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Autor: blogdogersonnogueira
Paraense de Baião, filho de Benedita e José, pai de Pedro Vítor e João Gerson. Jornalista profissional, 48 anos de estrada. Diretor de Redação do jornal Diário do Pará de fevereiro de 2004 a maio de 2015. Exerce atualmente a função de Editor Responsável. Comentarista esportivo da Rádio Clube do Pará e do programa Bola na Torre (TV RBA), desde 2006. Editor e colunista do caderno Bola desde 1998. Correspondente do grupo RBA (jornal, TV e rádio) nas Copas de 2006 (Alemanha), 2010 (África do Sul), 2014 (Brasil) e 2022 (Qatar). Repórter, editor e chefe de reportagem dos jornais A Província do Pará e O Liberal, entre 1978 e 1987. Chefe de jornalismo da TV Cultura do Pará, em 1987/1988. Diretor de jornalismo da RBA, de 1989 a 1996, corresponsável pela criação do programa Camisa 13 e criador do programa Barra Pesada.
Consumidor de rock, cinema, livros, quadrinhos e cultura pop em geral. E muito botafoguense, claro!
“Em Gaza, o mundo assiste a um genocídio ao vivo de um povo massacrado por um regime nazista. E trata como ‘operação de defesa’. Na Venezuela, o mundo assiste ao vivo à invasão de um país soberano e a um sequestro de um presidente legítimo. E trata como ‘julgamento’. Dá nojo”.
A bola está com Lula, não fosse por suas virtudes, mas pela relevante razão de que somos um país de analfabetos disfuncionais
Por Luis Nassif
A invasão da Venezuela e o sequestro do seu presidente pelos Estados Unidos, joga definitivamente a América Latina na mais profunda imprevisibilidade. Os sonhos brasileiros, de uma potência soberana e desenvolvida, passam a ser profundamente ameaçados.
Os elementos para o grande salto estavam aí:
Reservas estratégicas de terras raras.
Abundância de energia verde.
Uma boa base científico-tecnológica.
A parceria potencial com a China e com os BRICS, abrindo as perspectivas de uma cooperação proveitosa.
A liderança do Sul Global, abrindo enormes possibilidades geopolíticas para o país.
Tudo isso é passado. A invasão da Venezuela marca definitivamente o fim da autonomia das nações, da mediação dos organismos multilaterais, das negociações como saída para os conflitos.
A história está repleta de exemplos, a Pax Romana, a Espanha dos Habsburgo sobre a América Latina, a Guerra dos Ópios, do Império Britânico contra a China, as sucessivas invasões norte-americanos no pós-guerra.
O padrão é sempre o mesmo.
Ascensão econômica
Supremacia militar
Narrativa moral (“civilizar”, “libertar”, “defender”)
Uso seletivo da força
Declínio quando o custo supera o benefício
Entra-se na nova quadra com o Brasil partido ao meio.
De um lado, tendo de enfrentar seus demônios internos: a invasão do mercado e do Congresso pelo crime organizado.
Os problemas de governabilidade trazidos pelos apropriação do Congresso pelo crime organizado.
A ofensiva contra o Supremo Tribunal Federal, facilitada pela falta de um código de conduta no órgão.
Uma mídia sem a menor noção do que seja interesse nacional, sem uma bússola sequer, resultando em uma cobertura caótica e sem discernimento.
O único fator de coesão no país continua sendo Lula, mas sem o reforço de qualquer plano de desenvolvimento sólido, sem qualquer perspectiva de futuro, para propor o grande pacto nacional.
Todos os gestos passivos foram tentados para o grande pacto. Tem-se um governo claramente de centro, respeitador das instituições, empenhado em reconstruir as bases do Estado nacional, atuante nas questões de soberania, quando afrontada pelas ameaças de Trump, e ousando políticas sociais básicas.
Fosse um país minimamente informado, Lula representaria a tal terceira via, que a imprensa vive apregoando e ninguém sabe, ninguém viu. Mas é vítima de um preconceito social típico de republiquetas latino-americanas. Ironiza-se muito o pensamento primário das bancadas bbb (boi, Bíblia e bala), mas o veículo que deveria ser o instrumento dos grandes temas nacionais – a mídia corporativa – compartilha do mesmo primarismo.
E esse primarismo contamina todos os setores da vida nacional. Não existem mais lideranças industriais, comerciais, bancárias, de pequenas e micro empresas. Apenas uma enorme balbúrdia em torno do que é ou não é gastança.
A bola está com Lula, não fosse por suas virtudes, mas pela relevante razão de que somos um país de analfabetos disfuncionais, com cada qual querendo levar seu quinhão sem a menor noção sobre o conjunto.
Lula tem que pensar seu plano de metas, seu New Deal. Anos atrás, no dia do AVC de dona Marise, participei de um evento com Lula. Fiz minha palestra, joguei um monte de provocações para Lula. E o discurso que ele fez continha todos os elementos de um projeto de país: abordava todos os temas relevantes para o país (educação, inovação, integração econômica, saúde) com a linguagem acessível ao cidadão comum. Comentei com um colega que apenas uma bala pararia Lula (parafraseando um dito comum nos tempos de Muhammad Ali).
Depois disso houve a prisão, a volta gloriosa, a administração política de um país partido ao meio. E o veneno bolsonarista espalhado por todos os poros da Nação.
Mas é hora de Lula dar-se conta da necessidade de traçar um projeto que aponte o futuro. Os bons indicadores de 2025 não bastam. Ele tem que colocar o país para pensar o que queremos ser, da mesma maneira que JK com o Plano de Metas e Roosevelt com o New Deal.
No sábado (3), o meia-atacante Yago Pikachu compareceu à sede do Clube do Remo, vestiu a camisa e falou pela primeira vez como jogador azulino. Depois de se tornar ídolo no maior rival, Paysandu, onde iniciou a carreira profissional, ele contou em entrevista ao “Rei Cast” (Remo TV) que era torcedor do Leão antes de se tornar jogador profissional.
“Não vou mentir, até porque está sendo uma repercussão muito grande a minha vinda para cá. Como falei, os mais próximos de mim, principalmente dos meus familiares, sabem que a minha família é toda remista, meu pai, minha mãe. O meu pai me levava muito para o jogo do Remo, então eu tinha esse sentimento, tinha esse carinho, mas depois eu fui profissional, como todo profissional”, afirmou Pikachu.
Em seguida, ele respondeu com um “É isso aí” ao ser perguntado sobre torcer pelo Remo. Pikachu recordou, inclusive, sobre a passagem que teve pelo Leão antes mesmo de ir para o Papão. Ele comentou que se sagrou campeão pelo time sub-15 de futsal azulino sob o comando de Netão (atual técnico do futebol sub-20).
“Quem é mais próximo de mim, meus amigos, familiares, sempre soube que eu joguei no Remo futsal, na categoria sub-15. Cheguei até a fazer teste no campo, sub-13, mas eu cheguei a jogar aqui e fui campeão com o Netão, que tem muita história aqui, principalmente no futsal do clube. Cheguei a ser campeão paraense aqui, sub-15, então não é um lugar estranho para mim, porque eu passei praticamente uma temporada toda de categorias de base de futsal jogando aqui nesse ginásio [Serra Freire, local da entrevista]”.
APRESENTAÇÃO NO CT DO RETRÔ
Nesta segunda-feira, Pikachu se apresenta para a pré-temporada, que será realizada no CT do Retrô, em Camaragibe (PE). Vai se juntar aos 23 jogadores que já iniciaram treinamentos. O técnico Juan Carlos Osório deverá chegar ainda hoje, 5.
Nos últimos dias, a diretoria anunciou a renovação de contrato com o zagueiro Kayky, que pertence ao Fluminense e disputou a Série B pelo Leão. Ele esteve próximo de fechar com o Mirassol, mas optou por permanecer no Evandro Almeida. Outra contratação é a do zagueiro Thalisson, que defendeu o Paysandu na Série B 2025. Ele pertence ao Coritiba e foi cedido por empréstimo.
O volante Fabio Matheus, 22 anos, que pertence ao Sport-PE, está na mira dos azulinos. Ele atuou pelo Grêmio Novorizontino na Série B. Outro alvo do interesse do Remo é o atacante Maurício Garcez, que esteve no PSC em 2025 e foi o artilheiro do time na Segunda Divisão. Estão avançadas as negociações para a contratação do lateral-direito João Lucas (27 anos), do Grêmio; do atacante Jajá, do Goiás; e do volante Patrick de Paula, do Botafogo.
Um dia depois de tropas americanas invadirem o palácio Miraflores e levarem à força o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua mulher, Donald Trump partiu para a ofensiva contra a sucessora dele, Delcy Rodríguez. Em entrevista por telefone, ele disse que a recém-empossada presidente pagará “um preço muito maior” que o de Maduro, caso “não faça a coisa certa”. O tom é muito diferente do empregado pelo próprio Trump na véspera ao afirmar que Rodríguez “estava disposta a fazer o necessário para tornar a Venezuela grande novamente”, incluindo abrir a exploração de petróleo no país às empresas americanas. (The Atlantic)
A ameaça parece ter surtido efeito. À noite, Rodríguez divulgou nas redes uma carta aberta em tom cauteloso, convidando o governo dos Estados Unidos a colaborar em uma “agenda de conciliação”. Segundo a presidente, a Venezuela “deseja viver sem ameaças externas” e seu governo vai buscar uma relação respeitosa e equilibrada com Washington. No sábado, Rodríguez foi mais enfática, dizendo que seu país estava “pronto para defender seus recursos naturais”. (Reuters)
E a retórica agressiva de Trump não se limitou à Venezuela. Conversando com jornalistas a bordo do avião presidencial, ele previu que o governo cubano “parece pronto para cair” já que, segundo ele, só sobrevive por causa de Caracas. Trump também ameaçou o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, acusando-o de gostar de “fabricar cocaína e mandá-la para os EUA”. “Ele não vai fazer isso por muito tempo”, acrescentou. (Politico)
Enquanto Trump mordia, seu secretário de Estado, Marco Rubio, assoprava. Ele concedeu uma série de entrevistas para negar a afirmação do presidente de que os Estados Unidos iriam “governar” a Venezuela. Segundo ele, Washington vai manter o bloqueio a petroleiros sancionados mas não terá qualquer envolvimento na administração do país. De acordo com o secretário, o bloqueio funcionará como pressão para que o governo venezuelano atenda às exigências da Casa Branca. O objetivo das explicações é afastar os temores de boa parte do eleitorado de Trump, o chamado movimento MAGA, de que os EUA se envolveriam em uma prolongada ocupação em território estrangeiro. (AP)
Maduro e a esposa, Cilia Flores, serão levados no fim da manhã de hoje (horário de Brasília) a um tribunal federal em Nova York, onde responderão a um processo por tráfico de drogas e outras acusações. Em condições normais, uma ação desse tipo levaria até um ano para ser julgada, mas a defesa de Maduro deverá questionar a legalidade de sua prisão, classificada por muitos como um sequestro, e até mesmo se ele teria imunidade como chefe de Estado. (New York Times)
Na Venezuela, o ministro da Defesa, Vladimir Padrino, confirmou que membros da guarda pessoal de Maduro foram mortos durante o ataque ao Palácio Miraflores por soldados de elite dos EUA. O general não deu um número exato, mas estima-se que até 80 pessoas, entre civis e militares, tenham morrido no ataque e nos bombardeios americanos. Em pronunciamento, Padrino confirmou que as Forças Armadas reconhecem Delcy Rodríguez como presidente interina e pediu que a população retomasse as atividades diárias. (El País)
Para ler com calma. Ainda que tenha peso simbólico, a prisão de Maduro não alterou de fato a estrutura de governo da Venezuela. Vladimir Padrino, Delcy Rodríguez e seu irmão Jorge e o ministro do Interior, Diosdado Cabello, entre outros, formam um núcleo do chavismo que governa há décadas o país. (BBC Brasil)
Juan S. Gonzalez: “A imagem de Maduro sob custódia nos Estados Unidos cria a imagem de um encerramento. Mas esse não é o começo do fim da longa briga de Washington com a Venezuela. É o fim do começo e o início de uma fase mais difícil e perigosa”. (Foreign Affairs)
Trata-se da implementação do plano de Trump de ‘América para os americanos’ por Jamil Chade A ofensiva dos EUA sobre a Venezuela é a materialização da nova estratégia de segurança nacional de Donald Trump, que coloca o controle sobre a América Latina como uma de suas prioridades, inclusive militares. Ainda que o governo dos EUA ainda não tenha se pronunciado sobre os ataques, alguns dos principais nomes dos republicanos, como a deputada da Flórida, Maria Elvira Salazar, foram às redes sociais para comemorar a ação militar. “Viva o glorioso povo da Venezuela”, escreveu a parlamentar, aliada de Eduardo Bolsonaro e da extrema direita latino-americana.
Hoje, esse movimento nos EUA não esconde suas intenções, que jamais foram a de promover a democracia. O documento, publicado no final de 2025, apontava que as intenções da Casa Branca na América Latina eram a de retomar o controle sobre a região, reinstalar a Doutrina Monroe e ampliar a presença militar no hemisfério.
O plano faz parte do Conselho Nacional de Segurança dos EUA. Se nas últimas semanas o deslocamento de caças e navios de guerra para o Caribe deixou a região em estado de alerta, a “Estratégia de Segurança Nacional” dos EUA agora sugere que essa será a nova realidade do continente. As lutas contra as drogas, contra a imigração e contra a presença de potências estrangeiras – principalmente China – aparecem como prioridade e objetivo. O que chama a atenção de diplomatas estrangeiros é o uso da CIA para “identificar pontos e recursos estratégicos no Hemisfério Ocidental, com vistas à sua proteção e desenvolvimento conjunto com parceiros regionais”.
Os Estados Unidos atacam a Venezuela como quem quebra um espelho para não se ver feio. Na madrugada deste sábado, o espelho estilhaçou-se sobre Caracas, com explosões que iluminaram a base militar de La Carlota e o complexo de Fuerte Tiuna, ecoando nos estados de Miranda, Aragua e La Guaira. O governo venezuelano denuncia uma “agressão militar muito grave”; fontes americanas, anônimas, confirmam a ordem de ataque do presidente Trump. Não é guerra é correção moral armada. Não é política externa é terapia de poder administrada com drones e mísseis, precedida por meses de uma escalada calculada que já se anunciava como um roteiro conhecido.
O império não suporta países que insistem em existir fora do seu roteiro. A Venezuela é esse erro de roteiro: imperfeita, caótica, contraditória, mas ousada o suficiente para não pedir licença. E isso, no mundo “livre”, é imperdoável. Por isso, o discurso vem sempre embalado em celofane ético: “democracia”, “combate ao narcotráfico”, “direitos humanos”. Palavras lindas, limpas, esterilizadas. O problema é que elas chegam precedidas por uma mobilização de 15 mil militares, 13 embarcações e o porta-aviões USS Gerald R. Ford o maior do mundo estacionado a poucas milhas da costa. Chegam após uma sucessão de mais de 30 ataques a embarcações no Caribe e Pacífico, que mataram dezenas sob a acusação de tráfico de drogas. Chegam com o bloqueio “total e completo” de petroleiros, o estrangulamento da principal fonte de renda nacional. Palavras proferidas por homens que jamais sentiram falta de comida, mas decidem quem pode ou não comer, e agora, quem pode ou não viver sob o fogo cruzado.
A cronologia do poder: do decreto à detonação
Para entender a farsa, é preciso encarar o calendário da hipocrisia. Esta não é uma ação espontânea, mas um processo metódico de construção do inimigo:
Fevereiro-março 2025: O governo Trump designa organizações criminosas, como o Tren de Aragua, como grupos terroristas. Usando uma lei de 1798, deporta centenas de venezuelanos para prisões em terceiros países.
Agosto: A recompensa por informações que levem à captura do presidente Nicolás Maduro sobe para US$ 50 milhões. Navios de guerra e um submarino nuclear são enviados ao Caribe.
Setembro a novembro: Começa a campanha de ataques a “narcolanchas”. São pelo menos 20 ações letais, justificadas por um memorando interno que declara um “conflito armado não internacional” contra cartéis de drogas.24 de Outubro: No décimo ataque, a embarcação alvejada é justamente vinculada ao Tren de Aragua o mesmo grupo designado como terrorista em fevereiro, completando o círculo retórico.
28 de novembro: Revela-se que Trump e Maduro teriam conversado por telefone. Dias depois, Maduro, em entrevista, se dizia aberto a “conversas sérias” e oferecia petróleo às empresas americanas.
3 de janeiro de 2026: As bombas caem sobre Caracas.
Os Estados Unidos não atacam apenas Maduro. Atacam a ideia perigosa de que um país da América Latina possa errar sozinho. Porque errar sob tutela é aceitável. Errar por conta própria é subversão. E quando o erro próprio inclui alianças com Rússia, China e Cuba, e a posse das maiores reservas de petróleo do mundo, a subversão torna-se um crime passível de intervenção cirúrgica.
O rosto no espelho: interesse, petróleo e um império cansado
Há algo de profundamente obsceno em um país que exporta guerras como se fossem valores universais. O império fala em liberdade enquanto sufoca. Fala em democracia enquanto escolhe quem pode votar… e quem pode viver. Fala em lei enquanto ignora o próprio Congresso: o senador democrata Ruben Gallego, veterano do Iraque, declarou que “esta guerra é ilegal”. Enquanto isso, o porta-voz da oposição venezuelana endossava a estratégia de Trump, e o líder do governo salvadorenho, Nayib Bukele, atuava como intermediário em trocas de prisioneiros.
A Venezuela virou bode expiatório de um sistema que não tolera desvios. Não se trata de defender governos trata-se de defender povos. E povo nenhum melhora sob bombas econômicas ou mísseis. Nenhuma criança aprende democracia passando fome ou correndo para abrigos às 2h da madrugada. O ataque, contudo, revela menos sobre Caracas e mais sobre Washington. Revela um império cansado, que já não seduz — apenas intimida. Um poder que, desde os tempos de Hugo Chávez sendo chamado de “o Diabo” na ONU e de George W. Bush sendo chamado de “pendejo”, perdeu o argumento e ficou só com o braço.
E nós, aqui embaixo, seguimos assistindo ao espetáculo como figurantes históricos. Com medo de dizer o óbvio: não existe guerra humanitária. Existe interesse. Petróleo. Geopolítica. Controle. O resto é marketing, um espetáculo narrado em posts no Truth Social onde se anuncia a captura de um presidente, enquanto o mundo real testemunha um país em “estado de comoção externa”, com seu povo convocado a ir às ruas para defender a soberania.
Talvez o maior crime da Venezuela seja esse: lembrar ao mundo que o império não é Deus. E que todo império, quando começa a bater demais, já está com medo de cair. Cai quando sua narrativa não mais convence, quando seus próprios filhos questionam sua legalidade, quando a força bruta é a única língua que lhe resta.
E impérios não caem apenas com bombas.
Caem com espelhos.
Quando finalmente são obrigados a se olhar no reflexo distorcido de sua própria violência e enxergar, nas fissuras, não um monstro alheio, mas a própria face cansada da hipocrisia.
O imperialismo americano violou a América do Sul com a intervenção na Venezuela e o sequestro do dirigente Nicolas Maduro, parte do plano do presidente Donald Trump de subjugar os territórios ao Sul do Rio Grande como no tempo da Guerra Fria. Só que hoje não existe uma ameaça comunista como alegado nos anos 60, só mesmo a extrema direita ainda usa este recurso para justificar suas medidas difamatórias.
Este absurdo trumpiano plantou uma séria crise internacional ao bloquear as exportações de petroleo para a China e a Rússia. Trump reanimou a politica do big stick, o porretão, usada por Washington de negociar com o poderio militar como instrumento de subjugação.
A intervenção abre um precedente perigoso. Trump já ameaçou a Colômbia, comprou a Argentina com ajuda de 20 bilhões de dólares, fez acordo de cooperação com o Paraguai que inclui presença militar americana no país e o novo presidente do Chile, de direita, José Kast, tem pontos em comum com Trump.
Nem precisa dizer que o alvo mais importante para o dirigente americano é o Brasil, que já sofreu intervenções com tarifas e aplicação de restrições a membros do Judiciário. A postura firme e digna de Lula levou Trump a agir com mais cautela, mas podemos ter certeza de que somos o principal alvo de sua doutrina hegemonica. Um dos objetivos dele é afastar o território sul americano da China e nós somos o país de maior envolvimento com o socialismo de mercado chinês, temos grande projetos e investimentos com Pequim, nosso principal parceiro comercial.
Trump deve dar força para a campanha da extrema direita neste ano eleitoral, se voltarem ao poder a América Latina regressará ao passado, subjugada aos interesses deles em detrimento dos interesses brasileiros. Assim foi o século 20 inteiro, governos de direita submetidos aos Estados Unidos sem que saíssemos do status de Terceiro Mundo, concentração de renda e submissão aos americanos. Este 2026 precisa ser uma guerra sem quartel pela nossa soberania.
“Quando o mundo decidiu que os EUA deixaram de ser um país para virar um tribunal militar internacional? Não se trata de um debate sobre quem gosta ou não do governo da Venezuela.
Quanto essa medida vai custar para o mundo? Para onde vão os mecanismos internacionais de relações diplomáticas? Que precedente o mundo está abrindo?“
Marcelo Freixo, professor e presidente da Embratur
“Poucas pessoas sentirão qualquer simpatia pelo Sr. Maduro. Ele é antidemocrático e repressivo , e desestabilizou o Hemisfério Ocidental nos últimos anos. As Nações Unidas divulgaram recentemente um relatório detalhando mais de uma década de assassinatos, tortura, violência sexual e detenções arbitrárias por seus capangas contra opositores políticos. Ele fraudou a eleição presidencial da Venezuela no ano passado. Ele alimentou a instabilidade econômica e política em toda a região, instigando um êxodo de quase oito milhões de migrantes.
Se há uma lição fundamental a ser aprendida com a política externa americana no último século, é que tentar derrubar até mesmo o regime mais deplorável pode piorar ainda mais a situação. Os Estados Unidos passaram 20 anos sem conseguir estabelecer um governo estável no Afeganistão e substituíram uma ditadura na Líbia por um Estado fragmentado. As trágicas consequências da guerra de 2003 no Iraque continuam a afetar os Estados Unidos e o Oriente Médio. Talvez o mais relevante seja o fato de que os Estados Unidos, esporadicamente, desestabilizaram países da América Latina, incluindo Chile, Cuba, Guatemala e Nicarágua, ao tentar derrubar governos pela força”.
“A invasão da Venezuela sem nenhuma reação internacional é o fim completo da ordem internacional como criada após a Segunda Guerra. Esse é outro mundo completamente distinto do que conhecemos. O imperialismo mais descarado com dominação militar aberta . Esse é um mundo de guerra”.
Fortes explosões e ruídos de aviões foram ouvidos nas primeiras horas deste sábado (03/01) em Caracas e outras regiões da Venezuela. O presidente americano, Donald Trump, anunciou em sua rede social Truth Social que os EUA capturaram Maduro e sua esposa, e que eles foram levados de avião para fora do país sul-americano. Trump disse que os Estados Unidos realizaram um “ataque em larga escala à Venezuela”.
As operações militares ocorrem após os EUA passarem meses posicionando forças militares no Mar do Caribe, incluindo a presença de navios de guerra e o maior porta-aviões do mundo. O governo venezuelano denunciou o que chamou de “agressão militar gravíssima” dos Estados Unidos contra alvos civis e militares em Caracas e nos estados de Miranda, Aragua, La Guaira, onde estão localizados o aeroporto e o porto da capital do país.
“O governo bolivariano convoca todas as forças sociais e políticas do país a ativarem seus planos de mobilização e repudiar este ataque imperialista”, afirmou o governo, em nota. Caracas também exigiu prova de vida do líder capturado e sua esposa. Enquanto isso, a ONU mantém silêncio e a União Europeia evita criticar o ataque militar norte-americano.
SOBRE NICOLÁS MADURO
A procuradora-geral dos Estados Unidos, Pam Bondi, afirmou que Nicolás Maduro será julgado pela Justiça americana em um tribunal de Nova York. “Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram indiciados no Distrito Sul de Nova York”, disse Bondi, acrescentando que o venezuelano foi “acusado de conspiração para narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína, posse de metralhadoras e dispositivos explosivos, e conspiração para posse de metralhadoras e dispositivos explosivos contra os Estados Unidos”.
“Em nome de todo o Departamento de Justiça dos EUA, gostaria de agradecer ao presidente Trump por ter a coragem de exigir responsabilização em nome do povo americano, e um enorme agradecimento às nossas bravas Forças Armadas que conduziram a incrível e bem-sucedida missão de captura desses dois supostos narcotraficantes internacionais”, afirmou a procuradora-geral.
UNIÃO EUROPEIA EVITA CRÍTICA A TRUMP
A chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Kaja Kallas, pediu moderação em nome do bloco das 27 nações, após os últimos acontecimentos na Venezuela, mas questionou a legitimidade do regime de Maduro. “A UE declarou repetidamente que o Sr. Maduro carece de legitimidade e defendeu uma transição pacífica”, disse Kallas em postagem no X. “Em todas as circunstâncias, os princípios do direito internacional e a Carta da ONU devem ser respeitados.”
Kallas disse ter conversado com o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e que a UE, assim como muitos outros países europeus, está “monitorando de perto” a situação. “A segurança dos cidadãos da UE no país é nossa principal prioridade”, afirmou. (Com informações de DW)