Carta aprovada por unanimidade no encontro nacional não nasceu de uma operação eleitoral; é consequência de dez anos de mobilização em defesa da democracia e de um Brasil onde todos tenham lugar à mesa

Por Marcelo Santos

Mais uma vez, a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito ocupa os noticiários por sua posição em defesa da democracia. Desta vez, pela carta aprovada em nosso encontro nacional, realizado no último fim de semana, no Rio de Janeiro. Por decisão unânime, declaramos apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A carta é resultado da própria história da Frente. Expressa uma posição construída ao longo de dez anos de caminhada, mobilização e resistência, sempre orientada pela defesa da democracia, dos direitos e da soberania nacional.

Desde então, participamos de mobilizações, realizamos pesquisas e articulamos pessoas evangélicas em diferentes regiões do país. Criamos também o “Papo de Crente”, projeto de rádio e internet que fala sobre direitos e políticas públicas na linguagem da nossa fé, e produzimos revistas de estudos bíblicos distribuídas gratuitamente pelo Brasil.

Estamos nas redes, nas igrejas, nas ruas e nos espaços institucionais para lembrar que a fé cristã não pertence a um único campo ideológico e que o povo evangélico não é uma massa uniforme.

Às vezes, somos chamados de “evangélicos progressistas”. Alguns de nós se reconhecem nessa expressão; outros, não. A Frente, porém, nunca exigiu esse adjetivo como condição de pertencimento. Quando usada para separar os “progressistas” dos demais crentes, a palavra cria uma cisão que não corresponde àquilo que somos e ainda ergue uma barreira desnecessária entre irmãos e irmãs.

Somos um movimento de pessoas evangélicas. Gente de fé, de diferentes igrejas e tradições, que crê em Jesus de Nazaré e procura levar a sério os seus ensinamentos. É justamente por causa dessa fé — e não apesar dela — que tomamos partido diante da injustiça, da fome, da violência, do autoritarismo e da retirada de direitos. Jesus também tomou partido: aproximou-se dos pobres, alimentou os famintos, recebeu os rejeitados, confrontou os poderosos e anunciou boas notícias aos que sofriam.

Não queremos criar uma nova fronteira dentro do povo evangélico, muito menos substituir uma tentativa de hegemonia por outra. Queremos disputar o sentido público da nossa fé e reafirmar que nenhum líder, partido ou campo político está autorizado a falar em nome de todos os evangélicos.

Sabemos disso não apenas pelas pesquisas, mas pelas pessoas que conhecemos nessa caminhada. Evangélicos são mulheres e homens, negros, pardos e brancos, trabalhadores formais e informais, jovens e idosos, moradores do centro e das periferias. Suas escolhas são atravessadas por todas essas experiências. Por isso, não podemos aceitar a expressão “voto evangélico” quando ela é usada como se descrevesse um comportamento único e previsível.

Há dez anos, numa noite que começou quente, mas esfriou depressa, éramos poucos (talvez dez ou quinze pessoas) sob o vão do Masp. De mãos dadas, orávamos enquanto a cidade seguia seu fluxo: o vendedor de trufas, os casais de namorados, os homens e mulheres em situação de rua. Sem empresários, câmeras de televisão ou palanque, éramos apenas uma pequena roda de gente simples orando pelo Brasil.

“Uma pessoa que ora é uma multidão”, ensinou o pastor Ariovaldo Ramos, um dos fundadores do movimento, ao lado da jornalista e coordenadora executiva Nilza Valeria e de Anivaldo Padilha.

Anivaldo estava ao meu lado naquela noite. Era um senhor magro, então com 76 anos, de voz baixa e tranquila. A aparência pacata escondia um valente. Metodista histórico, havia dedicado a vida à fé em Deus e às causas populares.

Oito anos antes de eu nascer, ele fora preso e torturado pela ditadura militar. Passou pelo Presídio Tiradentes, o mesmo onde Dilma Rousseff esteve presa, e depois precisou deixar o país como exilado político. Sua mulher permaneceu no Brasil, grávida do filho que mais tarde se tornaria o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

Naquela noite, segurei a mão de Anivaldo e o vi chorar. Ele orava pelo Brasil e pelos direitos dos trabalhadores, que já estavam sob ameaça. Chorava porque conhecia o preço do autoritarismo no próprio corpo. “Nem nos tempos da ditadura houve um avanço tão grande contra os direitos dos mais frágeis. Eu não imaginava que isso pudesse acontecer outra vez”, lamentou, aos prantos.

Fazia algum tempo que eu não orava. Andava meio bravo, meio envergonhado. Mas, naquela noite, orei e me senti crente como há muito não me sentia. Quando, ainda jovem, numa Igreja do Evangelho Quadrangular do bairro da Penha, em São Paulo, levantei a mão e disse que cria em Jesus, foi porque desejava uma vida movida por questões maiores que o meu próprio umbigo.

Acreditei num mundo em que os meninos da Praça da Sé poderiam brincar de bola com os meninos dos colégios ricos da cidade e, depois, mergulhar juntos na mesma piscina de águas quentinhas. Todos felizes, rindo.

Naquela noite, voltei a pedir a Deus por justiça, igualdade e democracia. Foi em pequenas rodas como aquela que a Frente ganhou corpo, movida por uma fé comprometida com a vida abundante, os direitos, a liberdade, a soberania e o cuidado com os mais vulneráveis.

Dez anos depois, a carta de apoio a Lula dá continuidade a essa história. Não tomamos partido porque deixamos a fé de lado. Tomamos partido justamente porque cremos em Jesus de Nazaré e porque os seus ensinamentos não nos permitem assistir em silêncio ao avanço da injustiça. Diante da escolha entre um projeto democrático e outro que ameaça as urnas, estimula a violência e retira direitos, a neutralidade também seria uma escolha.

Não somos apenas “evangélicos progressistas” apoiando um candidato. Somos pessoas evangélicas que, a partir da fé, da história e da realidade do nosso povo, decidiram assumir publicamente uma posição. Não falamos por todos os crentes, mas também não permitiremos que outros falem em nome de todos nós.

Reconhecemos a importância da liderança do presidente Lula na resistência às forças que tentaram romper a ordem constitucional e na defesa da soberania brasileira diante das pressões externas. Por isso, apoiamos a continuidade de um projeto democrático e popular sob sua condução.

Esse apoio não é um cheque em branco. Não retira da Frente sua autonomia, sua capacidade de diálogo ou sua responsabilidade profética. Continuaremos cobrando compromissos e defendendo avanços nas políticas sociais, trabalhistas, ambientais, raciais, econômicas, de gênero e de direitos humanos. Apoiar não significa silenciar. Significa escolher um lado sem abandonar a consciência.

Essa decisão não é apenas eleitoral. Ela carrega a esperança teimosa de quem acredita que o Brasil pode ser uma casa onde todas as pessoas tenham lugar à mesa.

Por isso, escolhemos apoiar a continuidade do governo Lula. Fazemos essa escolha como cidadãos, como movimento e como pessoas de fé. E seguimos, como ensinou Jesus, com fome e sede de justiça.

 *Marcelo Santos é jornalista e coordenador de comunicação da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito.

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