As duas maiores revistas semanais do país fizeram leituras diametralmente opostas da principal notícia deste começo de ano: a prisão do governador José Roberto Arruda, posto em cana por chefiar uma poderosa organização criminosa no governo do Distrito Federal. Autoproclamada guardiã da direita brasileira, Veja que está nas bancas optou pelo comedimento editorial, atitude incomum quando aborda casos dessa natureza envolvendo políticos não alinhados com o tucanato.
Deu uma capa inacreditável, destacando uma matéria gelada sobre a moda de dietas e reservou um cantinho para a chamada tímida do escândalo de Arruda. Aliás, no ano passado, a revista da Editora Abril chegou a publicar uma entrevista em seu espaço nobre para que Arruda falasse da “revolução administrativa” que estaria em marcha, com presepadas como reunir todos os secretários num só gabinete, abrindo caminho para seu possível lançamento como candidato a vice na chapa de José Serra nas eleições presidenciais deste ano. Depois disso, viriam à tona os detalhes de um acordo comercial envolvendo a distribuição de revistas do grupo Abril na rede escolar do DF.
Já Época, do grupo Globo, fez jornalismo: abriu capa e mais seis páginas internas para desnudar o esquema do mensalão do DEM em Brasília, com direito a infográfico revelador de todas as peças da engrenagem de Arruda. Logo na abertura, o título “Acabou a folia de Arruda” não deixa margem a dúvidas. A revista assinala, corretamente, o aspecto histórico da prisão do governador em pleno exercício do mandato.
Apesar da velha prática de amaciar em relação às patifarias de aliados seus, como a enrolada governadora tucana Yeda Crusius (RS) ou o senador Artur Virgílio (PSDB), que se locupletou de verbas do Senado em passeio a Paris, o espantoso é que, em pleno feriadão do carnaval, quando o noticiário é rarefeito, um assunto dessa magnitude tenha sido quase ignorado por Veja, que ainda procurou comparar as falcatruas de Arruda a outros episódios da vida política brasileira, com o mal disfarçado objetivo de atenuar o peso das bandalheiras do panetone no DF.
Como costuma dizer a conservadora revista dos Civita, Veja (mais uma vez) errou – e feio.
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