Coluna: Sob o signo da bagunça

Credibilidade é alma e arma de qualquer negócio. Credibilidade é tudo que falta ao futebol paraense, há anos. Credibilidade foi o artigo pisoteado nas últimas 72 horas pelos donos do campeonato estadual. Um imbróglio envolvendo o Cametá, que se arrasta há semanas, quase inviabilizou o campeonato. O torcedor, cabreiro com tantas escaramuças, fica no meio do tiroteio, sem entender como se complica um negócio tão simples. Os patrocinadores tendem a se retrair diante de tanta bagunça.
Por um erro de origem, configurado na inclusão do Cametá (a convite) na fase anterior do torneio, Castanhal e Tuna apelaram à Justiça. Foram atendidos inicialmente. Horas depois, o próprio tribunal recuou e autorizou o cumprimento da rodada inaugural do Parazão, mesmo sob o risco iminente de paralisação mais à frente.  
Cabe observar, porém, que o estrago já está feito. Competição que precisa se consolidar financeiramente não pode começar tão mal. Os dirigentes têm razão ao protestar e cobrar a reparação de seus direitos, mas erram quando concentram a fúria em castanhalenses e tunantes.
Os dois clubes agiram dentro do que a lei permite. Entendiam que o início do campeonato prejudicaria suas ações na Justiça. O Tribunal de Justiça Desportiva acatou a argumentação na tarde de sexta-feira e decidiu suspender a competição até que o mérito fosse julgado.
Frustrados com o posicionamento do TJD, dirigentes de Remo e Paissandu apressaram-se em alardear os prejuízos causados aos clubes pela súbita decisão. O adiamento causaria, de fato, transtornos e despesas extras. Luiz Omar, do Paissandu, atacou os reclamantes e chegou a defender “a lisura” com que a federação teria agido na questão.
Ocorre que todos os protestos pelo amadorismo da situação devem ser direcionados ao único responsável pela confusão: a FPF, que convidou o Cametá ante a desistência do Pinheirense, prática que agride o Estatuto do Torcedor. Justificou a decisão com um critério técnico inexistente e insustentável. Prevaleceu o manjado arranjo politiqueiro. Pouco interessa se o campeonato ficou exposto a ações judiciais. O que importa é que o artifício rendeu preciosos votos para reeleger a atual diretoria.
O torcedor, como de hábito, foi solenemente ignorado, mas pode vir a ser o maior prejudicado no fim das contas. Campeonatos dependem de regulamentos bem redigidos, imunes a contestações. Os nossos são toscos, pontilhados de incoerência e itens polêmicos. Constituem prato cheio para as arengas de tribunal. Nada é por acaso.
 
 
E que ninguém se iluda: a presença do Cametá vai funcionar como bomba de efeito retardado, pronta a ser detonada quando for conveniente a um dos clubes disputantes. Assim, corre-se o sério risco de acompanhar um campeonato de faz-de-conta, marcado para morrer nos tribunais. 

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 17)

5 comentários em “Coluna: Sob o signo da bagunça

  1. O IMBRÓGLIO CONTINUA, E AINDA PIOR:

    Com que surpresa acabei de ouvir numa rádio o próprio presidente do tribunal da FPF, André Silva de Oliveira, declarar ser ILEGAL a cassação de sua liminar, pois um mero relator não tem poderes para derrubar a liminar de um presidente de tribunal. E falou com todas as letras que a rodada de hoje é NULA, não tem validade alguma e quem for derrotado pode recorrer, pois vai ganhar.

    O reinicio, sem base legal, foi feito na marra, numa acerto entre o Nunes e o tal relator, devido aos muitos interesses envolvidos. Encerrada a rodada, os derrotados irão protestar.

    Consequências da politização do campeonato, em todos os níveis. Pelo que percebi, há grandes chances de o certame não terminar.

    1. Para ver o nível da coisa, Cleiton. Se existe a possibilidade (e eu não duvido) de arranjo entre o coronel-presidente e um relator de tribunal aí, realmente, o desastre é absoluto, sobretudo no aspecto moral. Repito: do jeito que vai (com remendos no regulamento e contestações jurídicas), este campeonato não termina bem, infelizmente.

  2. Concordo em genero ,numero e grau com vc Gerson.E A recorrencia e analogia entre o Cametá e a bomba relogio foi perfeita…essa primeira rodada será td refeita…os perdedores irão recorrer e o campeonato será paralisado.Triste futebol paraense…Alguem por favor se habilite a por Ordem -com maiúsculo mesmo-no futebol local,do contrario o que seria o inicio de uma década de ressurgimento no cenario nacional pra Paysandu ,principalmente,e outros menos votados ,será um suplicio sem fim.

  3. Gerson, nao li o regulamento, mas se houve irrgularidade na primeira fase e contaminar a segunda, o campeonato da segunda e da primeira divisoes do ano que vem nao correm risco tambem?

  4. Gerson, tenho de discordar de seu raciocínio, e explico porque:

    – Em direito, existe um princípio que uma nulidade deve ser denunciada assim que a parte prejudicada tiver a oportunidade de falar nos autos.

    – Neste caso, que acompanhei meio à distância, tem-se que com a desistência do Pinheirense, o Cametá teria sido convidado para participar da fase principal. Convite é o termo usado pelos que defendem a ilegalidade, sendo que a FPF nomeia como “critério técnico”.

    – E isto se deu em atendimento ao próprio Estatuto do Torcedor, pois a primeira fase do Parazão, pelo regulamento já vigente, deveria ser disputado por 10 equipes. Se fosse disputado apenas por 9, alguém suscitaria alguma irregularidade, pois também existiria.

    – Analisando friamente, quem foi prejudicado diretamente, na minha opinião, não foi nem Tuna nem Castanhal, e sim o Pedreira, que o penúltimo colocado da 1ª fase de 2009, vindo a ser rebaixado para segundinha desse ano. Quando o Pinheirense desistiu, entendo que automaticamente a FPF deveria ter recolocado o Pedreira na 1ª fase deste ano, por questões óbvias. Entretanto, isto não ocorreu, e nem o Pedreira chiou. Se não chiou, ocorreu a preclusão (perda por falta de iniciativa ou perda de prazo) do direito.

    – O que ocorre, salvo melhor juízo, é que é uma imoralidade Tuna e Castanhal virem alegar a ilegal participação do Cametá somente depois de terminada a 1ª fase do Parazão, quando os dois ficaram de fora do G4.

    – Tanto um quanto o outro não se manifestaram quando o Cametá foi incluído, o que representa uma aceitação tácita da situação. E não só isto: ambos entraram em campo contra o Cametá, dando cada vez mais aquiescência à sua participação e à atitude da FPF.

    – Aposto que se ambos tivessem se classificado, sequer a ilegalidade da participação do Cametá seria aventada, e curiosamente isto somente veio à tona depois de a Tuna perder em Cametá e correr o risco de ficar mais uma vez de fora. Corda esta foi tomada pelo Castanhal também.

    – Enfim, entendo que o momento dessa discussão já passou, por pura preclusão mesmo.

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