As pesquisas internas e os levantamentos diários de acompanhamento eleitoral, conhecidos no jargão político como trackings, acenderam o sinal de alerta máximo nos comitês das principais candidaturas à Presidência da República. O psiquiatra, escritor e candidato Augusto Cury (Avante) registrou um salto vertiginoso e sem precedentes em suas intenções de voto no decorrer dos últimos dias, movimento que alterou a dinâmica das projeções e gerou forte apreensão entre os articuladores partidários. O avanço repentino, contudo, passou a ser acompanhado por pesadas denúncias de irregularidades e manipulação digital trazidas à tona por apurações da GloboNews, que indicam a possível existência de um esquema ilegal de disparo de robôs e contratação não declarada de influenciadores em massa.

O elemento central da controvérsia reside na velocidade atípica da expansão do candidato nas redes sociais. Em um intervalo de apenas cinco dias, a conta oficial do psiquiatra arrebanhou mais de dois milhões de novos seguidores. De acordo com informações reveladas pela jornalista Natuza Nery, a disparada gerou forte estranhamento e desconfiança generalizada entre praticamente todos os seus adversários políticos e diretórios partidários, que enxergam no fenômeno traços inequívocos de uma mobilização artificial e não orgânica.

Estudos de métricas e monitoramento digital encomendados sigilosamente por diferentes campanhas adversárias mapearam uma engrenagem coordenada. Segundo o repórter Pedro Figueiredo, pelo menos 200 influenciadores digitais de pequeno e médio porte, com nichos de público entre 20 mil e 50 mil seguidores, começaram a declarar voto em Cury de forma simultânea e padronizada. O fato que mais chamou a atenção, diz ele, foi o perfil dessas contas, voltadas prioritariamente a temas alheios ao debate político institucional, tais como rotinas fitness, gastronomia e estilo de vida.

Segundo a cobertura do canal de notícias, diferentes frentes de investigação jurídica e técnica trabalham para averiguar se a campanha do candidato Cury está fazendo uso de bots (robôs automatizados) e realizando pagamentos não declarados a produtores de conteúdo, conduta expressamente vedada pela legislação eleitoral vigente.

A apuração conduzida por Figueiredo trouxe bastidores que conectam o fenômeno à atuação do coach Pablo Marçal, hoje inelegível. Integrantes da própria equipe de Cury relataram, sob reserva, que o crescimento explosivo teve início logo após uma participação do psiquiatra em uma transmissão no canal de Marçal. O episódio levantou a suspeita de que o coach possa ter acionado suas redes subterrâneas de militância digital, caracterizadas pelo uso de seguidores engajados e pela ativação de fazendas de robôs nas redes sociais.

Outro ponto de forte ruído na pré-campanha envolve a estrutura financeira e de marketing do candidato. Pedro Figueiredo destacou que o marqueteiro Leandro Grôppo desembarcou da campanha sob a justificativa oficial de escassez de recursos orçamentários para a promoção da candidatura. Diante do orçamento enxuto informado à Justiça Eleitoral, analistas e analistas do canal questionam a origem dos investimentos que sustentam a volumosa onda de engajamento digital em favor do médico: “De onde estaria vindo o dinheiro para isso?”, indaga a reportagem.

Conforme ressaltado por debatedores da GloboNews, observa-se uma verdadeira avalanche de comentários padronizados espalhados por diversas plataformas digitais, invariavelmente encerrando as mensagens com a digitação do número do candidato nas urnas. O padrão repetitivo e massivo configura, segundo especialistas em redes digitais, um comportamento atípico que evidencia a atuação automatizada de sistemas computacionais. A jornalista Anaflor informou que os indícios de irregularidades já foram formalmente encaminhados e estão sob análise do Tribunal Superior Eleitoral, o TSE.

Reforçando a anomalia do caso, o jornalista Valdo Cruz revelou dados de um serviço internacional de monitoramento de redes sociais demonstrando que Augusto Cury se tornou a personalidade pública que mais somou novos seguidores no planeta ao longo de uma única semana. Embora a condição de escritor de bestsellers confira ao candidato um público prévio expressivo, a velocidade do salto recente destoa por completo dos padrões do mercado digital.

Para a analista Natuza Nery, a engrenagem observada no caso de Cury guarda profunda semelhança com a estratégia aplicada por Pablo Marçal durante a disputa pela Prefeitura de São Paulo em 2024. Naquela ocasião, conforme rememorou a jornalista, qualquer publicação jornalística ou postagem em redes sociais a respeito do candidato gerava uma reação imediata e coordenada de milhares de perfis automatizados, inundando os campos de comentários com conteúdo favorável em questão de segundos. A repetição do método em escala nacional coloca a campanha de Augusto Cury sob o escrutínio das autoridades eleitorais e ameaça desdobrar-se em severas sanções judiciais.

SALTO SURPREENDENTE

A pesquisa BTG/Nexus sobre a eleição presidencial, divulgada nesta segunda-feira (31), mostra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ampliando de quatro para seis pontos percentuais sua vantagem sobre Flávio Bolsonaro (PL) no principal cenário de primeiro turno. A grande novidade, porém, é Augusto Cury (Avante), que salta de 2% para 11% em apenas uma semana e se consolida isoladamente na terceira posição.

Lula aparece com 39% das intenções de voto, contra 33% de Flávio Bolsonaro. Na rodada anterior, divulgada em 24 de agosto, o presidente tinha 41% e o candidato do PL, 37%. Os dois oscilaram para baixo, mas Flávio perdeu quatro pontos, ante dois de Lula, ampliando a distância entre eles.

O movimento mais expressivo da rodada é o de Augusto Cury. Há uma semana, o escritor registrava apenas 2% no mesmo cenário. Agora, chega a 11% — crescimento de nove pontos percentuais, muito superior à margem de erro do levantamento, de dois pontos.

A arrancada também aparece na pesquisa espontânea, quando os entrevistadores não apresentam os nomes dos candidatos. Nela, Lula tem 37%, Flávio Bolsonaro, 30%, e Cury já aparece com 8%. Há uma semana, o escritor marcava 1% na espontânea.

No principal cenário estimulado apresentado pela Nexus, sem Pablo Marçal entre os candidatos, o resultado é o seguinte. As siglas correspondem às candidaturas registradas para a eleição de 2026.

  • Lula (PT): 39%
  • Flávio Bolsonaro (PL): 33%
  • Augusto Cury (Avante): 11%
  • Ronaldo Caiado (PSD): 5%
  • Renan Santos (Missão): 3%
  • Romeu Zema (Novo): 1%
  • Samara Martins (UP): 1%
  • Rui Costa Pimenta (PCO): 0%
  • Hertz Dias (PSTU): 0%
  • Edmilson Costa (PCB): 0%
  • Wilson Grassi (Democrata): 0%
  • Clariana Barão (DC): 0%
  • Nenhum/branco/nulo: 3%
  • Não sabe/não respondeu: 3%

Na rodada anterior, Lula registrava 41%, Flávio Bolsonaro, 37%, e Cury, 2%. Caiado tinha 5%, Renan Santos e Zema, 3% cada. Portanto, além do crescimento de Cury, a rodada mostra Lula ampliando de quatro para seis pontos a distância para Flávio.

(Transcrito de Revista Fórum)

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