Vi e revi o lance inúmeras vezes, até porque não há jeito de escapar, visto que a TV está repetindo exaustivamente. O gol de letra é saudado como a quintessência do futebol-arte e outras patacoadas do gênero. O que tem de cristão-novo cantando loas a Robinho pela finalização em cima de Rogério Ceni não está no gibi, como se dizia nos idos de 76. O tal jeito moleque é exaltado a cada cinco minutos, numa explosão de unanimidade que, de tão chata, imediatamente me põe na oposição.
Eu sei, esse oba-oba tem um quê de pragmatismo. Muita gente já se apressa em trabalhar o clima ufanista de “pra frente, Brasil”, de olho na Copa do Mundo e no hexa. É o chamado marketing de resultados. Robinho, com o sorriso aberto que conhecemos, aquele ar maroto de eterno pedaleiro (misto de peladeiro com autor de pedaladas), é a bola da vez.
Perfil afinado com a imagem macunaímica do brasileiro comum, gentil, boa-praça e festeiro. Símbolo perfeito para o pachequismo de plantão, alimentado pelas figuras de sempre. Robinho, diz Galvão Bueno, recuperou a alegria de jogar futebol. Está mais leve e solto.
Depois do gol de letra do filho pródigo do futebol canarinho, o script está quase desenhado para apresentar à massa ignara: festa praticamente garantida nas arquibancadas e o Brasil inzoneiro e bom de bola só precisa ensaiar o desfile rumo às tribunas de honra do estádio de Joanesburgo, para pegar a Taça Fifa e trazer para casa. Fácil assim.
Recordo que tivemos esse mesmo clima ufanista cercou Ronaldo Fenômeno, Adriano e, há poucas semanas, Ronaldinho Gaúcho. A empolgação é geral, fanfarras invadem as ruas. Tudo em nome do futebol mais dançarino do mundo, capaz de desmanchar todos os nós e retrancas.
Só espero que Robinho, que refugou no galáctico Real Madri, forçou saída para a Inglaterra e acabou no clube errado – queria o Chelsea –, tenha reencontrado a condição de atleta profissional. Significa que se dedicará a treinos, tentará jogar regularmente. Afinal, jovem ainda, já é quase um veterano em andanças pelo mundo. E carrega uma eterna contradição: alterna momentos de Denílson com lampejos de Messi.
Por essa razão, o magistral gol de domingo só terá meu pleno respeito se for o sinal de uma fase estável e duradoura. Parece heresia falar assim, mas é bom não esquecer que Robinho sempre consegue fazer estréias monumentais, inesquecíveis. Foi assim em Madri, quando vestiu pela primeira vez a alva camisa do Real. Também arrebentou ao debutar pelo City. Será que vai quebrar a escrita nessa volta ao Peixe? Tomara.
Rogério Ceni reclamar da paradinha de Neymar é assim como o roto falar do esfarrapado. Já vi o goleiro cobrar pênaltis com parada ainda mais demorada. Como também já testemunhei o ídolo tricolor se adiantar acintosamente na hora fatal, com a conivência de árbitros frouxos. Quem se mete a malandro não pode reclamar de malandragem.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta terça-feira, 9)
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