: é histórica a participação de dirigentes honestos nesse clube de futebol, por sinal bastante endinheirados. Já o Remo, continua a ser um fenômeno de popularidade, mesmo não ganhando títulos relevantes há alguns anos.

  5. Existe um motivo pelo qual todos torceram contra o Corinthians: petulância. Ninguém aguentava mais a postura arrogante do Andre Sanches, reproduzida por boa parte dos seus torcedores, que já dava como ganha a Libertadores (e todos os outros títulos disputados, diga-se de passagem) no tal ano do centenário. Bem feito!

    Pelo mesmo motivo em outros tempos todo mundo ficou feliz ao ver o São Paulo cair — quem aguentava a grosseria gratuita do Muricy e o péssimo costume do diretor do time que não aceitava perder? Assim como Rogério Ceni, que nunca admite que falha.

  6. Isso só mostra a grandeza do Corinthians
    Quando o time Paulista foi eliminado da libertadores na quara feira, na quinta no jogo entre Inter x Banfield vi a torcida colorada com varios caixões do corinthians nas arquibancadas do beira-rio. Se fosse o Flamengo eliminado a gente não ía ver nenhum caixão, mas como foi o Corinthians…

    1. Talvez por que o time colorado, merecedor de fato do caneco nacional em 2005, foi garfado. E teve como algoz o Timão…

  7. Isso tudo pelo seguinte aspecto: o corinthiano é alimentado por uma falsa ilusão de grandeza fornecida pela imprensa esportiva bairrista de São Paulo. Esta faz a torcida crer que o time é “todo poderoso”, o “maior time do mundo” (sem reconhecimento mundial e nem continental, o que é um paradoxo), forjando no corinthiano um sentimento de arrogância enviesado por uma “superioridade” que não existe. Senão vejamos: é o único time da capital sem estádio próprio (até a Portuguesa tem o seu) e é o único do “trio de ferro” sem conquintas a nível continental. Talvez, essa levantada de bola do Corinthians seja uma forma de compensar sua desvantagem abissal perante os demais.

  8. AINDA acho que no Corinthians a cobrança é demais, justamente por ser grande. Demorou ‘só’ 23 anos para conquista um título, o paulista de 77. Se fosse um time menos cobrado poderia ter ficado 10 ou 12. Quanto à Libertadores, é também muito cobrado em razão de Palmeiras, São Paulo e Santos já terem sido campeões desse torneio. Mas ninguém fala no primeiro título mundial (2000) patrocinado pela Fifa, se tivesse sido o Vasco o campeão, todo mundo daria valor. É isso aí, ninguém atira pedras em cachorro morto.

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