Opulência e miséria, lado a lado

Sempre que a CBF anuncia novo patrocinador e, por tabela, revela que está abarrotando ainda mais seus fornidos cofres, soa mais incoerente a relação que a entidade máxima do futebol no país sustenta com os clubes. Nem me refiro aos primos pobres, emergentes e participantes das divisões inferiores, falo das grandes agremiações, aquelas que realmente movem o moinho, que dão as cartas em termos de preferência popular.

O mais novo parceiro é a Gillette do Brasil, que vem se juntar a um seleto grupo de anunciantes, que, com crise mundial e tudo, garante à CBF receita anual estimada em quase R$ 80 milhões (incluindo a venda de direitos de transmissão das competições oficiais), segundo cálculos conservadores.

Foi o quarto acordo firmado desde o ano passado – os demais foram com Itaú, Vivo e Nike. É uma dinheirama fabulosa, acima do faturamento de qualquer outra confederação no planeta. E que vai aumentar, pois já se anuncia espaço nos uniformes para mais quatro clientes.

Diante disso, como ficam os clubes, instituições sagradas, sustentáculos do nosso futebol? Vivem de pires na mão, salvo as exceções de sempre (S. Paulo, Inter e, vá lá, Cruzeiro). Dependem dos humores da CBF e precisam tratá-la com o servilismo próprio dos incapazes. Não por acaso, a cada novo sinal de prosperidade da confederação fica no ar um quê de constrangimento entre os plebeus.

 

Para amealhar patrocínios milionários, a CBF explora à exaustão seu carro-chefe: a Seleção. O escrete nacional, como se sabe, é atemporal, não podendo ser avaliado pelo que representa hoje, mas por tudo que colecionou em glórias e taças ao longo da história.

Por esse prisma, os clubes, que serviram de base para que a Seleção conquistasse cinco títulos mundiais, mereciam compensação mais expressiva que as esmolas que hoje são obrigados a aceitar. Na verdade, teriam direito a reivindicar um reembolso pela inestimável contribuição para o futebol no Brasil.

 

A boa fase está deixando Ronaldo cada vez mais solto, com a língua leve para entrevistas, como nunca se desconfiou que fosse capaz. Na Alemanha, em 2006, entediado e sorumbático, praticamente não abria a boca – nas coletivas de imprensa. Anda tão desembaraçado que às vezes até se arrisca a fazer piadinhas e dar cutucadas nos jornalistas, ciente de seu imenso crédito e prestígio com o torcedor.

Depois de reclamar da bagunça que foi a cerimônia de premiação dos campeões paulistas, no domingo, ele voltou a deitar falação no término do jogo com o Atlético-PR, anteontem. Fez questão de dividir os méritos pelo bom momento com os companheiros de time, a turma que carrega o piano para que ele desfrute de oportunidades lá na frente, sem a responsabilidade de marcar ninguém. Gesto maduro, que supera qualquer viés marqueteiro.

 (Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO, desta sexta-feira, 08/05)

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