O Nobel é da Paz, mas ela é da luta – e boa inspiração pra gente aqui.

Por André Forastieri

A difícil de aceitar, recém-chegados nós a Johannesburgo, entrando em um shopping classe média, 1997. Três restaurantes um ao lado do outro: um só com brancos, um só com negros, um só com indianos. Água, óleo, vinho, imiscíveis. Em teoria o Apartheid já era história desde 1994. A prática era outra, mesmo sendo então Nelson Mandela o presidente.

Não é muito conhecida a história dos imigrantes da Índia para a África do Sul. São menos de 3% da população hoje. Foram levados para lá pelo Império Britânico, a maioria como trabalhadores braçais, outros como funcionários da burocracia da colônia. O mais famoso não nasceu no país, mas lá morou por 21 anos e começou sua luta por direitos civis: um advogado, Mohandas Gandhi.

Foi nessa África do Sul, num bairro pobre de Durban, que nasceu em 1941 Navanetham Naidoo, em uma família Tamil. Seus avós vieram da Índia para trabalhar em condições análogas à escravidão em plantações de cana de açúcar.

Seu pai era motorista de ônibus e fazia bicos pra complementar a renda. A mãe criava os oito filhos. Insistiram para que toda a filharada estudasse, as mulheres também.

Quando Navi tinha cinco anos, foi roubada na rua. Sua mãe tinha lhe entregue um dinheiro para levar a seu pai. Navi teve que testemunhar no tribunal. O ladrão foi preso. O dinheiro não foi recuperado.

Boa estudante, escrevia bem, seguiu estudando financiada por vaquinhas da comunidade Tamil e uma bolsa da universidade de Durban, onde se formou em direito. As classes eram segregadas racialmente.

Em 1967 foi a primeira mulher não-branca a abrir um escritório de advocacia na sua província, Natal, hoje Kwazulu-Natal. Em 1971 seu marido, também advogado, foi preso pelo regime. Navi questionou juridicamente o direito do governo de torturar seus prisioneiros, ele inclusive.

Em 1973 ela conseguiu o direito a representação legal para os prisioneiros políticos da cadeia de Robben Island, inclusive Nelson Mandela. Mais tarde conquistaria mestrado em Harvard. Durante seus 28 anos como advogada, sempre defendeu os militantes do Congresso Nacional Africano.

Em 1992, Navi co-fundou o grupo internacional de defesa da mulher, Equality Now. Em 1995, foi indicada por Mandela à Suprema Corte da África do Sul, a primeira não-branca a ocupar este cargo.

Também em 1995 foi indicada para a Corte Internacional de Justiça, onde ficou por oito anos, quatro como presidente. Entre julgamentos marcantes, os crimes contra a humanidade em Ruanda e no Congo.

Em 2008 Pillay se tornou Alta Comissária para os Direitos Humanos, onde ficou por seis anos. É longa sua lista de contribuições à justiça e aos direitos fundamentais – Síria, Rohyngia, mulheres, minorias, gays.

Em 2011 foi fundamental para aprovação da resolução pelos direitos LGBT. Assinou o documento “Born Free and Equal”, que estabelece sob a lei internacional os direitos à orientação sexual e identidade de gênero.

Esta é a mulher que chefiou a comissão internacional independente sobre a Palestina, que em setembro de 2025 determinou que Israel cometeu genocídio em Gaza e decretou a prisão de Netanyahu.

Esta é a mulher que acaba de receber o Prêmio Nobel da Paz.

Foi imediatamente e duramente criticada pelos governos israelense e americano. Os EUA impuseram novas sanções à Corte Internacional de Justiça. É uma nação pária protegendo outra, “rogue states” ambas. A elas em breve pode se juntar o Brasil, conforme o resultado da eleição presidencial.

Existem muitas diferenças entre Lula e Flávio Bolsonaro. Dia desses João Moreira Salles escreveu que basta uma: a admiração do clã Bolsonaro pelo torturador Ustra.

É suficiente. Tem outra definitiva: Flávio Bolsonaro foi a Israel pedir o apoio de Netanyahu, que recebeu. E essa semana o convidou para visitar o Brasil.

Lula chamou Netanyahu pelo que ele é: genocida. E quem investigou, julgou, provou e condenou foi a corte liderada por Navi Pillay.

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