
POR GERSON NOGUEIRA
A cerimônia brega montada pela CBF para divulgar a lista de convocados para o Mundial pareceu empolgação de emergente estreando na Copa do Mundo, coisa de marinheiro de primeira viagem. Não era para tanto. Na relação de nomes, triunfo absoluto da mídia hegemônica, agentes, patrocinadores e bajuladores em geral.
Carlo Ancelotti chamou Neymar, como já se especulava. Avesso a problemas, o italiano preferiu tocar o barco sem tretas. Ainda saiu com aquele papo gracioso de que o camisa 10 vai ser importante na Copa, contrariando a previsão da mídia especializada internacional, que se mostrou espantada com a convocação do camisa 10 santista.
Atitude normal para um profissional experiente, com passagens vitoriosas pelos mais importantes clubes do mundo, mas é inegável que foi uma pipocada histórica. Ancelotti cedeu às pressões diversas – teve até deputado propondo lei para forçar a convocação – e acabou revelando uma subserviência digna de Dorivaldos, Lazaronis, Zagallos, Tites & cia.
Quem esperava independência, viu apenas submissão. Escrevi hoje no blog sobre as patacoadas midiáticas do craque imaginário Neymar, convencido de que seria convocado com todas as honras e pompas. Preocupa o fato de que Ancelotti ficará no comando até 2030, correndo o risco de ser visto e tratado como um medroso sem personalidade.
O regabofe no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, foi cuidadosamente planejado para celebrar o êxito de uma portentosa campanha de lobby. No fim das contas, não era propriamente a convocação de 26 jogadores, mas algo na linha de Neymar e mais 25, o que configura uma aberração.
De bom, a lembrança de jogadores que pareciam fora dos planos. Weverton, que começou a carreira no Evandro Almeida, foi justificadamente lembrado para substituir Bento. Os impetuosos Endrick e Rayan não podiam ficar de fora, assim como o botafoguense Danilo.
De ruim, a segunda parte do lobby: uma penca de rubro-negros que não entregam em campo a louvação dedicada a eles. Em condições normais, Léo Pereira, Danilo, Alexsandro e Paquetá jamais estariam na lista. Têm muito a agradecer ao lobby que glorifica tudo que vem do Flamengo.
E ainda escapamos por pouco de ver o limitado Pedro de novo na Seleção. Em 2022, no Qatar, tropeçou em duas jogadas, mas saiu de campo sem arranhões. Por incrível que pareça, ressuscitou como nome cotado em várias listas de gente considerada séria.
Com os negacionistas da bola plenamente satisfeitos, fica todo mundo feliz, pelo menos no mundinho plastificado e traiçoeiro das aparências. Anunciantes exultam, parças do Menino Ney se regozijam e a Seleção que se vire. Enfim, como diria o sábio Saldanha, vida que segue.
A maior derrapada da história das convocações
O atacante João Pedro, do Chelsea, que brilhou no Mundial de Clubes, pediu tanto a convocação do ídolo Neymar que acabou perdendo a vaga – para o próprio Neymar. Carlo Ancelotti atendeu seu pedido.
João Pedro estava em todas as listas de prováveis convocados até cair na besteira de dar uma entrevista ao canal TNT derramando elogios a Neymar. Autossabotagem pura.
Evolução física explica boa fase de Marcelinho
Um dos nomes mais questionados por parte da torcida do Remo quando o campeonato começou, Marcelinho era visto no máximo como um reserva. Pesava nessa avaliação o fato de ser um remanescente da campanha na Série B, o que gerava um indisfarçado ranço de preconceito.
Na bola, com esforço e disciplina, o lateral-direito reverteu as expectativas. Para isso, contribuiu a evolução no plano físico, após se recuperar de uma lesão no início da competição. Aos poucos, foi mostrando a todos que tinha futebol para mostrar e convencer.
Sob o comando de Léo Condé, Marcelinho evoluiu muito, a ponto de se tornar um titular incontestável, peça estratégica no modelo de jogo que a equipe pratica hoje. A técnica que sempre teve permite fugas pelo lado direito e faz dele uma arma ofensiva preciosa para o Remo.
Marcou um gol de cabeça contra o RB Bragantino, posicionando-se como um atacante que ataca espaços. Contra o Bahia, na Fonte Nova, deu um pique de 30 metros para cruzar uma bola na cabeça de Alef Manga nos minutos de acréscimo de uma partida desgastante.
Ali ficou evidenciada a exuberância física que faltou no período em que o Remo ainda era treinado por Juan Carlos Osório, com as incertezas próprias daquele momento. Recondicionado, Marcelinho passou a ser o ala veloz e preciso nos cruzamentos que o time não tinha.
Na partida diante do Botafogo, no Rio, outra boa participação dele, fundamental para o triunfo. No domingo, contra a Chapecoense, Marcelinho pareceu juntar todas as boas performances anteriores e entregou na Arena Condá um desempenho que teve grande importância no resultado final.
Além da participação nos lances do segundo e do terceiro gols, o ala apareceu para finalizar em três situações agudas. Não há dúvida de que, a partir de agora, Marcelinho deixa de figurar no grupo de jogadores que sempre encabeçavam as cobranças mais azedas da torcida azulina.
(Coluna publicada na edição do Bola desta terça-feira, 19)
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