Coluna: Os senhores da história

Durante a semana pré-carnavalesca, tive a oportunidade de ver por duas vezes no canal Sportv, com o mesmo vivo interesse, o documentário sobre a Copa do Mundo de 1958, que marcou o começo da arrancada brasileira rumo à hegemonia mundial. Duas cenas impressionam nessa verdadeira aula do futebol como grande arte, num mundo no meio do caminho entre as reinações beatniks e a explosão de Beatles e Rolling Stones. 
A primeira foi o golaço de Pelé, depois de lençol sobre o zagueiro francês, nas semifinais da Copa. O lance, um dos mais bonitos da história das Copas e resultante do mais puro talento brasileiro, encantou a todos no estádio e levou os fotógrafos a entrarem no gramado para registrar a comemoração que depois seria vista como o ritual de iniciação do futuro Rei do Futebol.
Foi um instante especial, que levou a partida a ser paralisada por alguns minutos, com a arbitragem e a torcida reverenciando a jogada iluminada daquele garoto de 17 anos. Curiosamente, pela movimentação dos fotógrafos, há certa semelhança visual com a cena do milésimo gol, que ocorreria dali a apenas 11 anos.
O outro grande registro do documentário é a presença exuberante de Mané Garrincha, o anjo torto, envergando a camisa 11 da Seleção, desbravando defesas com o célebre drible para um lado só.
Além disso, as câmeras inquietas dos documentaristas suecos flagram outra virtude genial do ponta-direita que encantou o mundo: sua destreza para o cruzamento à meia-altura, com destino certo, quase um passe para os atacantes que se posicionavam para o arremate final.
É interessante revisitar a história na tela da TV e observar que dos gols marcados pelo Brasil naquele mundial pelo menos a metade veio dos cruzamentos certeiros de Garrincha, um atleta mais maduro que Pelé, mas também um desconhecido para as platéias internacionais.
O filme da Copa de 58 é generoso na exibição de estupendas performances dos franceses Fontaine, Piantoni e Kopa, do húngaro Sándor, dos alemães Uwe Seeler e Rahn, do tcheco Masopust, do russo Lev Yashin e do argentino Corbatta. Mas, acima de tudo e todos, paira a magnética presença brasileira, através de Didi, Nilton, Zito e dos dois gênios já citados. 
 
Outro aspecto a ser ressaltado : a importância de Vavá, o pernambucano apelidado justificadamente de Leão da Copa. Pouco cotado no Brasil antes da conquista mundial, o centroavante foi decisivo em quase todos os jogos. Não enfeitava, batia na bola como ela vinha, quase sempre sem errar.
Deve-se ao ímpeto de Vavá a entrada quase sempre fulminante do Brasil em todos os jogos, como se o time tivesse urgência em construir a vitória. Contra os russos, um exemplo fiel dessa estratégia: antes de um minuto, Garrincha mandou bola na trave e Pelé obrigou Yashin a fazer grande defesa. O bombardeio se completou aos 3 minutos com gol de Vavá. Sem dúvida, um senhor time de futebol, tão bom quanto o de 70. 

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 14)

Deixe uma resposta